Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
250 pág.

Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.649 materiais614.278 seguidores
Pré-visualização50 páginas
menos, o ser que está no dependente é intensistamente menos 
que o do antecedente imprincipiado.
Mas, se o dependefite é, há no dependente ser do imprín- 
cipiado. Ora, êsse ser pode ter uma deficiência. Seja co­
mo fôr, o ser que houver em qualquer grau, provado que 
provém necessariamente do imprincipiado, é ser do imprin­
cipiado. Portanto, qualquer afirmação de uma presença de 
ser implica sempre o ser do imprincipiado. O juízo acima 
enunciado torna-se apodítico, por ser apoditicamente demons­
trado. Não pode ser de outro modo. Mas pode ser apenas 
um ser intensistamente deficiente em relação ao antecedente. 
De qualquer forma, o ser do imprincipiado não é ser depen­
dente, não é ser que pende de outro, é, pois, ser independente. 
Então temos o juízo apodítico:
\u201cO ser do imprincipiado é necessariamente ser indepen­
dente.\u201d
108 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
Há, pois, uma diferença importante entre o ser depen­
dente e o ser independente: é que, enquanto naquele o ser 
que tem lhe é dado, neste o ser que tem é êle mesmo. Se o 
ser dependente tivesse totalmente, em tôda a sua intensidade, 
o ser do antecedente imprincipiado, com êste se identifica- 
ria, total e absolutamente, e, neste caso, não seria outro, mas 
apenas o mesmo (idem).
. \u201cO ser dependente, pois, é necessàriamente outro em re­
lação ao ser independente.\u201d E em que consiste êsse ser ou 
tro, essa alteridade (alter, outro)? Só pode consistir em 
não ter absolutamente todo o ser do antecedente imprinci­
piado, em ser menos que o do qual depende. Há, pois, um 
ser Idem e um ser Alter. (È agora possível compreender-se 
melhor o que queriam dizer Pitágoras e Platão quando fala­
vam no Idem (autos, o mesmo) e no Alter (Allos, o outro),
O ser dependente tem de ser um ser deficiente, um ser 
no qual falta algo. Como faltar algo implica algo que falta 
(pois faltar nada é nada faltar), no ser dependente deve 
haver uma deficiência de ser, um não de ser, um não-ser. 
Decorre apoditicamente:
\u201cO ser dependente é necessàriamente um ser deficiente.\u201d
E como ser deficiente é o ente que se compõe de não- 
-ser, pois afirma a presença de ser isto e a ausência de ser 
aquilo, afirma a presença de um modo de ser, e a ausência 
de outro ou outros modos de ser, conseqüentemente:
\u201cO ser dependente é necessàriamente um ser no qual há 
presença de um modo de ser, e ausência de, pelo menos, um 
outro modo de ser, distinto de o primeiro.\u201d
Portanto, onde há ser dependente há não-ser. Mas co­
mo pode dar-se êsse não-haver, êsse não dar-se? Não há 
contradição em tais têrmos? Não implica o haver o ser, 
portanto como pode haver o que não há? Sem uma positiví- 
dade, portanto, êsse não haver é absurdo. Ante êsse paralelo 
ontológico-empírico, decorre necessàriamente que êsse não- 
-ser tem de ser positivo, porque, do contrário, sua não-posi-
m é t o d o s l ó g ic o s e d i a l e c t i c o s 109
tividade afirmaria nada, e nada faltar é não faltar. Para que 
haja falta, é mister positividade, conseqüentemente a falta 
tem de ser relativa; ou, seja, não pode ser uma falta absoluta. 
Para que seja relativa a falta, não pode ser falta de nada, 
mas falta de alguma coisa que é, positiva. Então, só se pode 
concluir que a falta que se aponta no ser dependente é a de 
alguma coisa que é, positiva. Ou, seja, no ser deficiente há 
íalta de alguma coisa positiva, que é. Neste caso, a falta tem 
uma positividade por referência ao que falta. Então:
"O ser dependente é necessariamente privado de alguma 
perfeição de ser.\u201d
\u201cA negação do ser dependente não é absoluta, mas re­
lativa.\u201d
\u201cO não-ser do ser dependente não é absolutamente nega­
tivo, mas relativamente negativo.\u201d
Mas, em que pode consistir êsse não-ser, que é positivo 
por referência? O não-ser, que não há neste ser dependente 
(e agora nos ajuda o paralelo empírico), há em outro ser, 
pois é algo real que se ausenta do primeiro. Portanto, é 
apodítico:
\u201cO não-ser, que se dá no ser dependente, é uma positi­
vidade de ser que se ausenta daquele.\u201d
O ser dependente caracteriza-se, pois, pelo ser que tem, 
e pelo ser que não tem. Há, nêle, assim, uma fronteira: até 
onde êle é o que êle é, e onde \u201ccomeça\u201d a ser o que não é 
êle. O que não é êle é o sujeito aqui, pois se disséssemos 
onde começa a ser o que não é êle, predicaríamos a êle (ser 
dependente) o começar a ser outro que êle. Neste caso, êle 
se transformaria, aí, em outro, deixando de ser o que era 
para vir a ser outro, o que seria absurdo. Não; nessa fron­
teira está o seu ser. Daí começa o ser outro, que é outro 
que êle. Êle perdura sendo o que é, até onde é o que é, mas 
daí em diante começa a ser o outro, que é o que não é o pri­
meiro. Mas sem essa fronteira, o ser que é (ser dependente) 
não teria nenhum limite. Essa fronteira é o limite, porque
11!) M A R IO F E R R E IR A D O S S A N T O S
limita o seu ser. E o que o limita? É a fronteira. É o 
até onde êle é o que êle é, e onde principia também o que não 
é êle a ser o que é. Portanto, todo ser dependente é também 
idem e alter. Seu idem é o que perdura, sendo o que é, e 
seu alter é o seu limite. Mas o seu idem é tal, caracteriza-se 
como tal, tem a fisionomia tal, porque tem um limite. Êle 
é isto, porque não é o que é o outro que êle. Portanto, êsse 
outro é importante, imprescindível para que êle seja êle mes­
mo (idem). Seu idem afirma-se por êsse alter, porque o 
seu idem contém-se nos limites marcados pelo seu alter. 
Desta forma, o que é, é deficiente de algo que é. Mas o que 
lhe falta, também é algo que é deficiente, porque é algo que 
não é o que o primeiro é; é algo ao qual falta o que é no ser 
dependente. Portanto, o ser dependente é uma composição 
de ser finito mais a não-presença de ser finito, ou, seja, de 
um idem finito mais um alter finito. Portanto, daí decorre 
o juízo apodítico:
\u201cO ser do ser dependente é necessàriamente finito.\u201d
\u201cO ser do ser dependente é necessàriamente composto 
do que é e do que não é.\u201d
Conseqüentemente:
\u201cSer finito (por não ter a razão de ser em si mesmo) é 
o ser dependente.\u201d
\u201cSer finito é o ser composto de ser e não-ser.\u201d
\u201cSer finito é ter finitamente o ser e não ter finitamente 
o ser outro que o que é.\u201d
O que falta ao ser finito é ser finito. Neste caso, se há 
ser infinito, a ausência dêste do ser finito não se compõe 
com êle. É de máxima importância dialéctico-ontológica es­
sa conseqüência, pois se verifica, de modo apodítico, que o 
ser infinito não pode compor-se com o ser finito. E seria 
absurdo que tal se desse, porque o que se entende por ser 
finito é o ser dependente, e ser infinito é ser independente. 
Portanto, é apodítico o juízo:
m é t o d o s l o g ic o s e d i a l é c t i c o s 111
\u201cO ser infinito tem de ser necessàriamente indepen­
dente.\u201d
E se todo ser dependente é finito, e todo finito é de­
pendente, todo infinito é independente, e todo ser indepen­
dente é infinito. Ora, essa independência tem de ser absoluta., 
porque se fôsse apenas relativa seria imperfeita, pois have­
ria nela dependência. \u201cO ser infinito tem de ser necessa­
riamente absolutamente independente.\u201d
Ora, vimos que o que compõe o ser finito é finito, e o 
não-ser, que nêle se dá, é finito. O ser infinito não pode, 
pois, entrar nessa composição com o ser finito.
\u201cNecessàriamente, o ser inifinito não entra em compo­
sição com o ser finito.\u201d
Uma série de juízos decorrem apoditicamente daí.
\u201cO ser infinito é necessàriamente simples.\u201d
\u201cTôda composição só pode ser de princípios finitos.\u201d
Não implica a composição uma finitude? Onde há com­
posição há dois, há com posição, há a teticidade (de thesis, 
de posição, de positividade) de dois, tèticamente reais. Se 
não houver teticidade dos componentes, a composição dei­
xará de ser. Portanto, liá a decorrência dos seguintes juízos 
apodíticos:
\u201cTôda composição implica necessàriamente