Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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deve ser dependente daquele antecedente, porque 
o nexo real de dependência pode não dar-se, e nenhum ou­
tro ser depende do primeiro apontado, mas de outro, que 
não aquêle. Neste caso, a antecedência, tomada em si mes­
ma, não exige ainda necessàriamente a conseqüência.
Poderiam existir os sêres antecedentes A, B e C e os 
conseqüentes d, e, f, g, i, j, mas dependentes de B e C, sem 
que nenhum dependesse de A. Assim, até agora, a antece­
dência, tomada em si, não exige um ser conseqüente. Mas 
é verdadeira a inversa: se há um ser conseqüente, há neces­
sàriamente um antecedente. Como a conseqüência implica 
um ser dependente por nexo real, pois vimos que nenhum 
dêles tem sua razão de ser em si mesmo, e começou um mo­
mento a ser, decorre daí uma série de juízos apodíticos:
\u201cOnde há um ser conseqüente, há necessàriamente uma 
dependência com nexo real de um antecedente.\u201d
\u201cTodo ser dependente necessàriamente não existiu sem­
pre.\u201d
E não existiu sempre, porque seu ser implica um antes 
de si, um que o antecedeu, e se seu ser perdurou sempre, 
perdurou em outro e por outro.
\u201cHá, necessàriamente, um ser antecedente que nunca 
principiou a ser.\u201d
\u201cTodo ser dependente necessàriamente principia a ser 
ser quando principia a ser.\u201d
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Êstes dois juízos são de máxima importância. Verifi­
camos que é verdadeiro apoditicamente o juízo: \u201cO ser de­
pendente não tem em si sua razão de ser.\u201d
Verificamos, ademais, que \u201cnecessàriamente deve haver 
pelo menos um ser que é antecedente a todos os outros, e 
que tenha em si sua única razão de ser.\u201d
Porque a razão da conseqüência real está na dependên­
cia de nexo real; para haver sêres conseqüentes, dependentes, 
é mister haver antecedentes. Se todos fôssem dependentes 
uns dos outros, numa série infinita, tôda a série não teria sua 
razão de ser, porque nenhum ser poderia transmitir razão 
de ser a nenhum, porque nenhum recebê-lo-ia de nenhum, 
pois nenhum teria razão de ser. E como poderia dar-se um 
ser que não tem razão de ser? Pois não é ter razão de ser a 
afirmação do próprio ser? Se há alguma coisa, alguma coi­
sa tem razão de ser, porque há uma afirmação da presença 
do ser. Conseqüentemente, é impossível uma série infinita 
de sêres sem razão de ser, pois a razão do conseqüente esta­
ria no antecedente que não a tinha, senão de outro antece­
dente, que também não a tinha, não tendo, pois, nenhum 
nenhuma razão de ser. Portanto:
\u201cNecessàriamente há de haver um ser que tem em si 
mesmo sua razão de ser.\u201d
Ora, tal ser não poderia ter principiado a ser, mas tem 
de ser imprincipiado, porque se tivesse um princípio, teria 
a sua razão de ser em outro, pois se a tivesse em si mesmo, 
teria existido e principiado antes de ter principiado e existi­
do, o que seria, então, absurdo. Tais raciocínios dialéctico- 
-concretos nos levam, pois, a afirmar a apoditicidade do juí­
zo acima, e ainda dêste:
\u201c Necessàriamente, tem de haver pelo menos um ser im­
principiado, que é razão de ser de todos os outros depen­
dentes.\u201d
Ora, tal ser nunca começou a ser, pois do contrário teria 
principiado. Pelo menos, é certo que a duração não tem 
princípio também, que durou e perdurou sempre, enquanto
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durou e perdurou, pois ainda não alcançamos a apoditicida- 
de de sua perduração constante e intérmina, mas apenas a 
perduração sem princípio de seu ser enquanto é; ou seja, a 
sua imprincipialidade.
E decorre daí êste outro juízo:
\u201cNecessàriamente é principiado todo ser que não tem
em si mesmo sua razão de ser.\u201d .
Ora, a empíria nos revela que há sêres dependentes; por­
tanto, garante-nos, em sua concreção com os logoi ontologi- 
koi, que há um imprincipiado pelo menos, que há um ser 
que sempre perdurou enquanto perdurou.
Como os sêres principiados, que conhecemos, devem ter 
vindo de um antecedente necessário e imprincipiado, o ser 
que está no dependente tem de ter vindo de um, pelo menos, 
antecedente necessário.
Conseqüentemente: \u201cO ser que há em qualquer ser de­
pendente tem necessàriamente de ter a origem, por remota 
que seja, num ser imprincipiado.\u201d
E mais:
\u201cO ser que dá realidade ao ser dependente tem uma ra­
zão que sempre existiu,\u201d
E como tudo quando há de ser no ente que existe de­
pendentemente tem sua origem no do qual depende, e como 
êste pode, por sua vez, ser dependente de outro, e assim su­
cessivamente, mas como tem de haver necessàriamente um 
primeiro independente de todos e do qual dependeriam os 
outros que decorrem dêste, o que há, realmente, de ser em 
qualquer um da série que lhe é dependente, é ser que vem 
do primeiro, necessàriamente.
Se não é assim, o ser que há no dependente não viria do 
antecedente e, dêste, ao antecedente, que o recebe realmente, 
etc. Portanto, é apoditicamente verdadeiro o juízo:
\u201cEm todo e qualquer dependente, todo ser que tenha em 
si seu exercício de ser, necessàriamente provém do anteee-
dente imprincípiado do qual aquêle depende necessaria­
mente.\u201d
A apoditicidade dêste juízo pode exigir novas especula­
ções dialéctico-concretas. Realmente, ela as exige, e as no­
vas especulações dão margem ao surgimento de inesperadas 
revelações ontológicas. Todo o nosso método demonstra 
que, usando-se as normas ontológicas em face da nossa em- 
píria, e é aí que está o método da dialéctica concreta, porque 
concreciona o ontológico com o empírico, há a constante re 
velação de verdades que se desvelam aos nossos olhos numa 
apofântica imposição. Procedamos, pois, ao exame acima, 
para alcançarmos ainda pontos de partida para conseguir 
novas revelações.
No ser dependente, tem de haver ser, porque, do contrá­
rio, seria nada. De que espécie é êsse ser? Tem de ser, em 
primeiro lugar, ser dependente; ou, seja, há nêle um ser que 
nâo é principalmente dêle, mas que lhe é dado, pois, se fôs­
se principalmente dêle, teria êle em si mesmo sua razão de 
ser. Portanto, é apodítico o juízo;
\u201cHá necessàriamente no ser principiado algum ser que 
não é principiado.\u201d
Mas também se impõe apoditicamente o seguinte juízo:
\u201cO que há genuinamente de ser num ser dependente tem 
necessàriamente que provir do ser imprincipíado do qual 
depende.\u201d
E mais:
\u201cA realidade de ser genuíno de um ser dependente é 
necessàriamente ser do ser imprincipíado do qual aquêle de­
pende.\u201d
Contudo, surge aqui uma gravíssima dificuldade (apo­
ria), se não tomamos com cuidado o método dialéctico-con- 
creto. Com êsse método, jamais devemos deixar de fazer os 
paralelos, os espelhamentos empíricos do que ontològica- 
mente é revelado. Ora, assim sendo, verifica-se na empíria
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que, entre os sêres dependentes de uma série de dependências, 
há uns que revelam possuir mais ser que outros, pois há uns 
que têm um grau de perfeição, isto é, de actualização de ser 
que supera a de outros. Se o ser genuíno, que há no depen­
dente, é um ser que é menos que o que há no imprincipiado. 
tendo sofrido uma diminuição, é o ser do imprincipiado o 
mesmo no dependente, pois mais ser neste seria impossível, 
já que tal ser não teria origem. Vejamos bem: se um ser 
dependente de um imprincipiado em sua série tivesse mais 
ser que o imprincipiado, ou teria recebido de um outro, ou 
do nada. Ora, do nada é impossível. Neste caso, só teria 
recebido de um outro êsse suprimento. Se não há êsse ou­
tro imprincipiado, o suprimento proveio necessariamente do 
antecedente. Restam, assim, só duas possibilidades: o ser 
dependente poderia ter a mesma intensidade de ser que o an­
tecedente imprincipiado (ou dos antecedentes) do qual (ou 
dos quais) depende, ou ter menos intensidade; nunca mais 
intensidade.
Se tem igual intensidade, o ser que está no dependente 
é intensistamente o mesmo que está no antecedente. Se tem