Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III


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na anima­
lidade. Mas há um êrro nessa afirmativa, porque não é 
isso o platonismo, pois êste não consiste em afirmar ape­
nas a virtualidade, como se na animalidade existisse já o 
homúnculo, à semelhança dessa compreensão primária que 
se verificou na Idade Média. O que afirmaria é que há uma 
razão seminal do homem na animalidade, com certa seme­
lhança às razões seminais de São Boaventura; que, na ani­
malidade, já há uma disposição prévia, mas constituída se­
gundo uma ontologicidade, do que será o homem depois. 
Neste caso, o homem não é virtual no animal, como algo 
já dado em sua actualidade. Mas, de todo o sempre, a ani­
malidade é ontològicamente apenas animalidade, e a huma­
nidade apenas humanidade. Para que um ontos seja ôntica- 
mente uma repetição, ou uma imitação, ou participe da on- 
tologicxdade da humanidade, é mister que seja animal. E 
na ordem do acontecer a animalidade precede à humanida­
de, embora na ordem eidética não haja essa antecedência, 
porque, na ordem dos pensamentos eidéticos do Ser Supre­
mo, um não acontece antes ou depois que outros, pois to­
dos são coeternos. Na ordem do acontecer ôntico-factico, 
sim, uma precede a outra.
Na ordem eidético-ontológica, a animalidade não inclui 
a humanidade, mas na ordem ôntico-fáctica a inclui. Já vi­
mos que os pensamentos, enquanto eide, não são depen­
dentes uns dos outros para serem, pois tudo quanto é pen- 
samentalmente eidético sempre foi e sempre será. Não há 
anterioridade ou posterioridade na ordem do ser, mas ape­
nas na ordem lógica, do logos de cada um. Mas, na ordem
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ôntica das coisas que acontecem, há posteriorídade e ante- 
ríoridade.
Existencialmente, para um ontos ser homem ó impres­
cindível a sua animalidade. Existencialmente, a animalida­
de inclui a humanidade. Conseqüentemente, a matéria, que 
é animal, e que se tomou homem, tem de conter, nesse sen­
tido, virtualmente, o homem; ou, seja, a matéria já continha, 
desde sempre, em sua existencialidade, a virtualidade da 
matéria humana. Não o logos, pois êste como vimos, não 
está, enquanto eidos, contido em outro, mas só no Ser Su­
premo, sem ser êste um composto dêles, porque tais eide 
são dêle e não êle tais eide. Sem o ser não haveria eide, 
porque então o nihilum poderia contê-los, e o nihilum não é, 
nem poderia conter coisa alguma. Para que o eidos seja, é 
preciso que seja.
O gênero contém virtualmente a espécie, enquanto con­
siderada em sua materialidade, não em sua eideticidade. O 
homem estava contido no animal em sua materialidade, não 
em sua eideticidade.
Dêste modo, pode-se compreender a positividade do pen­
samento daqueles que afirmam a virtualidade, como dos que 
afirmam a potencialidade apenas. O eidos da humanidade 
era potencial no animal, mas a matéria humana era virtual. 
Se tomarmos o gênero em sua materialidade, o homem é 
uma virtualidade desta. Mas, se tomarmos homem apenas 
em sua eideticidade, é êle uma possibilidade daquela, cuja 
materialidade animal tem a possibilidade de ordenar-se, pro 
porcionar-se intrinsecamente, segundo o logos (eidos) do 
homem. Êste, de modo algum, é uma transformação daque­
la. A forma animal, enquanto forma, não se muda em ou­
tra forma, a humana. A transformação, ou o que se pode 
chamar tal, não é uma mutação ontológica, mas apenas uma 
mutação ôntica. Um ontos pode ordenar-se segundo um 
logos e, depois, segundo outro, mas um logos não se toma 
o outro. A animalidade não se torna homem, mas sim pode 
surgir um ontos animal que tem a humanitas. Com grande
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profundidade, Tomás de Aquino concluía que a humanitas 
não é uma composição de animalidade e de racionalidade, 
como se o ser homem fôsse um ser que recebesse a forma 
animal e depois a forma humana. A humanitas já incluí, 
em seu logos, o ser animal e o ser racional.
Neste caso, o homem surgiu quando surgiu o ser de 
forma humana. Na alegoria cristã, Adão, feito de barro 
(corpo animal), recebe a forma humana (pela insuflação 
do espírito). Em suma, a matéria ammal era apta a ser 
novamente informada. Neste caso, a humanidade como 
logos (ou como forma, para a escolástica) não estava con­
tida virtualmente na animalidade, porque não era já ani­
malidade, pois esta é apenas ela mesma. Mas a materia­
lidade animal, sim, já continha virtualmente a materialida­
de humana, não o logos humanitas. Assim, o gênero, con­
siderado em sua ontologicidade, não contém virtualmente a 
ontologicidade da espécie, mas o gênero, considerado em sua 
onticidade material, em sua estructura material, êste o con­
tém. Na linguagem científica, o homem, biológicamente 
considerado, é animal, não o é psicologicamente, sob o as­
pecto do psiquismo, da racionalidade, do entendimento. Os 
órgãos do homem são estágios de um evolver da organici- 
dade na sua função biológica e fisiológica. Nesse sentido, 
pode dizer-se que o primeiro ser vivo já continha virtual­
mente tôda a escala do orgânico, incluindo o homem. Mas 
apenas do orgânico, não do ontológico.
Surgem, aqui, outros problemas, mas êstes já pertencem 
ao âmbito da psicologia metafísica, ao campo do que se re­
fere à alma, o que não poderia ser tratado aqui.
Sintetizando, podemos dizer que nossos conceitos con­
têm outros, como animal, logicamente considerado, contém 
homem e, êste contém o de brasileiro.
Contudo, dentro da dialéctica concreta, essas inferên­
cias são apenas lógico-formais, não ontológicas quanto aos 
eide. Assim, como não se pode dizer que os conceitos con­
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têm em sua extensão os indivíduos, que podem ser nêles 
classificados, mas sim que convêm a tais indivíduos, pois o 
conceito não é apenas a soma dos indivíduos que cabem em 
sua extensão (esta não deve ser medida pelo número dos 
indivíduos que contêm, mas sim pela quantidade de indiví­
duos aos quais convém) o mesmo se dá, também, quanto ao 
logos. O nominalismo confundiu a extensão com o número 
contido, em vez do número ao qual convém, confundindo o 
que é um (conceito em sua logicidade) com a colecção dos 
indivíduos, que naquele se classificam. Assim, o âmbito 
ontológico de um eidos não é uma colecção de eide, mas 
uma "estructura eidética\u201d, que, parcialmente, convém a ou­
tra estructura eidética.
Assim, na estructura eidética de humanitas, sua onto­
logicidade inclui a ontologicidade de animalidade, contudo 
não é o produto de uma soma de animalidade e racionali­
dade, como três, em sua ontologicidade, não é a soma de 
uma unidade, de outra e mais outra. Aritmèticamente, 3 é 
igual a 1 + 1 + 1, mas, ontològicamente, 3 é apenas 3, e não 
uma colecção de unidades. É uma totalidade ontológica 
uma, e não uma colecção, um agregado. Tem, assim, a sua 
razão, seu logos próprio, e não de empréstimo. O não ter- 
-se compreendido isso em tôda a sua extensão impediu que 
o pensamento pitagórico fôsse melhor julgado através dos 
tempos. Tomás de Aquino compreendeu-o bem, quando es­
tabeleceu o eidos da humanitas, ao mostrar, em sua Summa 
Theologica, que o Homem não é uma soma de Animalidade 
e Racionalidade, mas a racionalidade humana inclui o ani­
mal. Não há, assim, no homem, duas almas, mas uma só, 
que é animal-racional, e não a soma de duas almas, forman­
do uma totalidade sincrítica. O eidos do 3 não é uma tota­
lidade sincrítica, em que cada unidade limita-se em si mes­
ma, formando um agregado. O 5 limita-se em si mesmo 
numa unidade de simplicidade.
Pode-se, assim compreender o que na Lógica Formal é 
chamado de conceitos superiores e inferiores, como se pode
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conceber, pela dialéctica concreta, o alcance, depois da apli­
cação desta à análise dos factos.
Há uma diferença entre dizer Todos os homens são e 
Todo homem é, pois o primeiro