Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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que primeiramente estabeleçamos ainda outros elemen­
tos que nos fazem falta esclarecer, dentro da dialéctica con­
creta. Falamos da foTma; vimos que é ela uma lei de p t o -
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porcionalidade intrínseca, que é ela que limita o ser finito 
em seu ser, que ela é distinta de outras. Sabemos, pois, 
que há formas várias, de várias espécies. Ora, as formas 
são sêres, e não nada, e, como tais, têm de vir do ser infi­
nito; ou, seja, sua razão de ser está no ser infinito, pois 
sem êste as formas desvanecer-se-iam no nada. No ser in­
finito, elas estão desde sempre, porque as formas não po­
dem ser criadas pelo nada, mas por êle. E que são as for­
mas senão os modos de ser dos entes? Há uma multipli­
cidade de formas que nos é revelada pela empíria, e tôdas 
elas, as que conhecemos e as que não conhecemos, só podem 
ter vindo dêle. Ora, as formas são distintas entre si, e cada 
uma é uma só, pois a forma da triangularidade é uma só, 
apesar de haver mais de um tipo de triângulo.
Se há pouco levássemos avante o exame da matéria pri­
ma, teríamos que alcançar a um juízo apodítico: \u201cNecessa­
riamente, há uma matéria prima, primo-primeira, da qual 
tôdas as outras decorrem\u201d. E por que? Por uma existên­
cia dialéctica semelhante à que nos levou à certeza apodí- 
tica da existência do ser infinito. Percorrida a mesma via, 
alcançar-se-ia o mesmo resultado, o que não fazemos agora, 
para não alongar demasiadamente êste exemplo de análise 
dialéctico-concreta.
Chegaríamos, assim, à afirmação de uma matéria pri- 
mo-prima, apta a receber as formas diversas dos entes fini­
tos. Apoditicamente, poderíamos dizer: \u201c Há necessaria­
mente, uma matéria primo-prima apta a receber formas de 
sêres finitos.\u201d
Essas formas são do ser infinito, pois não podem ter 
outra razão de ser. Como vimos, todo ser finito tem uma 
forma, pela qual êle é o que êle é, e outro que os outros que 
êle. Todo ser finito implica outros sêres finitos, outros 
formalmente que êle.
São materiais, ou não, todos os sêres finitos? Esta 
pergunta, por ora, poderia receber apenas esta resposta:
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há sêres finitos materiais. E, nestes, a distinção entre for­
ma e matéria torna-se mais fácil. Mas, vamos partir da 
admissão de sêres finitos que não tenham matéria. Neste 
caso, seriam apenas formas, mas formas com potencialida­
de. E se a matéria primo-prima é a potencialidade passiva 
primordial, êsses sêres finitos seriam compostos da sua for­
ma e da potencialidade primordial, ou esta seria informada 
por aquela forma, já que a matéria exige as características 
da corporeidade, e aquela poderia não ser corpórea. No en­
tanto, tôda essa análise sôbre os sêres corpóreos e mate­
riais não vem ao caso, pois exige outras providências, e 
convém responder à pergunta que foi formulada.
Ora, as formas não têm uma origem senão no ser in­
finito e, neste, sempre se deram, porque, do contrário, te­
riam vindo do nada, ou, seja: o ser infinito, sendo a única 
razão de ser das formas, e sendo estas em si imateriais 
(pois a triangularidade não tem corporeidade alguma, en­
quanto considerada como triangularidade), as formas, no 
ser infinito, não poderiam ser materiais, porque o ser in­
finito não pode ser material, pois o ser material tem super­
fícies, limites, etc., o que aquêle ser não tem de modo algum.
Assim, as formas sempre estiveram no poder infinito 
do ser infinito. *
Pois não há formas que surgem, e outras que ainda não 
surgiram, e algumas que antes não haviam surgido? A for­
ma do homem, por exemplo, surgiu quando começou o ho­
mem. Mas antes do homem ter surgido, essa forma já exis­
tia no poder do ser infinito, porque, do contrário, de onde 
teria vindo?
Assim, o ser infinito caracteriza-se por uma forma que 
informa uma potencialidade passiva. Para compreender-se, 
pois, o ser finito, é mister compreender-se a forma e a po­
tencialidade passiva primeva. Ora, a forma determina, e 
a potencialidade passiva primeva é o que tem capacidade 
para ser determinado, porque o que recebe tuna forma tem 
aptidão para recebê-la. Portanto, para explicar o ser do
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ser finito é mister explicar o ser do determinante e do de- 
terminável, de que falamos há pouco, Poderíamos, portan­
to, estabelecer já alguns juízos apodíticos, entre muitos que 
seriam passíveis de ser formulados:
\u25a0\u2018Por haver sêres finitos, há necessàriamente uma poten­
cialidade passiva, apta a receber formas finitas,\u201d
\u201cAs formas estiveram em todo o sempre no ser infi­
nito.\u201d
Êste último juízo parece impor certas contradições, que 
nos obrigam, por isso, a vários exames, antes de prosse­
guirmos. Admitir que tais formas estiveram no ser infi­
nito, seria afirmar que tais formas ali se acumulavam, e 
que o ser infinito fôsse um continente de formas. Real­
mente, o juízo está mal formulado, porque levaria a muitos 
absurdos. Então, como poderiam estar essas formas no ser 
infinito? Não é o ser infinito a razão de ser de todos os 
sêres finitos? Não são os sêres finitos distintos uns dos 
outros por suas formas e por sua matéria? Não é por haver 
formas várias que há vários sêres finitos?
Portanto, a razão de ser de qualquer ser finito é dada 
pelo ser infinito, que lhe dá o ser, com a forma que tem. 
Conseqüentemente, sendo sua forma a sua razão de ser, esta 
lhe é dada pelo ser infinito. E se lhe é dada pelo ser in­
finito, ela tem de ser sua razão de ser no ser infinito, por­
que tudo quanto é tem sua razão de ser no ser infinito. 
As formas, sendo de todo o sempre, sempre foram no ser 
infinito. E como as formas, tomadas em si mesmas, não 
são materiais, não apresentam nenhuma das propriedades 
da matéria, são elas pensamentos, noeton do ser infinito. 
Ora, se o ser infinito é a razão de ser de todos os sêres 
finitos, tem de haver naquele a razão de ser da finítude 
dêstes últimos. E já vimos que a razão de ser da finítude 
dêstes últimos é a forma, quando informado o ser finito, 
que é o que êle é. A forma, enquanto no ser infinito, não 
tem limites senão formais. Mas, quando no ser finito, êste 
tem limites formais, e também potenciais (materiais).
MÉTODOS LÓGICOS E DTALliCTiCOH 123
A forma, enquanto forma, é formalmente o que ela é 
formalmente, e formalmente não é o que ela não é. As for­
mas distinguem-se entre si, enquanto formas, apenas for­
malmente, pois.
\u201cO ser infinito pode infinitamente dar ser a tudo quan­
to pode ser.\u201d E é êsse juízo apoditicamente verdadeiro, 
porque o que é não poderia ser se não estivesse no poder 
do ser infinito, pois é êle a razão de ser de todos os sêres. 
Conseqüentemente,
\u201cO ser infinito pode dar ser a tudo quanto pode ser.\u201d
E o que é tudo quanto pode ser? Tal afirmativa im­
plica que há o que não pode ser. O que de modo algum 
pode ser, não pode haver. Mas nós podemos pensar e fa­
lar sôbre o que não pode ser. O conceito de não poder ser 
implica o que não tem razão de ser, porque o que não tem 
razão de ser, não pode ser, nem é, como já demonstramos. 
Então
\u2018'Não pode ser o que não tem razão de ser.\u201d
E em que consiste a razão de ser? A razão de ser é 
dada também pela forma. Conseqüentemente: não pode 
ser o que não tem um» forma de ser. Portanto, tudo quan­
to finitamente pode ser, tem uma forma, uma razão de ser 
no ser infinito. O ser infinito tem, assim, tôdas as formas 
de tudo quanto é, ou pode ser.
O que não pode ser é o impossível. Ora, vimos que o 
nada é impossível, porque o nada não pode ser. Impossí­
vel é, pois, o que contradiz o ser.
O que contradiz o ser é o que não tem uma forma nem 
pode tê-la. Um ser que afirmasse o que é, que revelasse 
sua forma e, simultaneamente, a negasse, contradiria a si 
mesmo, e isso é impossível. Assim é impossível o círculo- 
-quadrado, porque quando se diz círculo não se diz quadra­