Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III


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predicar a um ontos algo que não podemos 
predicar a outro. Os predicados, já vimos, são positivos 
por afirmação ou por recusa, porque o que se predica, pre­
dica-se afirmando a presença ou recusando-a.
Quando se diz que a um ontos se predica isto ou aqui­
lo, predica-se a presença disto ou daquilo. Quando se pre­
dica negativamente, predica-se a recusa, a não-presença, dis­
to ou daquilo. Assim a S predicamos P, ou a S. negamos P.
ONTOS é tudo a quanto predicamos algum atributo.
174 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
Ao nada (e não esqueçamos que é aqui o nada-relati- 
vo), predicamos a não-presença de algo positivo. Ao nihi- 
lum predicamos a ausência total de qualquer predicado. Ao 
nihilum não lhe cabe nenhuma atribuição, porque não po­
de ter nada de direito o que não é. Ao nihilum nada se 
atribui. Conseqüentemente, ao ontos algo se atribui, por­
que ontos é o inverso de nihilum.
Se dizemos que algo é ontos, é porque algo se lhe pode 
atribuir.
Conseqüentemente, tudo a quanto podemos atribuir al­
guma coisa é ONTOS.
Só ao nihilum nada podemos atribuir; ao nibiliim re­
cusamos totalmente qualquer atribuição.
Portanto, a tudo quanto não podemos predicar que é 
NIHILUM, é ONTOS.
Conseqüentemente, podemos atribuir ao ONTOS, neces­
sàriamente, o ESSE, e dizer que tudo a quanto podemos 
atribuir alguma positividade é ONTOS.
Conseqüentemente, necessàriamente todo ONTOS é.
Em \u201cFilosofia Concreta" já examinamos a distinção en- 
tre finito e infinito.
Necessàriamente, é infinito o ontos que não depende de 
outro para ser, o Esse que não depende de outro ontos. Con­
seqüentemente, pela impossibilidade da antecedência do 
nihilum, um ontos infinito antecedeu todos os outros. E 
êsse ontos, que não pendeu de nenhum outro para ser, pois 
é o primeiro, não pode ter sido gerado por outro.
Só se pode, portanto, chamar de infinito, ou predicar a 
infinitude ao ontos que não pendeu de outro para ser, ou 
o ontos cujo Esse é êle mesmo. Tal ontos, tem, pois, ipsei- 
dade; ou, seja, a êle se pode predicar atributivamente a ipsei- 
dade (de ipsum, si mesmo).
Houve um ontos, cujo Esse consistiu em ser ipsum, ou 
seja, Ipsum Esse, ao qual se pode atribuir Ipsum Esse (ser 
o seu próprio ser).
MÉTODOS LÓGICOS E DIALÊCTICOS 175
Em \u201cFilosofia Concreta\u201d demonstramos haver o Ipsum 
Esse, que houve, há e sempre haverá, cuja prova apodítica 
dispensamos repetir, fazendo apenas as inferências que a 
dialéctica concreta oferece.
Daí decorre necessàriamente que todo ontos, ao qual 
não se pode atribuir o Ipsum Esse, é finito, porque depen­
de, pois seu Esse pende de outro. E como aquêle Ipsum 
Esse foi o primeiro, todo ontos finito, directa ou indírecta- 
mente, dêle pende, pendeu ou penderá.
E temos de atribuir-lhe absolutuidade.
Diz-se ab solutum do que é sôlto de (o que é sôlto, so- 
hitum, de algo, ab). O Ipsum Esse é ab-solutum de outro. 
Sua independência é sólta de outro ontos é, pois, absoluta­
mente independente.
Decorre necessàriamente que, no ontos finito, o seu 
Esse não é Ipsum Esse. Portanto, há, no ontos finito, a afir­
mação de si mesmo em sua pureza ontológica, que é o Esse, 
mas há algo que não é dêle, que é outro que êle. Conse­
qüentemente, tem de se atribuir ao ontos finito o Esse, que 
é dêle, que é Ipsum Esse, e o que não é dêle, que é do outro.
E chega-se a esjca conclusão, dialècticamente, da seguin­
te forma: o ontos infinito é Ipsum Esse. É um ontos que é 
apenas êle mesmo. O ontos infinito é absolutamente Ipsum 
Esse, e apenas tal. É conseqüentemente, o ONTOS ao qual 
se atribui apenas ESSE.
Portanto, o Ipsum Esse é apenas Esse; é o atributo 
principal do ontos infinito.
E poder-se-ia predicar êsse atributo a outro, como o 
faz o dualismo, que afirma haver mais de um Ipsum Esse?
Já demonstramos em "Filosofia Concreta\u201d, pelo cami­
nho da análise ontológica, que tal é impossível.
A prova de que necessàriamente há apenas um Ipsum 
Esse, decorre da própria dialéctica dos conceitos já exami­
nados. Senão vejamos:
176 m á r i o f e r r e i r a d o s s a n t o s
Esse é a afirmação, em sua pureza ontológica, de si 
mesmo. O Ipsum Esse é o que é apenas.si mesmo (ipsum). 
O primeiro ontos, necessàriamente, é Ipsum Esse. Se hou­
vesse outro Esse, também seria Ipsum Esse, também seria 
apenas a afirmação de si mesmo em sua pureza ontológica; 
ou, seja, a razão de ser (o logos dêsse ontos) seria ser em 
si mesmo, e apenas por si mesmo. Ora, o outro que tam­
bém seria Esse em sua absoluta pureza ontológica, sendo 
. outro a afirmação de si mesmo, indicaria que êle, em si mes­
mo, não é nada do outro. Como o outro é puramente afir­
mação da presença positiva, o segundo não poderia ser 
afirmação de presença positiva de si mesmo, pois, neste ca­
so, ambos teriam atributos, ou pelo menos um atributo que 
o outro não teria, pois, do contrário, seriam idênticos, e um 
só, o mesmo, em sua absoluta mesmidade.
Há de haver, para que haja dois Ipsum Esse, um atribu­
to, que um tenha e o outro não. E êsse atributo tem de 
ser tal, ou, seja, de pleno direito. Ora, se ambos são Ipsum 
Esse, qual atributo poderia ter um que o outro não tivesse? 
Se ambos são apenas Esse, qualquer atributo, por ser posi­
tivo, pertence ao Esse, e ambos os têm. Neste caso, nada 
diferenciaria um do outro, o que os tomaria absolutamente 
os mesmos, idênticos; um só, em suma.
O Esse, que é puramente Ipsum Esse, é apenas Esse, do 
contrário não é puramente Ipsum Esse. O segundo Ontos 
seria Ipsum Esse, e apenas Esse. Então, ambos seriam 
absolutamente o mesmo, idênticos, um só e o mesmo.
Não pode haver dois. Conseqüentemente, e apoditica- 
mente:
há apenas um só ONTOS, que é IPSUM ESSE e apenas 
IPSUM ESSE.
Decorre, díalècticamente, que há apenas um ontos que 
é absolutamente infinito, é aquêle ao qual se atribui o Ip- 
sum Esse (a ipseidade).
PRECISÃO DIALÉCTICA DA CONCEITUAÇAO 
OFERECIDA ATÉ AQUI
Não cabe propriamente ainda à dialéctica ontológica, 
que é a dialéctica concreta, provar a existência ou não, de 
tais conceitos. O que cabe é demonstrar se tais conceitos 
são necessàriamente como foram propostos, e não podem 
ser de outro modo. Vamos mostrar melhor êste ponto:
Esse só pode ser o que afirmamos, como todos os con­
ceitos até aqui afirmados só podem ser o que afirmamos.
O ontos finito é necessàriamente, e só, o ontos depen­
dente.
O ontos infinito é necessàriamente, e só, o ontos inde­
pendente e imprincipiado.
O ontos infinito é necessàriamente, e só, aquêle ao qual 
se pode atribuir o Ipsum Esse.
O ontos infinito necessàriamente, e só, é um e único. 
É um e único o ontos que recebe atributos, que não podem 
ser atribuídos em sua intensidade a nenhum outro.
Diz-se que é um o que tem unidade. Diz-se que é uni­
dade o que é, enquanto em si mesmo, si mesmo. Não se 
pode dizer unidade de outra coisa, porque o conceito de 
unidade implica o ser si mesmo. O que é si mesmo, é 
outro que outro. Ser outro é do ontos, que é si mesmo, dis­
tinto de um ontos, que é si mesmo. Todo ontos é um, tem 
unidade, porque é si mesmo e distinto de outro, o que, sendo 
si mesmo, é si mesmo distinto do ontos que não é êle, mas 
que é si mesmo.
178 m á r i o f e r r e i r a d o s s a n t o s
Todo ontos é, portanto, um, porque é si mesmo, e dis­
tinto dos outros.
Unidade é, pois, o atributo que se dá ao que é um.
O ontos, que é Ipsum Esse, é um; pois, enquanto tal, 
não há outro. No entanto, ao ontos finito, que é um, já 
não se pode predicar o não haver outros, pois há onta que 
são outros que êle. Mas, como o atributo de Ipsum Esse 
só se pode predicar de um e de nenhum outro, o Ontos In­
finito é o único ontos que é absolutamente e apenas si mes­
mo, e nada mais que si mesmo.
Assim, do ontos que se atribui um atributo, que só e 
apenas a êle pode ser predicado, diz-se que é único, enquan­