Alf Ross - Direito e Justiça - Ano 2000
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pelos tribunais.
As condições indicadas determinam, ao mesmo tempo, o método 
de verificação. Para verificar uma proposição acerca do direito vigen­
te é preciso satisfazer as condições prescritas e observar a decisão. O 
fato de que eu próprio possivelmente não esteja numa posição para 
pôr em marcha esse processo carece de relevância. O significado de 
uma asserção está satisfatoriamente definido se ela puder, em princí­
pio, ser verificada, isto é, independentemente de dificuldades técni­
cas ou obstáculos. Por exemplo, a proposição de que a face oculta da 
lua é coberta de florestas detém, portanto, um significado certo, 
embora não tenhamos sido capazes até agora de observar essa face 
da lua. Acresça-se a isto que dispomos de todas as razões para con­
siderar falsa a proposição visto não ser compatível com muitas hipó- 
teses bem verificadas relativas às condições reinantes na lua. É pos­
sível elaborar uma argumento paralelo com respeito à asserção de 
que uma medida legislativa que foi derrogada logo após sua aprova­
ção, sem ter sido aplicada, foi direito vigente durante o período inter­
mediário. Embora não tenhamos podido verificar a asserção por meio 
de observação direta, com base em muitas outras pressuposições 
bem verificadas relativas à mentalidade dos juizes, dispomos de boas 
razões para considerar a asserção verdadeira.
2o) Em segundo lugar, requer-se uma definição mais exata do que 
significa a regra ser aplicada pelos tribunais. Se tomarmos a seção 62 
mencionada anteriormente, seu "ser aplicada" não pode se referir a 
uma sentença de um determinado teor, por exemplo, que se ordene ao
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sacado pagar a letra, já que é possível que em conformidade com 
outras regras jurídicas possa ele opor uma contestação sustentável. 
Poderia ocorrer, por exemplo, que se tratasse de um menor ou que o 
detentor do documento tivesse cometido algum ato que tenha prejudi­
cado seus direitos.12 A seção 62 obviamente pertence a um todo coe­
rente de significado associado a várias outras regras jurídicas. Conse­
qüentemente, sua "aplicação" na prática jurídica só pode significar que 
nas decisões nas quais se supõe existirem os fatos condicionantes de 
tal regra, esta forma parte essencial do raciocinar que funda a senten­
ça e que, portanto, a regra em questão constitui um dos fatores decisi­
vos que determinam a conclusão a que chega o tribunal.
É possível combinar as definições mais precisas expostas em 1. e 
2. na fórmula seguinte: o conteúdo real da asserção
A = seção 62 do Uniform Negotiabie Instruments Act constitui direi­
to vigente na atualidade num certo Estado é uma predição no sentido 
de que se ante os tribunais desse Estado se instaura uma ação na qual 
se afirma a existência dos fatos condicionantes de tal seção 62, e se no 
ínterim não houve modificações nas circunstâncias que constituem o 
fundamento de A, a diretiva ao juiz, contida naquela regra, será parte 
essencial do raciocinar em que se funda a sentença.
A é considerada como verdadeira se dispomos de boas razões para 
supor que essa predição será cumprida.
Mesmo após terem sido ditadas uma ou mais decisões que veri­
ficam A, A continuará sendo, em princípio, uma predição incerta 
relativamente a decisões jurídicas do futuro. A questão da verdade 
de A não está ainda resolvida de forma definitiva. Suponhamos que 
At representa a asserção A formulada no tempo t. Uma decisão 
jurídica subseqüente ditada no tempo t certamente verifica A, mas 
não A tl. A decisão simplesmente supre apoio adicional à hipótese 
de que A ainda é, isto é, agora no tempo t l, direito vigente. Apesar 
de tudo que ocorreu e que ocorre, o enunciado que alude ao direito 
do presente sempre mantém referência com o futuro.
12. Não são levadas em conta aqui as regras de procedimento que estabelecem a exclusão provisional de certas contes­
tações num caso tocante a letras de câmbio.
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A verdade de A não pressupõe que estejamos em posição de pre­
dizer com razoável certeza o resultado de uma futura ação jurídica 
concreta, mesmo se estivermos de posse dos fatos relevantes. Em 
primeiro lugar, o resultado dependerá da prova produzida e da avalia­
ção de que será objeto. Como, por exemplo, as testemunhas se com­
portarão no tribunal, e que impressão terá o juiz de sua confiabilidade? 
A avaliação da prova é, em tão grande medida, condicionada subjeti­
vamente, que esta razão por si só elimina toda possibilidade de calcu­
lar antecipadamente com certeza o resultado de casos nos quais há 
fatos controvertidos.13 E, ademais, a interpretação das regras jurídi­
cas oferece pontos vitais de incerteza, os quais serão examinados no 
capítulo IV. Finalmente, as idéias do juiz acerca do que é o direito 
vigente não constituem o único fator que o motivam.
Este último ponto é particularmente interessante, já que o grau 
em que o juiz é motivado por outros fatores além dos fatores ideoló- 
gico-jurídicos é decisivo para o valor prático da ciência do direito, a 
qual se ocupa da ideologia normativa pela qual o juiz é animado. Um 
conhecimento desta ideologia (e sua interpretação) nos capacita, 
portanto, a calcular antecipadamente com considerável certeza o fun­
damento jurídico de certas decisões futuras, fundamento que apare­
cerá nos argumentos. Mas que relação existe entre os argumentos e 
a sentença (parte dispositiva), a qual naturalmente é o que realmen­
te desejamos predizer?
No que respeita a essa questão há grande diversidade de opiniões. 
O ponto de vista tradicional não questiona que a sentença (parte 
dispositiva) seja o resultado do raciocínio realizado nos argumentos. 
A decisão, de acordo com essa opinião, é um silogismo. Os argumen­
tos contêm as premissas, a sentença (parte dispositiva), a conclusão. 
Em oposição a este parecer, alguns estudiosos de época mais recente
13. Este ponto de vista foi enfaticamente defendido por Jerome Frank; ver, por exemplo, Courts on Trial 11949), que 
destaca os fatores de inconfiabilidade inerentes às observações e depoimentos da testemunha e resultantes, ainda, 
das inclinações pessoais do juiz ao valorar o testemunho. A afirmação que se segue é característica desse modo de 
ver de Frank: "É provável que as simpatias e antipatias do juiz se revelem ativas relativamente às testemunhas. Seu 
próprio passado pode ter criado nele uma reação favorável ou desfavorável em relação às mulheres, ou mulheres 
louras, ou homens com barba, ou sulistas, ou italianos, ou ingleses, ou encanadores, ou sacerdotes, ou bacharéis, ou 
democratas. Um certa contração do rosto, tosse ou gesto pode suscitar lembranças, agradáveis ou desagradáveis. 
Essas lembranças do juiz ao ouvir uma testemunha acometida por tal contração facial, tosse ou gesticulação, 
podem afetar a escuta inicial do juiz, ou sua recordação posterior, do que foi dito pela testemunha, ou a importância 
e credibilidade que o juiz atribuirá ao depoimento da testemunha." {op. cit., 1511.
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têm sustentado que o raciocínio feito nos argumentos não passa de 
uma racionalização da sentença (parte dispositiva). Com efeito - di­
zem - o juiz toma sua decisão em parte guiado por uma intuição 
emocional e em parte com base em considerações e propósitos práti­
cos. Uma vez estabelecida a conclusão, o juiz encontra uma adequa­
da argumentação ideológica jurídica que justifique sua decisão. Usu­
almente isto não será difícil para ele. A variedade das regras, a incer­
teza de sua interpretação e a possibilidade de elaborar construções 
diversas sobre as matérias em debate geralmente permitirão que o 
juiz encontre uma roupagem jurídica plausível com que revestir sua 
decisão. A argumentação jurídica encerrada nos considerandos do 
silogismo não passa de uma fachada que visa a dar suporte à crença 
na objetividade da decisão.14
Não procurarei aqui aquilatar os méritos