Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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taca e vacila em suas interpretações. Compreende-se que 
surja, aqui, a idéia de Tykhé grega, que corresponde à Fortu­
na dos romanos, ao Fado, ao Destino dos occidentais, um 
ser que é personalizado como tendo dado uma intenção a 
vários efeitos per se para que êles produzam um efeito per 
accidens. Como pode o homem manobrar efeitos per se, 
para que, de sua conjugação, surja um efeito per accidens, 
imagina êle que há uma inteligência que coordena a conjun­
ção dos efeitos per se, para que surja um determinado efeito 
per accidens. Assim, quando alguém, ao seguir uma estra­
da, vê subitamente brilhar no chão uma pedra e, aparihan- 
do-a, verifica que é um diamante, diz-se que, afortunada­
mente, encontrou um diamante. A êsse acontecimento, que 
não oferece uma imediata determinação a uma causa, e que 
é um efeito per accidens, é dado como produzido por uma 
inteligência à qual cabe coordenar as conjunções de efeitos 
per se para produzirem efeitos per accidens. É o Fado, o
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Destino, a Fatalidade, a Tykhê, a Fortuna, a Fada, o Fatum 
dos romanos. . .
A tragédia está no acontecimento fortuito, produto de 
uma con junção de efeitos per se, que realizam um efeito per 
accidens. Quando alguém, entregando-se ao vício, decai 
pouco a pouco, desce os degraus da vergonha e do vilipen­
dio, até tombar definitivamente na destruição final, tal acon­
tecer é dramático. É o Drama (em grego acção), que suce­
de dentro de uma ordem de determinações. Mas, quando 
Édipo, levado por uma conjunção de efeitos per se, acaba 
por matar o próprio pai, desposar a mãe e ser rei, é trá­
gico.
Acto diz-se de qualquer realidade no pleno exercício de 
si mesma. Opõe-se a potência, que é o que pode ser e ainda 
não é, ou ainda não é no modo que pode ser.
O acto pode ser ainda:
acto entitativo \u2014 et \u2014 acto qualitativo
r
O acto entitativo é o que não é princípio de perfeição 
qualitativa qualquer, e expressa presença fora do nada. Qua­
litativo é o que é alguma perfeição qualitativa, seja de que 
modo fôr o sujeito.
O acto qualitativo pode ser ainda:
acto qualitativo \u2014 et \u2014 acto qualitativo 
accidental substancial
Accidental, se se refere a uma perfeição accidental; subs­
tancial, se se refere a alguma perfeição substancial do su­
jeito.
Ainda pode haver a distinção entre
acto qualitativo \u2014 et \u2014\u25a0 acto qualitativo 
substancial relativo substancial absoluto
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Substancial relativo, se se destina a informar algum su­
jeito; absoluto, se não se destina a informar qualquer su­
jeito.
Acto qualitativo substancial \u2014 et \u2014 acto qualitativo subs- 
absoluto não puro tancial absoluto puro
É não puro, se admite ainda acrescentar alguma per­
feição; é puro, se não admite qualquer potencialidade.
A potência é o que simplesmente pode ser, e que ainda 
não é.
Pode ser distinguida em
objectiva \u2014 et \u2014 subjectiva.
A objectiva é própria do ente puramente possível, que 
ainda não existe, mas pode existir; a subjectiva, também 
chamada real ou íísica, é a própria coisa já actual, que pode 
receber alguma afecção. Esta pode ser
potência física activa \u2014 et \u2014 potência física passiva.
Activa é a potência de agir; passiva é própria da coisa 
actual, que pode ser de outro modo. E esta será
substancial \u2014 et \u2014 accidental.
Substancial, se é capaz de receber afecção substancial; 
accidental, se de afecção accidental.
Daí poder-se distinguir
ser potência \u2014 et \u2014 ser-em-potência.
Sem em potência é não estar ainda no acto que é possí­
vel ser; ser potência é ser sujeito de algum acto.
Essência é o pelo qual formalmente uma coisa é o que 
ela é, e que a distingue das outras. Diz-se formalmente, 
porque o que constitui a essência é intrínseco à coisa e não
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extrínseco. Assim não se deve confundir a figura, que é 
uma delimitação qualitativa da quantidade, com a essência.
A essência pode ser
física \u2014 et \u2014 metafísica.
Diz-se que é essência física aquela que constitui a coisa 
independentemente da nossa mente.
A essência metafísica consta de duplo elemento de ra­
zão distinto, um comum e outro diferencial.
Assim, corpo e psiquismo são a essência física do ho­
mem; animalidade e racionalidade, a essência metafísica.
Um ser é dependente de outro. Mas dependente como?
Dependente ^ relativamente \u2014 et \u2014 dependente absoluta­
mente.
Um ser pende de outro para ser, mas, quando é fora de 
suas causas, sua dependência é relativa; no entanto, uma 
modal é um inesse, pois seu ser é total e absolutamente em 
outro, como o é o movimento de um auto, de o auto. Essa 
dependência é absoluta.
A dependência pode ser ainda
actual \u2014 et \u2014 potencial.
Actual é aquela que consiste na acção que produz a coi­
sa, e da qual ela depende. A modal é absolutamente de­
pendente por dependência actual. Potencial é a do ser que 
ainda não é, mas que, para ser, dependerá necessariamente 
de outro.
É ainda a dependência
essencial \u2014 et \u2014 existencial.
Essencial, quando sua essência depende de outro; exis­
tencial, quando é a sua existência que depende. Assim, o 
vaso de barro depende essencialmente do artífice e, existen-
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\u25a0cialmente, do barro e do artífice. A dependência essencial 
e existencial não se separam na coisa, mas se distinguem 
ratione (quanto à razão).
Tôda dependência é positiva quando actual, e é radical 
quando tôda realidade do efeito depende de sua causa, como 
,a criatura depende do Criador.
DA CAUSA
Convém distinguir a causa per se de a causa per acci­
dens
causa per se \u2014 et \u2014 causa per accidens
Causa por accidente é aquela que não tende a causar o 
efeito que se realiza pela acção eficiente conjunta de outra 
causa; assim o fogo, que queima o fio e causa a queda da 
pedra suspensa.
Causa per se é aquela que tende a realizar efeito que 
lhe corresponde directamente. Ela pode ser
causa per se física \u2014 et \u2014 causa per se moral.
Física, quando realiza fisicamente a acção; moral, quan­
do não realiza a acção, nem o efeito, como o aconselhar al­
guém a fazer alguma coisa.
No problema do mal, por exemplo, alguns, em oposição 
às idéias religiosas, querem transformar a divindade em 
causa do mal, quando o mal surge das deficiências e dos 
desvios da natureza das coisas e dos homens. A divindade 
não é causa per se do mal, mas apenas causa por accidente, 
como o bem não pode produzir per se o mal, mas apenas por 
accidente.
DA VERDADE
Em tôrno da verdade, muitas são as conclusões que se 
encontram constantemente, e merece por isso que se deli­
neiam claramente as distinções que se impõem.
Em seu sentido comum, verdade expressa a igualdade ou 
conformidade do intelecto com o ser (adaequatio intellectus 
et rei). Esta é a maneira escolástica, que segue a linha aris- 
totélica, de conceber a verdade.
Contudo, entre os pitagóricos de 3.° grau e Platão, a ver­
dade não é apenas a adequação, a conveniência, a igualdade 
entre o esquema mental e a coisa, mas, algo mais, transcen­
dental. Realmente, verdade é um conceito transcendental, e 
ao referirmo-nos a qualquer entidade, podemos falar na sua 
verdade, que se identifica re et non ratione (na coisa e não 
quanto à razão, a qüididade), com o seu próprio ser, embora 
formal esquemàticamente seja outro seu conteúdo eidético. 
O ser da coisa reveía-se a nós, e a verdade surge. A nossa 
verdade está na adequação do intelecto com a coisa, mas a 
sua validez está na capacidade de desvelar essa verdade, que 
é da coisa. Assim, em si mesmas, tôdas as coisas, tôdas 
as entidades são verdadeiras, e tudo em si mesmo é verda­
de. A falsidade surge da não conveniência do que se pensa 
sôbre a coisa e a coisa.
É compreensível que tal modo de considerar a verdade 
tenha levado muitos