Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III


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classificar as diversas 
lógicas e dialéeticas? Sim, elas são passíveis de classifica­
ção pela valência, sem se esgotarem tôdas as possibilidades 
de classificação, porque admitem também muitas outras por 
outros aspectos. Oferecemos uma classificação sintética das 
diversas lógicas:
1) Lógica monovalente, ou, seja, a que aceita apenas
uma valência. Pode ser enunciada assim: \u201cPara isto, só
vale isto." Temos como exemplo a lógica da ciência clássica, 
pré-relativista. é a Lógica do SIM.
2) Lógicas bivalentes, as que aceitam mais de uma 
valência, mas excludentes.
a) A Lógica formal. Para esta pode ser enunciada 
assim: \u201cIsto vale para tal coisa ou não vale.\u201d É a Lógica 
do Sim ou do Não, ou isto ou aquilo.
b) Uma lógica relativista, como aspecto da Lógica For­
mal, poderia estabelecer a bivalência, fundando a valência 
na convicção e não na certeza, e poderia ser enunciada as­
sim: \u201cPara tal coisa, temos a convicção de que só vale isto, 
ou não vale.\u201d É a lógica do talvez sim, talvez não. É 
uma lógica relativista bivalente, cujo enunciado seria: \u201cIsto
só vale para isto, em tal situação; em outra situação, talvez 
não." É uma lógica que afirma condicionalmente, e aceita 
a possibilidade da negação.
3) Lógicas polivalentes. As lógicas poli valentes não se 
fundam no princípio de não-contradição da Lógica Formal,
MÉTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 151
e aceitam o terceiro excluído, excluído o quarto, ou aceitam 
o quarto, excluído o quinto, e assim por diante.
Assim, a dialéctica marxista e a hegeliana são lógicas 
polivalentes, mas poderiam ser classificadas melhor como 
trivalentes, porque aceitam a tríada: tese-antítese-síntese.
Podem ser enunciadas assim: \u201cPara tal coisa vale isto, mas 
vale também a sua negação\u201d, e, posteriormente, \u201ca negação 
da sua negação.\u201d Temos, assim, a tese, a antítese e a síntese. 
São três valências afirmadas;
a) lógica polivalente com hierarquia de valência. Po­
de ser enunciada assim: \u201cPara tal coisa isto vale mais que 
isto ou aquilo;
b) lógica polivalente semelhante à anterior, mas sem 
hierarquia de valência. Pode ser enunciada assim: \u201cPara 
tal coisa vale isto, mas também aquilo, e aquil'outro, etc.;
c) lógica polivalente, dialéctica antinômica. Pode ser 
enunciada assim: \u201cPara tal coisa vale isto, mas também suas 
oposições sucessivas, actuais e potenciais,\u201d \u201cSim e não, e 
não apenas sim, nem apenas não.\u201d
Vimos, assim, que o raciocínio dialéctico é predominan­
temente polivalente, enquanto o raciocínio lógico formal é 
um raciocínio monovalente (na ciência-relativista) ou biva- 
lente, na Lógica Formal clássica (1).
Na vida quotidiana, essas lógicas não são puras. São 
elas penetradas por um elemento poderoso que as amolda, 
que as modifica. É um elemento dialéctico também, que é 
inevitável no raciocínio, e que se examinarmos a história 
da inteligência humana, vemo-lo presente sempre, influindo 
sempre: é a contribuição das lógicas afectivas.
Pela lógica afectiva, há valorações de valência. Há va- 
léncias que recebem o influxo da convicção da evidência, e
(1) A dialéctica ontológica, que expomos em «Filosofia Concreta», 
0 monovalente, porque se reduz a juízos apodítieos; ou, sejam, neces­
sariamente válidos.
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são consideradas evidências, quando, na realidade, são ape­
nas convicções. Tal facto lógico é historicamente poderoso.
Há princípios que são julgados axíomáticos em certa 
época, os quais ninguém se atreve a pôr em dúvida, e se al­
guém o faz, as suas opiniões não encontram ressonância.
As afeições, sob a acção dos interesses criados, cons- 
troem uma valoração da valência, além de valorações de va- 
lôres, emprestando evidência às convicções. As lógicas 
afectivas são individuais (quando se trata das singularidades 
humanas); particulares (quando se trata dos grupos, classe, 
estamentos, etc.); e gerais (quando representam uma era, 
uma cultura).
As lógicas afectivas funcionam sempre com as outras, 
por mais que não o queiram aceitar os lógicos, os cientistas 
e os filósofos.
Essas lógicas afectivas exigem um estudo que ultrapas­
sa os limites dêste livro, mas deixamos aqui consignado o 
que será tema de futuros trabalhos.
Os gênios, em cada época, sentem o carácter afectivo 
das chamadas evidências dos axiomas aceitos. Denunciam- 
-nos. Não são naturalmente ouvidos, porque suas afirma­
tivas vêm colocar-se contra as afeições, e as convicções ne­
las fundadas. Passado certo tempo, transforma-se a base 
afectiva, que é sempre mutável, e as convicções perdem sua 
fôrça e, ao perderem-na, verifica-se que as evidências não 
são tão evidentes como se julgava. Surge, então, o campo 
para a ressonância do que havia sido antes afirmado. Só 
aí as opiniões do gênio são entendidas, e é êle considerado 
tal, e a homenagem é revertida ao passado. Nenhum gê­
nio venceu contra as convicções dominantes. A sua vitória 
é sempre o produto da derrota das convicções.
O gênio, assim, não vence por si, mas apenas sobra ou 
sobrevive da derrota total. Êsse o aspecto trágico da genia­
lidade. Por isso, não se pode acusar as multidões de não
MÉTODOS LÕGICOS E D IALSCTICOS 153
compreenderem os gênios. Éles têm que ser incompreen­
didos.
Dizia Nietzsche que o valor de uma época se mediria 
pela capacidade das multidões em reconhecer seus grandes 
homens verdadeiros. Uma humanidade, que soubesse ana- 
lizar dialècticamente, usando das lógicas monovalentes, bi- 
valentes e polivalentes, para examinar também as lógicas 
afectivas, pode ser um ideal apenas, não uma realidade.
Sem que nisso haja qualquer sombra de pessimismo, so­
mos por julgar que tal facto não se dará. Só uma humani­
dade de gênios poderia entender sempre os seus gênios.
* * *
Estabelecida essa base introdutória da significação da 
valência na Lógica e na Dialéctica, não é difícil compreen­
dermos que não existe apenas um método dialéctico, mas 
muitos. Indica tal possibilidade a fraqueza da Dialéctica?
Em parte sim, e em parte não. A Dialéctica, como a 
entendemos hoje, é uma disciplina nova, ainda em fase de 
formação, ainda adolescente, e, por isso, sujeita a muitas ex­
periências e erros. Em suma, ela tende a concrecionar tôda 
a Lógica.
\u2018 * * *
A Dialéctica (que em geral é uma lógica polivalente) 
não vem para criar a confusão e a desordem do pensamento. 
Estamos numa época de revisão de valores, numa época de 
grandes e novas experiências, em que princípios julgados 
evidentes (que não passavam apenas de convicções de uma 
evidência) vêem-se ameaçados em sua posição suprema e 
aparentemente imutável. A Dialéctica vem enriquecer a 
Lógica.
É natural que muitas tentativas sejam feitas, muitos 
novos erros sejam acrescentados aos velhos erros, mas o 
trabalho ingente e cuidadoso dos filósofos permitirá que se 
separe o joio do trigo.
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O que nos apavora em geral é não têrmos uma base 
sólida, um ponto de apoio, capaz de, nêle, sentirmo-nos, se­
guros no exame e na escolha. O formalismo clássico tinha 
êsse ponto arquimédico nos princípios da razão.
A Dialéctica, ao analisá-los, segue o mesmo caminho da 
ciência relativista da actualidade, que substituiu o ponto fi­
xo de apoio, que era o espaço e o tempo absolutos, por um 
espaço e tempo relativos.
A Dialéctica faz o mesmo, substitui o ponto arquimédico 
de apoio por um ponto relativista também, O relativismo, 
em seu sentido geral, é sempre uma posição transeunte na 
história do pensamento humano.
Sobrevêm nas épocas de crise, quando os valores mais 
altos estão ameaçados de ser transmutados e destronados.
* * *
O raciocínio decadialéctico estructura-se no que há de 
firme na lógica clássica, sem abandonar o que há de útil 
na Dialéctica, mas evita cair no terreno movediço, por infér­
til, da inconsistência.
REGEAS PRÁTICAS
Convém sempre