Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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to de vista lógico e metafísico, ambas as posições estão li­
gadas por um mesmo nexo.
É preciso distinguir, na atribuição por participação, 
quando o atributo faz parte da essência do sujeito, e quando 
a atribuição é puramente accidental. Na atribuição por 
participação, verifica-se que o predicado é uma parte do su­
jeito e não propriamente que o sujeito participe do predi­
cado.
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A atribuição por essência distingue-se da atribuição por 
participação por serem idênticos, naquela sujeito e predi­
cado.
Em Deus, o Ser pertence-lhe por essência, enquanto 
pertence à criatura por participação, pois, no primeiro, iden- 
tifica-se com êle, enquanto a criatura o recebe.
Na essência humana, a animalidade e a racionalidade 
não são duas perfeições separadas e estranhas que se unem, 
formando uma totalidade. Não há uma adição, mas apenas 
a passagem de um estado potencial para o actual. Na ani 
malidade, já estava confusamente (fundida com ela) a hu­
manidade, e, por isso, se dá a unidade de essência do ho­
mem. Êsse pensamento é de Tomás de Aquino. O gênero 
contém, de maneira confusa, as suas espécies, que são de­
terminações desta. A diferença específica não é algo que 
está fora do gênero, mas uma determinação que se dá neste.
O pensamento de Tomás de Aquino fundamenta o que 
há de positivo no evolucionismo, excluindo-se os vícios que 
o maculam. Veja-se em De veritate, qu. 21, a 1, c . . . sed 
animal per hominem contrahitur, quia id quod determinate 
et actualiter continetur in ratione hominis implicite et qua­
se potentialiter continetur in ratione animalis.\u201d Já está 
contido implicitamente e quase potencialmente na razão de 
animal. E poderíamos ainda citar outras passagens de sua 
obra, mas esta é suficiente.
O advento do homem é uma explicação (actualização 
do que já estava confuse no animal), efectivada pela provi­
dência do Ser Supremo; isto é, já providenciado pela ordem 
universal, de modo que o advento do homem só se daria de­
pois da efectivação dos graus inferiores da evolução bioló­
gica, o que está bem delineado, embora alegòricamente, no 
livro da Gênesis. O surgimento do homem neste planeta 
advém depois de já efectivadas a evolução animal, até que 
aquêle se tornou efectível. Tudo foi providenciado para 
que o homem surgisse, e a sua criação não é algo que se dá
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fora da natureza, mas na natureza e através da evolução 
desta. As causas que o determinariam já haviam sido da­
das, faltando apenas o momento bio-histórico, que permiti­
ria que êle adviesse (advento). A evolução animal atingiu 
um tal estado que poderia ser assumida pela inteligência, 
pela racionalidade, isto é, o ser animal podia receber a 
forma racional.
Distinguindo-se a atribuição por essência de a atribui­
ção por participação, sendo na primeira sujeito e predicado 
idênticos, enquanto, na segunda, o predicado essencial ou 
accidental é atribuído ao sujeito concreto, e do qual é êle 
parte, tornando-se mais fácil a compreensão da forma pla­
tônica e a distinção entre esta, como forma subsistente, e 
a sua participação pelo sujeito sensível, que não a é, mas 
dela participa.
Quando dizemos que João é homem, dizemos que tem 
humanidade, e não que êle é a humanidade. Esta é simples 
em sua formalidade, e se existisse subjectivamente, como 
algo presente em sua estructura, contida em seus limites, 
haveria a humanidade em si mesma.
Neste caso, em João, a humanidade compor-se-ia com 
algo mais (corpo) para formá-lo. Se ela existisse subjec­
tivamente, ela seria singular, uma dada singularidade. Mas 
as formas, para Pltão, não são singularidades subjectiva­
mente dadas, limitadas por um sujeito; são formalmente 
dadas, são poderes de ser, entidades formais (eidéticas) e 
a sua substancialidade não é a da concepção aristotélica. 
São substâncias, ousiai, no sentido de que são entidades e 
não meros conceitos, mas seu modo de ser é formal; ou, 
melhor, do poder do ser. O ser humanidade e êsse poder 
distmguem-se dos outros poderes. A substância dêsse po­
der é o próprio ser que pode (o Possest, de que falará pos­
teriormente Nicolau de Cusa). É um pensamento dêsse 
Possest, dessa potensão, como o chamamos, dessa tensão- 
-que-pode-tudo-quando-pode-ser-ser. Essa \u201csubstância\u201d é 
separada das coisas estas ou aquelas do mundo cronotópico,
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não separada do Possest, do qual se distingue apenas for­
malmente, o que foi compreendido e sentido por Duns Scot. 
Assim, a justiça, a bondade, a verdade são o próprio Ser 
Supremo, o Bem Supremo, pois sem dúvida é também o Su­
premo Ser, como mostramos anteriormente, e são dêle inse­
paráveis, mas separadas das coisas que delas participam (no 
sentido platônico), ou que as imitam, segundo a sua inten­
cional idade, relativa à sua natureza (no sentido da mlmesis 
pitagórica, rectamente entendida).
Eis por que não há, subjectivamente, a humanitas, nem 
a bondade, nem a justiça, nem nenhum dos arquétipos e 
dos paradigmas platônicos, pois, do contrário, seriam subs­
tâncias singulares. Tais substâncias, no sentido platônico, 
não são singulares nem universais; são um modo de ser ei- 
dético do Possest, como tão bem o compreendeu Avicena e, 
posteriormente, Nicolau de Cusa.
Semânticamente, dynamis (potentia) é a faculdade de 
pcder, no sentido do katá dynamin pasan, o poder de fazer. 
Nesse sentido, os arquétipos são os poderes da omnipotên- 
cia do Ser Supremo, que pode tudo quando pode ser. Ou­
tro sentido é o de aptidão de ser, de tomar-se, que é o usa­
do por Aristóteles. Finalmente, temos o sentido absoluto, 
usado na literatura, como fôrça física, moral, natural, mili­
tar, de dominação, etc.
No De Potentia, Tomás de Aquino concreciona as duas 
primeiras acepções, ao falar na potência divina, potência 
activa, potência passiva, potência de sofrer. A primeira não 
implica restricção alguma à perfeição divina, pois quem po­
de mais pode menos, enquanto a segunda a implica.
Reúne, assim, os conceitos de Platão e de Aristóteles, 
embora êste também distinguisse a potência activa de a pas­
siva, sem contudo actualizar explicitamente tal aspecto co­
mo o fêz Platão.
Por isso, poder-se-ia dizer que as formas arquetípicas 
são modos de ser eidèticamente dinâmicos, desde que se dê
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a dynainis o conceito platônico, ou, sejam, poderes activo- 
-formaís do Ser Supremo.
Retornando às formas platônicas, tantas vêzes incom­
preendidas, cuja má colocação gerou tantas disputas na Fi­
losofia, impõe-se esclarecer certas passagens, cuja melhor 
compreensão muito cooperará para uma conceituação maii:, 
clara do máximo tema da filosofia de Platão.
Tomás de Aquino, em De Hebd. cap. 2, diz: "Se exis­
tem formas que não estão unidas à matéria, cada uma de­
las será simples por não comportar nada de matéria, por 
conseguinte nenhuma quantidade, que é uma disposição da 
matéria. Mas, desde que cada forma determina o esse (ser), 
nenhuma delas é o esse, mas pertence ao esse. Admitamos, 
por exemplo, de acôrdo com a opinião de Platão, que existe 
uma forma imaterial que subsiste em si mesma, e que essa 
forma seja a Idéia (o eidos) e a razão dos homens materiais; 
admitamos, ademais, uma outra que seja a Idéia e a razão 
dos cavalos. Será manifesto que a forma imaterial sub­
sistente em si mesma, no momento em que se encontra de­
terminada a tal espécie, não é o ser comum, mas dêle parti­
cipa. Nada será mudado, então, se admitimos que essas 
formas imateriais, como o queria Aristóteles, pertençam a 
um grau de realidade mais elevado que o das razões das rea­
lidades sensíveis. Cada uma delas, com efeito, enquanto 
se distingue da outra, é uma certa forma especial, partici­
pante do esse. Nenhuma delas, por conseguinte, será abso­
lutamente simples. Será só verdadeiramente