Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
233 pág.

Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.748 materiais618.087 seguidores
Pré-visualização50 páginas
que fizeram uso.\u201d
Realmente é êsse o motivo que nos levou a procurar, 
neste capítulo, examinar, dentro de nossas possibilidades, a 
construcção de um quadro de polaridades de distinção, que 
sirva de meio hábil ao estudioso da Lógica e do que deseja 
empregar a Dialéctica Concreta que, como já o mostramos, 
procura acrescentar tôdas as positivídades (mas realmente 
positivas), que podem contribuir para o melhor desenvolvi­
mento desta disciplina, e que possam beneficiar aos que de­
sejam nela penetrar, a fim de dominarem completamente 
o pensamento, a ponto de torná-lo eficiente para o exame
110 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
das idéias e para dissipar as sombras da confusão em que 
mergulhou o pensamento moderno.
Examinaremos, a seguir, alguns argumentos célebres, 
nos quais os defeitos lógicos tornam-se patentes, graças ao 
emprego das distinções, que permitem revelar de modo me­
ridiano os erros de que estão eivados. Aproveitaremos pa­
ra apresentar pensamentos que foram manejados por auto­
res anti-escolãsticos, argumentos que muitas vêzes tiveram 
notoriedade, e que conseguiram impressionar aos desavisa- 
dos.
Outra distinção famosa, e de máxima importância para 
o exame do pensamento, é a que se estabelece entre
Tomemos êste famoso silogismo: Não podemos confiar em 
faculdades que nos induzem ao êrro; ora, nossas faculdades 
nos induzem ao êrro; logo, não podemos nelas confiar.
Mas elas sempre nos conduzem ao êrro? Não; algumas 
vêzes (aliquando). E nos conduzem ao êrro por si mesmas 
(per se) ou por accidente (per accidens)? Na verdade, por 
si mesmas não nos conduzem ao êrro, mas por accidente. 
Convém, pois, considerar ademais esta polarização distinta 
já examinada
Esta distinção desfaz muitos famosos argumentos, que são 
apenas falácias, manejadas com tanta habilidade por filóso­
fos menores.
Mas poderia o mesmo objector alegar silogisticamente 
do seguinte modo: A faculdade, que necessária e invenci­
velmente erra, é uma faculdade que erra por si. Ora, o in­
telecto é uma faculdade dessa espécie. Conseqüentemente...
semper \u2014 et \u2014 aliquando
(sempre) (algumas vêzes)
per se \u2014 et 
(por si)
per accidens
(por accidente)
m é t o d o s l o g i c o s e d ia l ê c t ic o s 111
Mas uma distinção refuta a falácia. Seria procedente 
a maior se a faculdade errasse fisicamente de modo necessá­
rio e invencível (infrustrável), não quando erra moralmen­
te (frustràvelmente), por erros que decorrem da debilidade 
da vontade ou de más apreciações, ou julgamentos que 
podem ser corrigidos.
Daí é mister distinguir o errar fisicamente de o errar 
moralmente.
Fisicamente \u2014 et \u2014 Moralmente
Se um céptico alega que o cepticismo, por não ter 
nenhum princípio próprio, não pode ser refutado, porque 
só se refuta uma doutrina que tem princípios próprios, a 
resposta à falácia é dada por uma distinção clara: não se 
pode opor uma demonstração positiva e directa, mas se pode 
opor uma negativa e indirecta.
Positiva directa \u2014 et \u2014 negativa indirecta
Se um ser tende para algo, para o qual tende, pode ser 
por um tender absolutamente necessário ou por um tender 
hipoteticamente necessário, um tender indesviável ou não. 
Quem duvidasse do valor do nosso intelecto para alcançar 
uma verdade absoluta poderia alegar que não há concordân­
cia entre os filósofos, o que prova que não é êle ordenado 
a tal verdade. Contudo, seria refutável a sua afirmação, 
graças a uma simples distinção.
Caberia razão a quem usa tal argumento, se nosso inte­
lecto a tal se ordenasse indefectivelmente. Neste caso, não 
haveria discrepância entre os filósofos. Mas, por se dar 
defectivelmente essa ordenação, tais discrepâncias são facil­
mente compreensíveis. Portanto, temos a polarização já 
estudada
Indefectível \u2014 et \u2014 defectivelmente
Um céptico, que assinalasse as dificuldades em que a ciência 
se encontra, e que aumentam a proporção que o conheci­
mento científico invade novos sectores, poderia terçar como
112 M íiRIO F E R R E IR A DOS SANTOS
argumento contra a inteligência humana tais factos. No 
entanto, uma simples distinção desfaz o argumento: nem 
tôdas as conclusões são obscuras, mas apenas algumas que, 
naturalmente, ultrapassam ao campo da ciência. Portanto, 
convém distinguir
todos \u2014 et \u2014 alguns
e observar em que sentido êsses alguns estão adequados ao 
que afirma a premissa maior.
É impossível construir a ciência num mundo que está 
em constante mutação, onde tudo se muda, se transmuda e 
se transforma. Ora, uma distinção desde logo desfaz um 
argumento dessa espécie: o que realmente está em constante 
mutação não permite que se construa uma ciência sôbre 
tais coisas, mas pode-se construir sôbre as coisas, que, es­
tando em contínua mutação, apresentam algo estável e ne­
cessário.
Negar que possamos conhecer as coisas como elas são 
em si mesmas, tem sido o grande argumento dos cépticos 
para negar, conseqüentemente, todo valor ao nosso conhe­
cimento, pois èste é sempre proporcionado às nossas con­
dições psicológicas. Uma simples distinção desfaz totalmen­
te tal argumento. Sem dúvida o nosso conhecimento é re­
lativo ãs nossas condições psicológicas, mas apenas segundo 
é o objecto conhecido, não segundo o modo pelo qual é co­
nhecido. No primeiro caso, apenas conhecemos o que apa­
rece do objecto, mas, pela nossa esquemática, intencional­
mente, nosso conhecimento pode ser adequado ao que a 
coisa é, tomada em sua essência. Assim, temos a polarização
quoad id quod \u2014 et \u2014 quoad modum quo
(segundo o que é) (segundo o modo pelo que é)
Se o céptico persiste afirmando que não pode haver o 
mesmo conhecimento de objectos que são especificamente 
diversos, convém desde logo distinguir. Não pode haver
MÉTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 113
subjectivamente o mesmo conhecimento de objectos especi­
ficamente diversos, mas pode haver objectivamente O mes­
mo conhecimento. Portanto, a distinção é
subjectivamente \u2014 et \u2014 objectivamente
Se se afirma haver em Deus a absoluta simplicidade, 
alega um objector que lhe atribuímos inteligência e vonta­
de. Mas a vontade, quando quer, não intelege, e o intelec­
to, quando intelege, não quer. Ora, tal indica uma contra­
dição.
Uma simples distinção responde ao argumento.
As coisas podem ser em si uma só, e serem outras, se­
gundo sua razão, A distinção que fazemos entre intelecto 
e vontade em Deus é uma distinção de razão. Tal não quer 
dizer que, nêle, intelecto e razão sejam real-fisicamente dis­
tintos.
Distinção real-física \u2014 et \u2014 distinção de razão
Alguns argumentos famosos que foram manejados por 
escolásticos de renome oferecem exemplos do emprego das 
distinções. Vejamos êste: Se houvesse muitos deuses, êles 
conviriam em algo, e difeririam em algo, pois, teriam o que 
nêles é o mesmo e o que os distingue e, portanto, seriam 
compostos. Ora, em Deus não se pode admitir nenhuma 
composição; portanto, não são muitos.
Contudo ao examinarmos tal argumento alguns realizam 
análises como esta: a maior é considerada verdadeira se se 
admitir uma precisão não mútua entre os elementos distin­
tos; não se houver uma precisão mútua. Ou, melhor: po­
deriam dois deuses convirem em algo e em algo diferirem, 
sem haver composição? Neste caso, não haveria composi­
ção metafísica. Exemplifica-se com a substância e o acci­
dente, que convêm em algo e em algo diferem, sem qualquer 
outra composição metafísica. Se tal ê possível entre subs­
tância e accidente, do mesmo modo é possível entre deuses.
114 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
A aceitação da trindade cristã leva a admitir que entre as 
divinas pessoas há algo em que tôdas convêm, e algo em 
que diferem, sem haver verdadeira composição metafísica.
No entanto, um Deus poderia ser absolutamente sim­
ples, e os outros não, pois seria apenas Deus, e os outros, 
por terem algo que os diferenciasse