Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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tência é coisa que de modo algum pode atribuir-se a Deus. 
Ademais, o ser substancial é anterior ao ser accidental. Ora, 
sendo Deus o primeiro ser, nada pode haver nêle acciden- 
talmente, nem pode ter propriedades essenciais (accidentia
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per sej, como, por exemplo, o rir no homem, que é uma 
faculdade accidental de rir, pois êsses princípios são causa­
dos pelos princípios do sujeito e, em Deus, não há nada 
causado, pois êle é a primeira causa.
Portanto, é fácil agora provar o primeiro atributo me­
tafísico de Deus.
A SIMPLICIDADE DE DEUS
E São Tomás o prova de várias maneiras:
A) Deus não tem composição de partes quantitativas, 
porque não é corpo, nem composição de matéria e forma, 
nem de natureza e supósito, nem de essência e existência, 
nem de gênero e diferença específica, nem de sujeito e acci- 
dente. Portanto, é absolutamente simples.
B) Ademais, o composto vem depois de seus compo­
nentes e dêles depende. Ora, Deus é o primeiro ser, logo 
é simples.
C) Todo composto tem causa, pois o que, por sua na­
tureza, é diverso, só forma um todo por virtude de uma 
causa que o unifica. Mas Deus não tem causa, pois é a pri­
meira causa eficiente.
D) Em Deus não há acto-potência, o que há em todo 
composto, porque ou uma parte é acto com respeito ao todo, 
ou, pelo menos, cada uma das partes está como em potência 
a respeito do todo.
EJ O todo é distinto de cada parte. Nos sêres hete­
rogêneos é isto evidente, pois nenhuma parte do homem é 
homem. Nos homogêneos, algo do que se diz do todo se 
diz também de suas partes, pois uma parte do ar é ar, da 
água, água, contudo algo se diz do todo que não convém a 
nenhuma das suas partes, pois se uma massa de água tem 
um litro, nenhuma das suas partes tem um litro. Portan­
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to, em todo composto há algo que não é o mesmo, e embora 
êsse mesmo se possa dizer das coisas que têm alguma forma 
(por ex.: no branco há algo mais que não é branco), nem 
por isso se pode dizer que haja na forma coisa alguma alheia 
a ela. Pois, se Deus é sua forma, ou melhor, o próprio ser, 
segue-se que de nenhum modo pode ser composto.
DEUS NÃO ENTRA EM COMPOSIÇÃO 
COM OUTROS SÊRES
E prova-o Tomás de Aquino, da seguinte forma:
A) Deus é a primeira causa eficiente, e esta não se 
identifica numérica, mas apenas especificamente com a for­
ma do efeito; e assim um homem engendra a outro homem. 
A matéria, por sua parte, não só não se identifica numè- 
ricamente com a causa eficiente, mas nem sequer é da mes­
ma espécie, porque a matéria está em potência; e a causa, 
em acto.
B) O que é parte de algum composto não pode ser, 
como tal, primeiro agente, e assim não é propriamente a 
mão a que faz alguma# coisa, mas o homem, com a mão, da 
mesma maneira que o fogo esquenta com o calor. Assim, 
Deus não pode ser parte de composto algum.
C) Nenhuma das partes de um composto pode ser em 
absoluto o primeiro ser, nem sequer a matéria e a forma, 
que são os primeiros elementos do composto.
E isto porque a matéria é potência, e a potência, em 
absoluto, é, como vimos, posterior ao acto. Por sua vez, a 
forma, que entra no composto, é uma forma participada, e, 
portanto, assim como o participe de algo é posterior ao que 
o tem por essência, o mesmo sucederia com o participado; 
dêste modo, por exemplo, o fogo, do que está aceso, é pos­
terior ao fogo por essência. Ora, Deus é o primeiro ser, 
já o mostrou Tomás de Aquino.
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Convém que se esclareçam certos termos: duas coisas 
diferem uma da outra quando entre elas há diferenças (di- 
fero, levar para dois vectores, di). Há uma diferença en­
tre homem e cavalo, como a racionalidade no primeiro; 
por isso diferem. A matéria prima e Deus não diferem 
propriamente, mas são diversas, pois o têrmo diverso tem 
sentido absoluto uma vez que Deus e matéria prima são 
diversos por si mesmos não podendo, por isso, ser a mesma 
coisa o que justifica o postulado de que Deus não entra em 
qualquer composição, pois é simples. E era o que o aqui- 
natense queria provar.
DO ATRIBUTO METAFÍSICO DA PERFEIÇÃO 
E DA BONDADE
Desenvolve São Tomás uma série de argumentos, que 
vamos sintetizar, para mostrar a perfeição e a bondade de 
Deus.
Não se considera como perfeita uma coisa em transe 
de fazer-se, a não ser quando tenha passado da potência ao 
acto. Portanto, considera-se como perfeito o que não tem 
deficiência em ser actual.
Ora, o princípio material é imperfeito. As coisas só 
têm actualidade quando existem. Por isso, é a existência 
a actualidade de tôdas as coisas, até das formas.
Mas em Deus não falta nem uma só de quantas per- 
feições se encontre em» qualquer gênero. E por quê?
A) Quanto há de perfeição no efeito, deve haver na 
sua causa eficiente, pois o efeito preexiste virtualmente na 
causa agente, e preexistir virtualmente, neste caso, não é 
um gênero mais imperfeito que o de existir na realidade, 
mas até mais perfeito. Mas, preexistir na potência da cau­
sa material é um gênero de existência mais imperfeito que 
o real, porque a matéria, como tal, é imperfeita, enquanto 
o agente, como agente, é perfeito. Ora, sendo Deus a pri­
meira causa eficiente das coisas, é necessário que preexis- 
tam nêle tôdas as perfeições de todos os sêres, de modo mais 
eminente.
B) Ora, Deus é o próprio ser subsistente, portanto tem 
tôda perfeição do ser. E como a razão de ser vai incluída
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na perfeição de tôdas as coisas, pois são perfeitas quanto a 
alguma maneira de ser, em Deus não pode, portanto, faltar 
perfeição de coisa alguma.
PODE ALGUMA CRIATURA SER SEMELHANTE 
A DEUS?
A esta pergunta responde São Tomás, com o que sinte­
tizamos a seguir:
Em primeiro lugar, é preciso saber o que se entende por 
semelhança. E logo se verá que há muitas maneiras de se­
melhança:
1) Entende-se por semelhança a conveniência ou co­
munidade na forma; isto é, são semelhantes as coisas que 
participam da mesma forma, segundo o mesmo conceito e o 
mesmo modo. São as coisas chamadas iguais, é a mais 
perfeita das semelhanças.
2) São semlhantes as coisas que participam na forma 
sob o mesmo conceito, não do mesmo modo, isto é, uma é 
mais ou menos.
3) As que participam da mesma forma, não são do 
mesmo conceito nem modo, como se vê nos agentes não uní- 
vocos. Já que todo agente executa semelhante a si mesmo, 
enquanto agente, e o poder de operar vem da forma, é indis­
pensável que se encontre no efeito a semelhança da forma do 
agente. Portanto, se o agente pertence à mesma espécie 
que o seu efeito, a semelhança entre a forma do agente e a 
do facto se apóia em que ambos participam da mesma for­
ma, sob a mesma razão especifica, e tal é a semelhança en­
tre o homem que engendra e o engendrado. Mas, se o agen­
te não é da mesma espécie que o efeito, haverá semelhança, 
não porém sob a mesma razão de espécie; e assim, por exem­
plo, o que se engendra em virtude da actividade solar alcança 
certa semelhança com o sol, não uma semelhança específica 
como a forma do sol, mas só genérica.
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Portanto, se há algum agente, que não pertence a ne­
nhum gênero, seus efeitos terão ainda menos semelhança 
com a forma do agente, pois não participam dela, nem es­
pecífica nem genèricamente, senão em certo sentido análo- 
gico, baseado em que o ser é comum a tôdas as coisas. Pois, 
consoante com isto, o que procede de Deus, assemelha-se a 
êle, como se assemelham os sêres ao princípio primeiro e 
universal de todo ser.
Conseqüentemente, tôdas as coisas são semelhantes e dis- 
semelhantes de Deus; semelhantes porque o imitam quanto 
é possível imitar o que não é inteiramente imitável, e disse- 
melhantes, por sua inferioridade a respeito de sua causa; e