Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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há insufi­
ciência das causas segundas que possa impedir que a von­
tade de Deus produza o seu efeito;
2) porque se a distinção entre o necessário e o contin­
gente se referisse exclusivamente às causas segundas, estas 
seriam alheias à intenção e à vontade de Deus, coisa inad­
missível.
Portanto, é melhor dizer que assim sucede devido à efi­
cácia da vontade divina. Sempre que alguma causa é efi­
caz em sua acção, não só se deriva dela o efeito, quanto à 
substância do produzido, mas também quanto ao modo de 
produzir-se o ser. Se, pois, a vontade de Deus é eficacís- 
sima, segueT-se não só que se produzirá o que êle quer, mas 
também do modo que êle quer que se produza. Deus, para 
que haja ordem nos sêres para perfeição do Universo, quer
MÉTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 87
que algumas coisas se produzam necessariamente, e outras 
contingentemente, e por isso vinculou uns efeitos a causas 
necessárias, que não podem falhar, e das quais forçosa­
mente decorrem, e, nos outros, causas contingentes e defectí- 
veis. O motivo, pois, de que os efeitos queridos por Deus 
provenham de modo contingente, não é porque sejam con­
tingentes suas causas próximas, mas, por ter Deus querido 
que se produzisse de modo contingente, preparou-lhes cau­
sas contingentes.
Deus quer com liberdade?
Nós temos livre-arbítrio quanto a coisa que não que­
remos por necessidade ou por instinto natural. Por isso o 
querermos ser felizes não pertence ao livre-arbítrio, mas a 
um instinto natural. E os outros sêres naturais são mo­
vidos pelo instinto, e nãc pelo livre arbítrio. Deus quer ne­
cessariamente a sua bondade, que é êle mesmo, e não assim 
a outras coisas para as quais tem livre-arbítrio.
DO AMOR DE DEUS
Mostra Tomás de Aquino que há amor em Deus, por­
que o movimento da vontade, como de qualquer outra von­
tade apetitiva, é o amor. O acto de vontade tende para o 
bem, como para o mal, mas advirta-se que o bem é o objecto 
principal e o mal é objecto secundário. Portanto, os actos 
da vontade e do apetite, que se referem ao bem, precedem, 
por natureza, os que têm por objecto o mal, pois o bem o é 
por si, e o mal o é por outro. O amor é, pois, por natureza, 
o primeiro acto de vontade e de apetite. Essa é a razão por 
que todos os outros movimentos apetitivos pressupõem o 
amor como sua primeira raiz, e por isso ninguém deseja 
mais do que o bem que ama, nem goza mais do que no bem 
amado, nem odeia mais do que o oposto ao que ama. Em 
quem quer que seja que haja vontade e apetite, há de haver 
amor. Já demonstramos que em Deus há vontade; portanto, 
nêle há amor.
RR M A R I O KlOlíIUOIUA n o a S A N T O K
Tôdas as coisas têm um ser, e por tal razão são boas. 
Ora, a causa dos sêres é a vontade do Dou.s, Portanto, Deus 
quer o bem para cada um dos sêres que existem e, como amar 
é precisamente querer o bem para outrem, seguem-se que 
Deus ama tudo o que existe.
Mas o amor de Deus não é igual ao nosso, pois a nossa 
vontade não é a causa da bondade das coisas, mas, ao con­
trário, é esta a que, como objecto, a move. O amor pelo 
qual queremos o bem para alguém não é causa da sua bon­
dade, mas a sua bondaüé, real ou aparente, é o que provoca 
o amor, pelo qual queremos que conserve o bem que tem, 
e adquira o que não possua, e nisso pomos o nosso empenho, 
mas o amor de Deus é um amor que cria e infunde a bondade 
nas criaturas.
DA JUSTIÇA E DA MISERICÓRDIA DE DEUS
Um dos grandes argumentos dos materialistas e ateístas 
é o referente à justiça. Vejamos como Tomás de Aquino 
resolve tal dificuldade: \u201cHá duas classes de justiça: uma 
que consiste em distribuir, chama-se justiça distributiva, a 
compra e venda, ou das comunicações ou comutações aná­
logas. Aristóteles chama-a de justiça comuta ti va. A outra, 
que consiste em distribuir, chama-se justiça distributiva, a 
qual consiste em dar a cada qual o que corresponde à sua 
dignidade. A justiça de Deus só pode ser a distributiva. 
Quando o entendimento é regra e medida das coisas, a ver­
dade consiste no acomodarem-se estas ao entendimento, e 
por isso dizemos que o artista faz obra verdadeira, quando 
esta coincide ckm a idéia artística. Pois bem, entre uma 
obra artística e as regras de sua arte, há a mesma propor­
ção que entre um acto de justiça e a lei que o regula. Por­
tanto, a justiça de Deus estabelece, nas coisas, uma ordem 
em conformidade com a razão, ou idéia de sua sabedoria, que 
é a sua lei. Com razão se chama verdade, e por isso, costu-
m é t o d o s l o g ic o s e d i a l s c t i c o s 89
ma-se falar em verdade da justiça. Quanto à misericórdia 
de Deus advirta-se que outorgar perfeição às criaturas per­
tence, por sua vez, à bondade divina, à justiça, à liberali­
dade e à misericórdia, embora tenha diversos conceitos. A 
comunicação de perfeições, considerada em absoluto, per­
tence à bondade como condição. Mas, enquanto Deus as 
concede, na proporção que corresponde a cada ser, pertence 
à justiça. Enquanto não as outorga para utilidade sua, mas 
somente por sua bondade, pertence à liberalidade; e que as 
perfeições que concede seja remédio de defeitos, pertence à 
misericórdia, Quando Deus realiza a misericórdia, êle não 
obra contra a sua justiça, porque é de sua plenitude dar 
mais\u201d,
DA PROVIDÊNCIA DIVINA
Tema de máxima importância, a providência divina é 
estudada por Tomás de Aquino com tôda a clareza, e fun­
dada nas provas anteriores. Parte da afirmação de que 
é necessário que haja providência em Deus.
Ficou demonstrado que todo o bem que há nas coisas 
foi criado por Deus. Ora, nas coisas há bem, não só pelo 
que se refere à sua ríatureza, mas ainda enquanto à ordem 
que dizem ao fim, especialmente ao fim último, que é a bon­
dade divina, como já se viu. Portanto, o bem da ordem que 
há nas criaturas foi criado por Deus. Mas, como Deus é 
causa das coisas por seu entendimento, e porque há de pre­
existir nêle a razão de cada um de seus efeitos, como já vi­
mos, é necessário que preexista na mente divina a razão 
da ordem que há nas coisas, com respeito a seus fins.
Pois a razão da ordem das coisas ao fim é precisamente 
a providência, que é, portanto, a parte principal da prudên­
cia, e à qual estão subordinadas as outras duas, ou, seja, a 
memória do passado e a clara visão do presente, já que, 
recordando o passado e entendendo o presente, conjectu- 
ramos as medidas que devemos tomar para o futuro.
Como mostrava Aristóteles, é próprio da prudência or­
denar as coisas para os seus fins, quer quanto a nós mes­
mos, quer quanto aos outros. Por conseguinte, o que em 
Deus se chama providência, é a razão da ordem das coisas, 
e seus fins, e, por isto, diz Boécío que providência é a mes­
ma razão divina assentada no princípio supremo de tôdas 
as coisas, que tudo dispõe. Também se pode chamar de 
disposição a razão da ordem das coisas quanto ao fim, como 
a da ordem das partes quanto ao todo.
Para os que admitem que o mundo surgiu casualmente, 
como Demócrito e Epicuro, a providência e negada. Mas 
já respondemos a estas posições, e resta-nos agora exami­
nar qual o alcance desta providência.
A providência divina alcança todos os sêres, pois todo 
agente opera por um fim. A ordenação dos efeitos ao fim 
estende-se até onde se estende a causalidade do primeiro 
agente.
Deus é. o primeiro agente e, portanto, estende-se em ab­
soluto a todos os sêres.
Costuma-se apresentar a seguinte objecção: se há pro­
vidência, nada é fortuito, pois Deus já providenciou tôdas 
as coisas.
Tomás de Aquino responde: não sucede o mesmo quan­
do se trata da causa universal e da particular, pois se há 
coisas que podem iludir a ordem de uma causa particular, 
não podem a ordem universal. Nada, com efeito, se sub­
trairia à ordem de uma causa particular, se outra também 
particular não impedisse a sua acção, como a água impede 
a combustão da lenha.