Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


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Logicamente, a idéia 
de contingência implica a de necessidade, Se não se pode 
conhecer o ente contingente adequadamente sem o ser ne-
m é t o d o s l o g i c o s e d i a l e c t i c o s 131
cessário, pode-se, contudo, conhecê-lo inadequadamente. Te­
mos, nessa argumentação, a polaridade:
adequadamente \u2014 et \u2014 inadequadamente
Conhecer inadequadamente é desconhecer a causa pri­
meira no qual êle se funda.
Prossegue o objector: nãc há nenhuma conexão entre o 
ser necessário e o ser contingente; portanto, é impossível de- 
monstrar o ser necessário a partir do contingente.
Mas a resposta suareziana é que não há uma conexão 
mútua, pois o necessário não implica o contingente, embora 
o contingente implique o necessário, e tanto é assim que 
até os que defendem a possibilidade de tôda a série ser com­
posta de sêres contingentes reconhecem que a série, tomada 
colectivamente, é necessária. Demonstramos, em \u201cFilosofia 
Concreta\u201d, que o conseqüente exige necessariamente o ante­
cedente, não vice-versa. Poderia existir Deus sem a criatu­
ra, mas a criatura não poderia existir sem Êle, já que a cria­
tura depende essencialmente de Deus, pois não poderia exis­
tir nem perdurar. Nesse perdurar, hã um ponto de máxi­
ma importância: na série de causas contingentes, há o per­
durar da actualidade de um ser que dá actualidade aos subse­
qüentes, sem que tal actualidade se desfaça. A actualidade 
posterior é ainda a anterior, pois, do contrário, a posterior 
desapareceria. A série infinita de causas contingentes tem 
de postular, inevitavelmente, a presença perdurante de uma 
actualidade necessária, pois sem ela a série não permanece­
ria sendo.
A polaridade que surge, aqui, é a seguinte
conexão mútua \u2014 et \u2014 conexão não-mútua
Podem alguns dizer que para explicar a existência do ser 
contingente basta uma causa contingente. Contudo, esta ex­
plicação é inadequada, porque, por mais que multipliquemos 
os sêres contingentes in infínilum, há sempre, em todos, a 
plena insuficiência para existir. Dêste modo, a existência
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do ser contingente não se explica apenas pela existência de 
outro contingente. Temos aqui um exemplo do emprêgo da 
distinção adequada-inadequada, que permite esclarecer um 
ponto de máxima importância.
Argumenta-se: atingir as determinações quantitativas e 
qualitativas não é atingir o ser real. Ora, os sentidos atin­
gem imediatamente determinações quantitativas e qualitati­
vas. Logo, os sentidos não atingem o ser real.
Algumas polaridades de distinção permitem esclarecer 
esta dificuldade, que tem sido apresentada tantas vêzes. 
Atingir as determinações quantitativas e qualitativas em acto, 
não pertinentes ao ente real, não é atingir o ente real, nada 
há a objectar; mas as pertinentes em acto ao ente real, cabe 
subdistinguir: não é atingir ao ente real enquanto ente real, 
está certo; não atingíir ao que é ente real, não é admissível. 
Os sentidos podem não atingir ao ente real enquanto ente 
real, mas atingem ao que é ente real. Os sentidos atingem 
a coisa sob o aspecto quantitativo e qualitativo, enquanto 
sensível.
A polaridade é, pois
quatenus ens est \u2014 et \u2014 id quod ens est
(até onde o ser é) (o que o ser é)
Todo ser real é singular, diz um filósofo. Ora, os con­
ceitos universais são entes reais; portanto, são singulares.
As distinções, que se podem fazer aqui, clareiam, niti­
damente, as idéias, e permitem evitar as conclusões. Todo 
ente real é entitativamente; ou, seja, na ordem física, singu­
lar; na ordem intencional, é singular representativamente; na 
ordem eidética, nem é singular nem universal, pois como 
eidos não se singulariza nem se universaliza.
As polaridades são, pois,
entitativamente \u2014 et \u2014 representativamente 
(ordem física) (ordem intencional)
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Conceito estável e idêntico, não pode corresponder a 
singulares mutáveis e heterogêneos; ora, o conceito univer­
sal é estável e idêntico. Portanto...
Uma distinção pode-se fazer aqui, que permite respon­
der com segurança à objecção apresentada. Que o conceito 
estável e idêntico não pode corresponder aos singulares ex 
todo (a tudo quanto é) contingente e heterogêneo, não há 
dúvida. Mas ex parte (apenas parte) do que é contingente 
e heterogêneo, permite, ainda, distinguir: não pode correspon­
der sob o aspecto meramente contingente e heterogêneo, es­
tá certo; mas sob o aspecto mais ou menos necessário e 
idêntico, isso pode.
Temos as polaridades
ex toto \u2014 et \u2014 ex parte 
aspecto contingente \u2014 et \u2014 aspecto necessário
O conceito refere-se à parte estável, perdurável dos fac­
tos singulares. Se não expressa tudo dêsses factos singu­
lares, expressa o que nêles é verdadeiro. Ademais, à pro­
porção que se aplicam os conceitos, descreve-se cada vez 
mais o facto singular, aumentando a referência aos aspectos 
homogêneos. A objecção pretendia desmerecer totalmente 
o vaior do conceito, mas malogra ante a distinção.
O conceito, que representa a coisa sob um certo aspec­
to, não corresponde à própria coisa; ora, o conceito abstrac- 
to representa a coisa sob um determinado aspecto; portan­
to, não corresponde à própria coisa.
Que o conceito representa a coisa sob um aspecto parcial 
e não total, não há dúvida. Que o conceito, que representa 
apenas parte, não corresponde compreensivamente à coisa, 
não há dúvida; mas, que não seja adequado, tal não é pro­
cedente. O conceito abstracto não representa a coisa sob 
um aspecto parcial, mas a coisa como um todo. Se não a 
inclui totalmente em sua compreensão, representa-a pelo me­
nos adequadamente.
134 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
Argumenta-se que o que não tem caracteres sensíveis 
não corresponde às coisas do mundo. E como os universais 
não têm caracteres sensíveis, não podem corresponder às 
coisas do mundo.
É preciso não esquecer que tais conceitos referem-se ao 
que há de comum nas coisas, o que lhes dá, portanto, va- 
lidez.
Assim, temos
Todo \u2014 et \u2014 parte 
singular \u2014 et \u2014 comum
O objecto das ciências é real; ora, o objecto das ciên­
cias é universal; logo, algo universal é real.
Eis outro exemplo da aplicação da polaridade
segundo o que é \u2014 et \u2014 segundo o modo pelo 
concebido qual é concebido
Real é o objecto das ciências como o que é concebido, 
não segundo o modo pelo qual é concebido, pois êste último 
é o formal.
Outro argumento é o seguinte: o objecto das ciências é 
imutável e eterno; ora, o que é imutável e eterno realmente se 
distingue das singularidades mutáveis; portanto. . .
Uma polaridade de distinção permite esclarecer. O ob­
jecto das ciências é imutável e eterno quando êstes têrmos 
são tomados negativamente; se tomados positivamente, não, 
porque o imutável e o eterno são objectos da Teologia.
O polaridade é
negativamente \u2014 et \u2014 positivamente
O que é necessário não pode fundar-se em contingentes 
singulares; ora, o conceito universal é necessário; portan­
to. ..
A distinção, que se impõe, é a seguinte: não pode como 
última base fundar-se nos contingentes singulares, é certa a
MÉTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 135
afirmação; mas, que não possa fundar-se pròximamente em 
contingentes singulares, a afirmativa é improcedente, por­
que não há nenhum contingente que não se funde num ne­
cessário. A polaridade é
último \u2014 et \u2014 próximo
Se a coisa singular convém na mesma natureza comum, 
existe fora da coisa a mesma e comum natureza; ora, as coi­
sas singulares convêm na mesma natureza comum; logo, 
existe fora da coisa a mesma e comum natureza.
A distinção é a seguinte: se a coisa singular convém na 
mesma e comum natureza individual, existe fora da coisa a 
mesma e comum natureza, é certo, embora não o seja o su- 
pósito; se a coisa singular convém na mesma e comum na­
tureza específica, é preciso ainda