Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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ex todo \u2014 et \u2014 ex-parte
distinção que facilita o esclarecimento de inúmeras dificul­
dades que surgem à mente humana.
Mas o idealista, no intuito de refutar o realismo, poderia 
objectar ainda: o objecto da cognição verdadeira não pode 
ser dependente simultaneamente e não dependente da cogni­
ção. Ora, o objecto da cognição realista é simultâneamente 
dependente e não dependente da cognição. Portanto, o objec­
to da cognição verdadeira não pode ser realístico.
M ÉTODOS LÓGICOS E DIALÊCTICOS 123
A distinção é fácil; não pode ser dependente e não de­
pendente sob o mesmo aspecto, mas pode ser sob diversos 
aspectos. Então, temos a polaridade
sob o mesmo aspecto \u2014 et \u2014 sob aspecto diverso 
(sub eodem respectu) (sub diverso respectu)
Se fôsse sob o mesmo aspecto, haveria contradição.
Podem-se aplicar, agora, essas polaridades para respon­
der à objecção seguinte: As coisas, que são heterogêneas, 
não podem identificar-se na cognição; ora, a matéria é he­
terogênea em relação ao espírito; portanto, não pode iden­
tificar-se com o espírito. Mas, a resposta vem logo: se fôsse 
totalmente heterogênea (ex todo), estaria certa a objecção, 
mas se é apenas parcialmente (ex parte), leva a outras con­
clusões. Não há identificação realmente, mas intencional­
mente. Na verdade, como se demonstrou na Filosofia Con­
creta, a matéria não é totalmente heterogênea ao espírito, 
nem vice-versa, pois há sempre analogia entre os sêres. E 
essas analogias constituem a via mais importante da dialéc- 
íica concreta, pois todos os sêres se analogam, mais próxi­
ma ou mais remotamente, uns com os outros. Na Lógica 
Formal, como temos demonstrado em nossos livros, entre 
dois juízos particularés não há lugar para uma conclusão. 
Contudo, pelo método das analogias, se houver uma analo­
gia de proporcionalidade, há lugar para certa ou certas con­
clusões. Contudo, estas são mais fáceis de se obter se a 
analogia é próxima, como no exemplo de "D. Manuel é rei 
de Portugal\u201d e \u201co leão é o rei do deserto\u201d, porque há uma 
proporcionalidade no reinar de um e de outro, o que per­
mite concluir dialècticamente que "o actuar de cada ser é 
proporcionado ao campo de sua actividade\u201d, como mostra­
mos naquela obra.
Se a verdade lógica consiste numa oposição à falsidade, 
e se esta está sujeita ao mais ou menos, também o está a 
verdade, alegaria alguém. Uma distinção responderia cla­
ramente ao argumento. É que a verdade não se define por
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negação da falsidade, mas, sim, positivamente, por adequa­
ção formal.
Temos a polaridade
negative \u2014 et \u2014 positive
(negativamente) (positivamente)
Aos que afirmam que se pode chegar ao conhecimento 
da existência de Deus, partindo das criaturas, fêz-se esta ob­
jecção: se se pudesse, partindo das criaturas, provar a exis­
tência de Deus, deveriam estas conter a existência de Deus. 
Ora, uma tal afirmativa seria absurda; portanto, não se 
pode provar a existência de Deus partindo das criaturas. Se 
as criaturas provassem-no, seriam elas a causa da cognição 
de Deus. Ora, sabe-se que a causa contém tôda a perfeição 
do efeito e, neste caso, a criatura deveria conter tôda a per­
feição da existência divina.
Uma simples distinção resolve a dificuldade: a criatura 
não contém entitativamente, mas apenas como signo, como 
sinal. Ademais, não são as criaturas causa da cognição de 
Deus objectivamente, mas apenas subjectivamente. As cria­
turas oferecem, assim, um signum subjectivo, enquanto são 
sinais manifestativos da existência divina. O sofisma, assim, 
desfarela-se totalmente. A polaridade é
entitativamente \u2014 et \u2014 como sinal
Quanto à polaridade subjectivamente-objectivamente, já 
estudamos acima.
Vejamos agora esta objecção: Nenhuma ciência demons­
tra a realidade do seu objecto; ora, Deus é objecto da Teo- 
dicéia; portanto, a realidade de Deus não pode ser demons­
trada na Teodicéia. São procedentes para o objector as pre­
missas, porque a ciência procura saber o que a coisa é. Ora, 
tal busca implica, previamente, a existência; portanto, a ciên­
cia de alguma coisa não pode demonstrar a existência do seu 
objecto.
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Uma série de distinções permite responder galharda­
mente à objecção. Vejamos: nenhuma ciência demonstra a 
realidade do seu objecto a priori, está certo; mas a posteriori 
cabe outra distinção. Se se trata de uma ciência subordina­
da, é procedente a objecção; mas se se trata de ciência su­
prema (subordinante) como é a Metafísica, à qual pertence 
a Teodicéia, a objecção é improcedente. Temos as polari­
zações
A priori \u2014 et \u2014 a posteriori
e também
subordinado \u2014 et \u2014 subordinante
Mas o objector pode prosseguir afirmando que a pro­
priedade do infinito é a de não poder ser conhecido. Ora, 
se Deus existe, é êle infinito; portanto, não poderia ser co­
nhecido. E aduz a seu favor mais as seguintes razões: se 
o infinito pudesse ser conhecido, finitizar-se-ia em nós, ou 
seria tomado em medida finita pela nossa mente.
O argumento, que tem sido levantado em todos os tem­
pos, desfaz-se ante uma distinção simples: não podemos co­
nhecê-lo compreensivamente (em tôdas as suas notas), ou 
seja qüiditativamente, não resta dúvida. Mas podemos co­
nhecer através de conceitos analógicos, que realizam uma 
síntese, tanto das negações como das relações. A polarida­
de é, pois,
qüiditativamente \u2014 et \u2014 analògicamente
Mas, o objector não se dá por vencido, e insiste: mos­
trou-nos Aristóteles, e o aceitam os escolásticos, que o inte­
lecto nada pode conhecer sem os fantasmas das coisas. Ora, 
não sendo Deus nenhum fantasma, não pode ser êle conhe­
cido pelo nosso intelecto. A objecção desfaz-se, porque te­
mos os fantasmas de seus efeitos, embora não tenhamos de 
sua causa primeira, os quais são suficientes para permitir 
uma inteligência suficiente. Se não temos os fantasmas da
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coisa a ser conhecida, temos de seus efeitos, pois, pelos efei­
tos, podem-se conhecer também as causas.
Temos, então, a polaridade cognoscitiva 
pela causa \u2014 et \u2014 pelos efeitos
ou seja
directamente \u2014 et \u2014 indirectamente
Outro exemplo da aplicação da polaridade a priori \u2014 
et \u2014 a posteriori, temos em face da demonstração da exis­
tência de Deus, que, para a maioria dos escolásticos, é só 
possível a posteriori.
Em Filosofia Concreta, fizemos ampla análise dos argu­
mentos a priori, e tivemos oportunidade, também, de exami­
nar várias objecções famosas contra a prova indevidamen­
te chamada a priori da existência de Deus, como é a de San­
to Anselmo. Em argumentos como os que vamos citar, os 
adversários das provas a priori procedem dêste modo: Me- 
tafisicamente, repugna que o ser não seja, o que leva a afir­
mar que necessariamente há o ser, e que êste é, necessário; 
ora, o ser necessário é Deus; portanto, repugna metafisica- 
mente a não existência de Deus, porque, do contrário, o ser 
seria não-ser, o que é absurdo.
Os que discordam têm de aceitar que há algum ser neces­
sariamente, sem dúvida. Afirmam, porém, que essa necessi­
dade é hipotética, e não absoluta. Contudo, poder-se-ia di­
zer que se há alguma coisa, há necessariamente de modo ab­
soluto alguma coisa, porque o haver de alguma coisa afirma, 
necessariamente, que sempre houve alguma coisa, já que o 
nada não poderia dar surgimento a alguma coisa. Necessa­
riamente, e de modo absoluto, sempre houve alguma coisa. 
Mas, provar que êsse alguma coisa é Deus, já exige outros ar­
gumentos. Se Deus é o ser que é necessário de modo abso­
luto, o ser que é necessário de modo absoluto tem de ser 
Deus, sem que, por isso saibamos quid sit; ou, seja, como é 
em sua essência. A polaridade aqui é
hipoteticamente \u2014 et \u2014 absolutamente
m é t o d o s l o g i c o s e d i a l é c t i c o s 127
A idéia do nada metafisicamente repugna; portanto,