Alf Ross - Direito e Justiça - Ano 2000
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Alf Ross - Direito e Justiça - Ano 2000


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das regras comumente tidas como um ordenamento 
jurídico nacional, a quem são dirigidas e qual é o seu significado.
2. "Gesetzliches Unrecht und iibergesetzliches Recht," Anhang 4 in Gustav Radbruch, Rechtsphilosophie (4* ed., 1950),
347 e segs.
3. Charles L. Stevenson, Ethics andLanguage (1944), 206 e segs.
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As normas jurídicas podem ser divididas, de acordo com seu con­
teúdo imediato, em dois grupos: normas de conduta e normas de 
competência. Ao primeiro grupo pertencem as normas que prescre­
vem uma certa linha de ação, por exemplo, a regra da Lei Uniforme 
de Instrumentos Negociáveis {Uniterm Negotiabie Instruments Act), 
seção 62, que prescreve que aquele que aceita um instrumento ne­
gociável se obriga a pagar de acordo com o teor de sua aceitação. O 
segundo grupo contém as normas que criam uma competência (po­
der, autoridade) - são diretivas que dispõem que as normas que são 
criadas em conformidade com um modo estabelecido de procedimen­
to serão consideradas como normas de conduta. Uma norma de com­
petência é, deste modo, uma norma de conduta expressa indireta­
mente. As normas da Constituição concernentes à legislatura, por 
exemplo, são normas de conduta expressas indiretamente que pres­
crevem comportamento de acordo com as normas ulteriores de con­
duta que sejam criadas por via legislativa.
A quem são dirigidas as normas de conduta? O Uniterm Negotiabie 
InstrumentsAct, seção 62, por exemplo, prescreve aparentemente como 
uma pessoa que aceitou uma letra de câmbio deverá se comportar. 
Porém, este enunciado não esgota o significado normativo de tal nor­
ma; na verdade, não chega sequer a se aproximar do que é realmente 
relevante. A seção 62 é, ao mesmo tempo, uma diretiva aos tribunais 
quanto a como, num caso que se enquadre nessa regra, deverão exer­
cer sua autoridade. É óbvio que é somente isto que interessa ao juris­
ta. Uma medida legislativa que não encerre diretivas para os tribunais 
só pode ser considerada como um pronunciamento ideológico-moral 
sem relevância jurídica. Inversamente, se a medida contiver uma diretiva 
para os tribunais, não haverá necessidade de dar aos indivíduos parti­
culares instruções adicionais relativas à sua conduta. São dois aspectos 
do mesmo problema. A instrução (diretiva) ao particular está implícita 
no fato de que ele sabe que reações pode esperar da parte dos tribu­
nais em dadas condições. Se desejar evitar essas reações, tal saber o 
levará a se conduzir da forma que está de acordo.
As normas do direito penal são redigidas dessa maneira. Nada 
dizem a respeito da proibição aos cidadãos de cometerem homicí­
dio, limitando-se a indicar ao juiz qual será a sentença em tal caso. 
Nada impede, em princípio, que as regras do Negotiabie Instruments 
Act ou quaisquer outras normas de conduta, sejam formuladas do
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mesmo modo. Isto mostra que o conteúdo real de uma norma de 
conduta é uma diretiva para o juiz, enquanto a instrução (diretiva) ao 
particular é uma norma jurídica derivada ou norma em sentido figura­
do, deduzida daquela.4
As normas de competência são redutíveis a norma de conduta, 
tendo, portanto, que ser também interpretadas como diretivas aos 
tribunais.
A sentença é a base da execução. Seja qual for a forma que a 
sentença possa assumir, ela constitui potencialmente o exercício de 
força física contra uma pessoa que não quer agir de acordo com o 
teor da sentença.
Um "juiz" é uma pessoa qualificada de acordo com as regras que 
regem a organização dos tribunais e a designação ou eleição dos 
juizes. Deste modo, as regras do direito privado (dirigidas aos juizes) 
estão integradas às regras do direito público. O direito em sua tota­
lidade determina não só - nas regras de conduta - em que condições 
o exercício da força será ordenado, como também determina as 
autoridades públicas, os tribunais, estabelecidos para ordenar o 
exercício da força.5
O corolário natural disso e que confere ao exercício público da 
força seu efeito e significado especial é que o direito ao exercício da 
força física é, em todos os aspectos essenciais, o monopólio das 
autoridades públicas. Naqueles casos nos quais existe um aparato 
para o monopólio do exercício da força, dizemos que há um Estado.
Em síntese: um ordenamento jurídico nacional é um corpo inte­
grado de regras que determina as condições sob as quais a força 
física será exercida contra uma pessoa; o ordenamento jurídico 
nacional estabelece um aparato de autoridades públicas (os tribu­
nais e os órgãos executivos) cuja função consiste em ordenar e 
levar a cabo o exercício da força em casos específicos; ou ainda 
mais sinteticamente: um ordenamento jurídico nacional é o con­
junto de regras para o estabelecimento e funcionamento do apa­
rato de força do Estado.
4. Esta questão volta a ser discutida no parágrafo 11, onde é explicado que as normas jurídicas em sentido figurado
também cumprem uma função ideologicamente motivadora independente do receio das sanções.
5. Os fatos se revelam um tanto mais complicados porque em alguns casos relativamente raros, a força pode ser ordena­
da diretamente por órgãos administrativos sem a intervenção dos tribunais.
§ & A VIGÊNCIA DO ORDENAMENTO JURÍDICO
O ponto de que partimos é a hipótese de que um sistema de 
normas será vigente se for capaz de servir como um esquema 
interpretativo de um conjunto correspondente de ações sociais, de 
tal maneira que se torne possível para nós compreender esse conjun­
to de ações como um todo coerente de significado e motivação e, 
dentro de certos limites, predizê-las. Esta capacidade do sistema se 
baseia no fato das normas serem efetivamente acatadas porque são 
sentidas como socialmente obrigatórias.
Ora, quais são esses fatos sociais que como fenômenos jurídicos cons­
tituem a contrapartida das normas jurídicas? Têm que ser as ações hu­
manas regulamentadas pelas normas jurídicas. Estas, como vimos, são, 
em última análise, normas que determinam as condições sob as quais a 
força será exercida por meio do aparato do Estado; ou, concisamente: 
normas que regulamentam o exercício da força ordenado pelos tribu­
nais. Conclui-se disso que os fenômenos jurídicos que constituem a 
contrapartida das normas têm que ser as decisões dos tribunais. É aqui 
que temos que procurar a efetividade que constitui a vigência do direito.
Em conformidade com isso, um ordenamento jurídico nacional, 
considerado como um sistema vigente de normas, pode ser definido 
como o conjunto de normas que efetivamente operam na mente do 
juiz, porque ele as sente como socialmente obrigatórias e por isso as 
acata. O teste da vigência é que nesta hipótese - ou seja, aceitando o 
sistema de normas como um esquema interpretativo - podemos com­
preender as ações do juiz (as decisões dos tribunais) como respostas 
plenas de sentido a dadas condições e, dentro de certos limites, po­
demos predizer essas decisões - do mesmo modo que as normas do 
xadrez nos capacitam a compreender os movimentos dos jogadores 
como respostas plenas de sentido e predizê-los.
A ação do juiz é uma resposta a muitas condições determinadas 
pelas normas jurídicas, digamos, que se tenha celebrado um contrato 
de venda, que o vendedor não tenha entregado a coisa vendida, que 
o comprador a tenha reclamado oportunamente, etc. Ademais, todos 
esses fatos condicionantes ganham seu significado específico como 
atos jurídicos através de uma interpretação feita à luz da ideologia 
das normas. Por esta razão, poderiam ser abrangidos pela expressão 
fenômenos jurídicos no seu sentido mais lato ou direito em ação.
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Todavia, somente os fenômenos jurídicos no sentido mais restrito
- a aplicação do direito pelos tribunais - são decisivos para determinar 
a vigência das normas jurídicas. Contrastando com as idéias geral­
mente