Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume III
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ços, a inducção é absolutamente irreductível ao silogismo, e 
são ainda êstes que salvam a inducção ameaçada pelas aná­
lises dos modernos que, como alguns logísticos, chegam a 
abandoná-la. É de admirar que, havendo entre êles tantos 
adversários da filosofia medievalista, e também do raciocí­
nio deductivo, por considerarem-no artificial, acabem por 
destruir o que tanto exaltaram (o raciocínio inductivo), pa­
ra terminarem, ou por tentar aniquilá-lo, ou reduzí-lo ao 
deductivo. E é ainda de admirar que sejam propriamen­
te os escolásticos e seus seguidores, os que melhor tenham 
estudado êsse processo, e o salvem da ameaça dos modernos. 
Estas palavras são de grande valor: \u201cA matéria da in­
ducção pode perfeitamente ser posta em silogismo, porém 
sua forma não pode; ela se opõe essencialmente ao silogis­
mo verdadeiro pela ausência do têrmo médio que a caracte­
riza: conversão alguma poderá jamais fazer desaparecer ou 
apagar esta diferença. Inductio in syllogismum reducitur 
materíaliter et non formaliter, ita quod forma inductionis 
reducatur in formam syllogismi (Santo Alberto Magno, 
Prior. 1, II, Tract, VII, c.iv). A inducção prova que um 
caráter convém a um sujeito comum pela producção dos 
fenômenos próprios... Da repetição dos factos nas mesmas 
condições, conclui diferentemente: êle prova que um sujeito 
e um predicado concordam entre si, porque concordam com 
um terceiro têrmo. É por isso que êsse último é considera­
do como o meio, o instrumento empregado para unir, na 
conclusão, os dois têrmos separados nas premissas. Numa 
palavra, o têrmo médio nos fornece o facto e a causa de sua 
conveniência. A oposição entre os dois processos não po­
deria, portanto, ser mais completa. Syllogismo proprie dic- 
to opponitur inductio (Prior, I, II, tract, VII, c. IV), diz 
ainda Santo Alberto Magno\u201d. (T. Richard, Philosophie du 
Raisonnement clans la Science, pp. 298-299, cit. por Mari- 
tain).
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A inducção, na verdade, realiza-se através da operação 
que consiste, pela abstracção, em retirar do particular o in­
teligível universal, cuja inferência tem suas regras lógico- 
dialécticas seguras. A abstracção é uma operação primária 
do espírito, enquanto a formação das proposições universais 
é uma operação mais completa (terceira operação).
O princípio de Wolf, que acima citamos, pode servir co­
mo fundamento da inducção, e é aceito pelos escolásticos, 
mas com modificações, que vamos salientar. \u201cO que con­
vém a várias partes suficientemente enumeradas de um su­
jeito universal convém a êsse sujeito universal\u201d, diz Mari- 
tain em sua Lógica Menor (pág. 281, ed. bras.). O impor­
tante está na enumeração, que não deve ser insuficiente, que 
deve ser a mais suficiente possível, pois, do contrário, a in­
ducção está sujeita ao êrro.
Se se verifica que o ferro, que o cobre, que o ouro, que 
o alumínio, que a prata... conduzem a electricidade, e co­
mo tais coisas são metais, pode-se concluir, inductivamente, 
que os metais conduzem a electricidade. Mas tal conclusão 
é apenas provável, pois poderia um metal não conduzir a 
electricidade, um metal ainda não examinado. A inducção 
oferece resultados prováveis, e até de máxima probabilidade, 
mas carece da apoditiíidade desejada, a não ser quando sua 
enumeração é suficiente de tal modo que alcança o essen­
cial. Mas, neste caso, a inducção deixa de ser tal. Por 
isso, pode-se dizer que a inducção, de per si, somente nos 
dá conhecimentos prováveis e até de máxima probabilidade.
A inducção encontra seus fundamentos na intuição sen­
sível, pela qual captamos os factos em sua singularidade, 
na intuição intelectual, pela qual captamos as semelhanças 
e as diferenças, e as relações de coincidência e, finalmente, 
na intuição adivinhatória e na apofântica, pelas quais se 
capta o essencial, graças à acção abstractora do intelecto 
humano.
A inducção é dividida em completa e incompleta, segun­
do a enumeração. Portanto, é mais comum a incompleta
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que a completa. Contudo, uma enumeração incompleta po­
de ser suficiente ou insuficiente. A completa é natural­
mente suficiente. Não é fácil saber se uma enumeração 
incompleta é suficiente. É comum considerar a inducção 
completa como inducção aristotélica, e a incompleta como 
inducção baconiana. Alguns modernos querem daí concluir 
que, antes de Bacon e Stuart Mill, não se havia alcançado a 
inducção incompleta, o que é fácil responder com a leitura 
do Organon de Aristóteles, que não é conhecido tanto quanto 
se pensa pelos que se dedicam à Lógica. A inducção incom­
pleta foi tratada pelos escolástícos, antes de Stuart Mill e 
Bacon, A inducção incompleta faz passar de alguns a tortos, 
enquanto a completa faz passar de todos a todos; a pri­
meira, do particular ao universal, a segunda de tôdas as 
partes do universal ao universal, que há em tôdas elas.
Na verdade, o raciocínio inductivo, tratado exclusiva­
mente, não é bastante para dar a apoditicidade desejada. 
Por essa razão, jamais o raciocínio inductivo, na Ciência 
bem fundada, deixa de ser acompanhado, na argumentação, 
pelo raciocínio deductivo.
No exame da via sintética, que fizemos anteriormente, 
encontramos a contribuição que a Lógica pode dar à induc­
ção.
DAS TEORIAS CIENTÍFICAS
Chamam-se princípios na Ciência (de princeps, o que 
vai à frente, em grego arkhon, de arkhê), as normas de 
acção que constituem as normas do pensamento. Uma teo­
ria na Ciência é uma construcção intelectual, em que um 
conjunto de leis particulares está conexionado a um princí­
pio, que as explica ou que as justifica, e que permite que 
possam ser êles deduzidos logicamente. Duhem dá-lhe a 
seguinte definição: "um sistema de proposições matemá­
ticas, deduzidas de um pequeno número de princípios, que
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têm por fim representar tão simplesmente, tão completa­
mente e tão exactamente quando possível um conjunto de 
leis experimentais (La théorie physique).\u201d Essa definição 
é mais para as ciências experimentais.
Tanto a teoria como a hipótese são explicações pro­
visórias dos factos, e estão dependentes de posteriores acon­
tecimentos que podem comprovar a sua validez ou não. As­
sim, temos a teoria atomística moderna, a teoria do trans- 
formismo, o lamarckquismo, o darwinismo, o mutacionismo, 
etc. Teorias, como a do finalismo e a do mecanicismo, que 
se digladiam no campo da Biologia, são mais filosóficas que 
científicas, por ora.
Realmente, a ciência moderna tem sido um campo de 
batalha de teorias, em que muitas, julgadas definitivas, já 
sucumbiram. Contudo, há um progresso teórico, sem dxí- 
vida, apesar da improvisação e do obscurantismo de mui­
tos cientistas modernos, que, por ignorância das grandes 
conquistas do passado, não levam avante uma construção 
mais sólida da Ciência, como seria de desejar.
Verifica-se, assim, que, no campo da ciência moderna, 
as demonstrações têm naturalmente que se submeter à va- 
riância e à probabilidade, que é típica das teorias e hipóte­
ses, e o valor das suas conseqüências é, portanto, relativo. 
Tal não impede, porém, que graças a uma boa base filosó­
fica possam cientistas mais cuidadosos dar, com o tempo, 
uma construcção mais segura, alicerces mais sólidos à parte 
arquitetônica da Ciência, de modo a conquistar esta certa 
apoditicidade ontológica desejada, que é possível obter-se 
no campo da Filosofia.
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EXEMPLOS DE DEMONSTRAÇÃO
Como exemplo de demonstração clássica, damos estas 
passagens sôbre os atributos de Deus, sintetizados da famosa 
\u201cSumma Theologica\u201d, de Tomás de Aquíno.
DA SIMPLICIDADE DE DEUS
Ou Deus é um corpo ou não é. Tomás de Aquino de­
monstra que não o é pelas seguintes razões:
A) Nenhum corpo move outro se não é por si mesmo 
movido. Ora, Deus é um motor imóvel, portanto não é cor­
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