Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


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distinguir: existe fora da 
coisa na mesma e comum natureza, conseqüentemente à abs- 
tracção da mente, está certo; antecedentemente, é falso. Se 
fundamentalmente, é certo; formalmente, é falso.
O que não se encontra nos singulares, não pode ser cap­
tado, retirado dos singulares; ora, o universal não se encon­
tra nos singulares; portanto, não pode ser captado dos sin 
gulares. Decorre daí que os conceitos universais não são 
abstraídos dos singulares.
A resposta é a seguinte: o que realmente não está nos 
singulares, nêles não pode ser captado, é certo; mas o que 
tem fundamento nas coisas, se não pode ser captado por 
intelecção empírica, realizada pela intuição (como a sensí­
vel, por exemplo), pode ser pela intelecção abstractiva. 
Afirmar que os universais de nenhum modo estejam nos sin­
gulares, é improcedente; podem não estar singularmente 
nêíes, pois, então, se singularizariam, mas estão fundamen­
talmente nos singulares. Portanto, não podem os universais 
ser captados dos singulares por meio de uma intuição sensí­
vel, mas podem ser por meio de uma operação intelectual 
(uma intelecção abstractiva). Na verdade, a mente huma­
na capta a universalidade, fundando-se na homogeneidade 
que há entre os sêres. Essa universalidade não é objecto
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da intuição sensível, mas inicia-se por uma intuição intelec­
tual, que realiza a distinção das semelhanças e das diferen­
ças, para classificá-las num esquema eidético-noético, que é 
o conceito (universal).
As polaridades de distinção nos facilitam a solução:
formaliter \u2014 et \u2014 fundamentaliter
(f ormalmente) (fundamentalmente)
intelecção empírica \u2014 et \u2014 intelecção abstractiva
Os factos singulares sensíveis, antes de serem inteligidos, 
são ininteligíveis; ora, de ininteligíveis não se podem abs­
trair noções inteligíveis; portanto, de singulares sensíveis não 
se podem abstrair inteligíveis.
A distinção é fácil de fazer: a maior é dada, no silogis­
mo, de modo absoluto e total. Afirma a ininteligibilidade 
absoluta e total. Ora, isso não é verdadeiro, porque os sin­
gulares não são ex toto ininteligíveis, pois são potencialmen­
te inteligíveis, e tanto é verdade que são inteligidos e clas­
sificados conceitualmente. Se há realmente coisas que são 
total e absolutamente ininteligíveis, delas não será possível 
extrair noções inteligíveis. Assim, o nada absoluto é ininte­
ligível, e dêle não se pode extrair nenhum inteligível. Só po­
demos pensar nêle através da recusa do ser. Se não houves­
se um fundamento dos universais nas coisas singulares, os 
universais seriam apenas construcções de nosso intelecto, 
como deseja afirmar o subjectivismo, O fundamento que há 
nas coisas é a forma intrínseca ou extrínseca, que as coisas 
possuem, mas, sobretudo, a primeira como lei de propor­
cionalidade intrínseca da coisa, que não transparece aos sen­
tidos, mas que a intelectualidade pode captar através: dos 
dados fornecidos pelos sentidos, como demonstramos em 
"Teoria do Conhecimento".
A distinção foi
ex toto \u2014 et \u2014 ex parte
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já por nós assinalada. Comentando tais afirmativas, alguns 
acusam de círculo vicioso a teoria da abstracção, porque, 
para que o intelecto capte o comum de muitos, terá primeiro 
que realizar uma abstracção. Mas, para realizar uma abs­
tracção deve já inteligir o comum. Realmente, já na intui­
ção sensível se processa uma acção abstractiva, mas parcial. 
Os dados obtidos são assimilados a esquemas sensíveis, que 
já foram intelectualizados. A acção abstractiva realiza-se se­
gundo a explicação pitagórico-platônica, pela assimilação da 
semelhança, que há no facto sensível, com os esquemas já 
construídos. Essa segunda abstracção, que se realiza pela 
inibição da singularidade do facto sensível, e pela actualiza- 
ção da universalidade, é a abstracção total intelectual, en­
quanto a primeira é a sensível, que é apenas dissociativa-as- 
sociativa, porque captamos sensivelmente, destacando o que 
é assimilável aos esquemas sensório-motrizes, que são clas­
sificados segundo os esquemas noético-eidéticos, que dispo­
mos através da abstracção total.
Distinguiam os escolásticos
universal directo \u2014 et \u2014 universal reflexo
O universal directo, como vimos, é a natureza da coisa 
absolutamente considerada, que prescinde em sua compreen 
são da singularidade e da pluralidade, assim homem. Uni­
versal reflexo é a mesma natureza considerada relativamente 
aos indivíduos, nos quais está ou pode estar: \u201co homem po­
de ser em muitos.\u201d
Chamavam de real ou metafísico o universal directo o 
que é concebido como estando na coisa (prima intentio); e 
universal reflexo, chamado lógico, era o que não estava for­
malmente na coisa, mas apenas na mente (secunda intentio). 
A lei de proporcionalidade intrínseca, que está na coisa, que 
é a forma da coisa, é o universal directo real ou metafísico. 
É real porque está na coisa; é metafísico, porque não é cap­
tado pela esquemática da sensibilidade humana, pela in­
tuição sensível, ultrapassando, assim, ao físico. Êsse uni-
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versai é o res extra animam, de que falava Tomás de Aquino 
(in De Potentia, q. 7 a. 9). Como êsse universal, segundo a 
doutrina pitagórico-platônica é apenas uma imitação, na coi­
sa, do universal directo eidético, êle aponta ao seguinte: a 
proporcionalidade intrínseca da coisa ordena-se segundo um 
logos (lei) de proporcionalidade intrínseca. Êsse logos é a 
triãiigularidade. Êsse logos da triangularidade é uma rea­
lidade eidétíca. independentemente dos triângulos, porque se 
não houvera triângulos, o logos da triangularidade não se 
tornaria num mero nada, nem seria um mero nada antes de 
haver triângulos, como um mero nada não é o logos do ho­
mem antes de haver homens. Tal logos seria na ordem do 
ser, uma possibilidade que se actualizou posteriormente. Co­
mo se deu essa actualização? Sêres vivos animais repetiram, 
na proporcionalidade intrínseca de sua constituição, um lo­
gos, que é o da humanitas. Nenhum ser humano é a huma- 
nitas, como nenhum círculo é a circularidade.
A circularidade é o logos (lei) da proporcionalidade 
intrínseca, que é imitada por todos os círculos. Mas, a cir­
cularidade é, enquanto tal, absolutamente perfeita. Nenhum 
ser circular, ao imitá-la, é plenamente a circularidade, porque 
esta é meramente eidética (formal), e não material. Dizer-se 
que a circularidade é uma criação subjectiva do homem, é 
afirmar que antes do homem seria impossível pensar sôbre a 
circularidade, que nada mais era que um mero nada.
A circularidade é possível de ser imitada por sêres fí­
sicos. Êsse universal directo prescinde da singularidade (ês- 
te, ou aquêle círculo) e da pluralidade (êsses círculos). É 
um eidos (forma) ante rem, que se dá fora das coisas. Êste 
pensamento pitagórico-platônico é absolutamente válido, e a 
sua negação faz incorrer em contradições, pois afirmaria a 
nulidade (nihilatio) da forma antes das coisas. Por outro 
lado, o que há nas coisas é o logos concreto, que dá a forma, 
que a informa, a forma dêste círculo, a forma dêste homem, 
que é um universal directo real (in re) e, finalmente, o uni­
versal reflexo lógico, que é o esquema eidético-noético em 
nós, intencional, que é segundo o que intelege o intelecto.
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Êste último realiza-se através do processo abstractivo, segun­
do a doutrina aristotélico-tomista. Vejamos, como é possí­
vel conciliar as positividades do pensamento pitagórico-platô- 
nieo com o aristotélico-tomístico, segundo as normas que es­
tabelecemos em nossa dialéctica concreta.
A abstracção é a operação pela qual se realiza a separa­
ção de uma coisa de algo. Ela pode ser física ou intencio­
nal. A física realiza a separação física, e a intencional é a 
que realiza a nossa mente, a qual consiste