Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


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tese, segue-se o panteísmo.
A distinção acima resolve claramente a dificuldade. Se 
Deus contivesse tôda actualidade formalmente, e segundo 
todos os modos de ser desta, a objecção estaria certa; mas 
se contém eminente e virtualmente, já a objecção desfaz-se. 
Êle contém tôda actualidade possível, como o mais contém 
o menos, não a contém de modo imperfeito, como já se viu.
Uma tese existencialista moderna, mas que é uma velha 
objecção já desfeita pelos escolásticos, é a seguinte: A es­
sência actual de Pedro identifica-se re et ratione com a exis­
tência de Pedro; ora, contudo, não é actualidade pura; logo, 
por identificar-se a essência de Deus re et ratione com a exis­
tência de Deus, não se conclui que seja actualidade pura.
A resposta surge de uma distinção: tal identificação não 
se dá em Pedro porque êle é um ser contingente, e poderia 
não existir, enquanto Deus é um ser absolutamente neces­
sário, e a identificação re et ratione se dá de modo neces­
sário. Ademais, Pedro, antes de ser existente, era uma pos­
sibilidade que se actualizou, quando Pedro começou a ser 
Pedro, portanto, como vimos, por ser a essência, tomada em 
si mesma, uma possibilidade, é êle composto da razão des­
sa possibilidade e do exercício da mesma. Em Pedro exis­
tente há uma identificação, não porém, uma actualidade pura.
Outro argumento que se ofereceu neste caso foi o se­
guinte: se a essência de Deus é formalmente a sua existência,
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ninguém poderia, ao pensar sôbre Deus, negar a sua existên­
cia; ora, muitos, que pensam em Deus, negam a sua existên­
cia; portanto, a existência real não é a sua essência. E jus­
tificam a maior: porque negariam e afirmariam o mesmo do 
mesmo.
Uma distinção clareia a dificuldade: que não se pode ne­
gar a existência de Deus na cogitação, não há dúvida; mas 
que se pode negar a sua existência real e exercitada, depois 
de demonstrada a priori, há quem o faça. A polarização é 
pois
real na cogitação \u2014 et \u2014 real-real e exercitada
Poder-se-ia alegar que sempre há distinção entre essên­
cia e existência, porque a existência é sempre o acto de ou­
tro, assim como o movimento é movimento de outro, daí 
porque não se pode dar um movimento absoluto.
Uma simples distinção resolve desde logo a dificuldade: 
a existência é sempre acto de outro, mas respectivamente 
considerada, não absolutamente considerada, pois tal não 
se daria. A distinção entre essência e existência não é real- 
-física. A exemplificação com o movimento também pa­
dece de paridade, por-que o movimento é uma modal; por­
tanto, absolutamente dependente da coisa, enquanto a exis­
tência não é uma modal, mas a realidade plena da coisa que 
é. Temos, assim, a polarização
respectivamente considerado \u2014 et \u2014 absolutamente 
(relativamente) considerado
Outro argumento, que se enquadra na matéria aqui ex­
posta, e que oferece campo para o emprego de duas polari­
dades de distinção, é o seguinte: estão em Deus as notas 
qüiditativas como sapiência, santidade; ora, tais notas não 
dizem mera actualidade, mas coisas qualitativas e qüiditati­
vas, portanto, a actualidade não se identifica quanto à ra­
zão com a qüididade.
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A objecção exige algumas distinções. Tais notas qüi- 
ditativas estão em Deus por modo de atributos, e não por 
modo constitutivo, nem tampouco explicitamente, mas im­
plicitamente. Todo o argumento desfaz-se ante essa distin­
ção. Temos, pois, as polarizações:
atribuli vãmente \u2014 et \u2014 constüutivamente 
que empregamos em primeiro lugar, e ainda
explicitamente \u2014 et \u2014 implicitamente
Essas duas polarizações servem ainda para desfazer ou­
tros argumentos, tais como: Deus é sapiência por essência; 
conseqüentemente, a sapiência é tôda essência de Deus re et 
ralione; ora, contudo, a sapiência não é formalmente exis­
tência; portanto, essência não é existência senão formal­
mente.
A resposta é que Deus é sapiência implicitamente, não 
explicitamente, e o resto decorre rigorosamente em oposição 
ao que deseja dizer o objector.
Outra objecção apresentada foi a seguinte: Se a essên­
cia de Deus fôsse a sua existência, conhecida a existência, 
conheceríamos a essência; ora, tal não acontece; portanto, 
a essência não é a sua existência.
E tal é verdade, alegaria o objector, que, conhecida a 
existência de Deus, perguntamos a seguir pelo que (in quo) 
é a sua essência.
Conhecer perfeitamente a essência como é em si mes­
ma, tal não se dá; mas dá-se, sim, um conhecimento imper­
feito, e tão imperfeito como conhecemos sua existência. A 
polaridade é
perfeitamente \u2014 et \u2014 imperfeitamente
Alguns afirmam: só conhecemos o que está presente em 
nossa cognição. Ora, o objecto presente na cognição é ima- 
nente a esta; portanto, só conhecemos o objecto imanente à 
cognição.
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A resposta é; sem dúvida que o que está na cognição é 
imanente à cognição, mas intencionalmente não realmente, 
pois o que é imanente no conhecimento desta casa é inten­
cional, pois a casa não está realmente no cognoscente. A 
polaridade
intencionalmente \u2014 et \u2014 realmente
permite desfazer a objecção. E assim como intencional­
mente forma uma polaridade com realmente, também o for­
mam idealmente, formalmente, eidèticamente, como o ve­
remos.
Mas o objector poderia insistir dizendo que o objecto 
interno presente é imanente de modo real à cognição. Sem 
dúvida, é imanente realmente à cognição sob o aspecto sub­
jectivo da espécie representante, não sob o aspecto objecti- 
vo da espécie representada, pois realmente há na mente a 
espécie que representa (representans) a coisa, não a coisa re­
presentada na mente. Há uma realidade subjectiva e não a 
realidade objectiva da coisa na cognição.
Realidade sob o aspecto \u2014 et \u2014 realidade sob o aspecto 
subjectivo objectivo
Assim, a intencionalidade tem uma realidade subjecti­
va na mente, e corresponde subjectivamente ao que repre­
senta, que é real, e objectivamente na coisa representada. 
A realidade subjectiva cognoscitiva é apenas intencional­
mente a realidade objectiva da coisa conhecida.
Outra objecção pode ser interposta aqui: se o objecto 
é conhecido pela espécie (por sua classificação específica), 
conhece-se a espécie e não a coisa. (Actualiza-se a espécie 
da coisa, e virtualiza-se a sua singularidade, a sua onticida- 
de formal). Ora, se se conhece a espécie, e não a coisa, a 
mente cairia no subjectivismo fenomenalístico, que afirma 
que o único conhecimento que temos das coisas são as espé­
cies. Se o objecto conhecido estivesse presente por espécie,
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a mente cairia no subjectivismo fenomenalístico, que afirma 
que, ao conhecermos, actualizamos apenas a espécie, inibin­
do a coisa em sua onticidade.
Que o objecto é conhecido pela espécie, não há dúvida; 
mas, tal conhecimento não impede um conhecimento imper­
feito da singularidade da coisa. O objecto conhecido não 
estã presente apenas como espécie, pois o objecto conhecido 
não o é só pela espécie (quo), mas também como uma sin­
gularidade (quod). Assim há, no conhecer, uma distinção:
Conhecimento quo \u2014 et \u2014 conhecimento quod
(meramente formal) (da singularidade
da coisa),
Nosso conhecimento concreto não pode ser passivo; ora, 
o conhecimento realístico é conhecimento passivo; portanto, 
nosso conhecimento concreto não pode ser realístico.
Êste é o argumento de um idealista contra o realismo, 
já que o conhecimento que êste apresenta é passivo, porque 
o homem conhece, recebendo o influxo das coisas exteriores. 
Uma distinção esclarece tudo. Que o conhecimento con­
creto não pode ser totalmente passivo, não há dúvida; mas 
pode ser parte activo e parte passivo, como aliás o é, o que 
exclui o excesso do realismo, e limita o excesso do idealismo. 
Temos, assim, a polaridade