Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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sejam bons. Se dizemos \u201calguns homens não 
são bons\u201d, e esta proposição é subalternada à universal ne­
gativa, não há contradição nenhuma nem contrariedade, se 
dizemos "alguns homens são bons\u201d, e se fôr verdadeira esta, 
será necessariamente falsa a universal negativa, mas se di­
zemos excludentemente \u201calgum (um só) homem é bom", 
falsas são a universal negativa e a particular negativa.
Podemos tomar as proposições de várias maneiras, co­
mo já vimos:
\u2014 quanto à qualidade: afirmativas, negativas e 
indefinidas.
MÉTODOS LÓGICOS E D IALlíCTICOS 153
Afirmativas são as que atribuem simplesmente o pre­
dicado ao sujeito: S é P.
Negativas: as que negam ao sujeito o predicado: 
S não-é P.
Indeterminadas: as que afirmam ao sujeito um predica­
do indeterminado: S é não-P.
As proposições, que negam ao sujeito um predicado não 
determinado, terminam por ser afirmativas. Assim S não-é 
não-P eqüivale a S é P, pois se dizemos: O homem não é 
nao-justo é o mesmo que dizer o homem é justo.
Quanto ã quantidade podem ser proposições: universais, 
particulares e singulares. Todos os S são P, alguns S são P 
e Um S é P.
O predicado pode ser contingente ou necessário ao su­
jeito.
Se o predicado é necessário ao sujeito, faz parte da sua 
essência, ou seja, é conotativo à sua essência; se é contin­
gente, pode ser meramente accidental ou uma propriedade. 
Se é propriedade, pertence à essência; se é meramente 
accidental, não.
Nas relações de oposição entre as proposições'vai sur­
gir uma série de possibilidades dialécticas, que merecem 
exame, para melhor compreensão do que é contraditório, 
contrário, subcontrário, subalterno, antagônico, antinômico 
e polar.
Para o exame dialéctico-concreto mais completo da ma­
téria, deve-se ainda considerar na proposição o sujeito e o 
predicado segundo a extensão e segundo a sua compreensão.
Posteriormente se complexiona ainda mais a análise, 
quando se examina o sujeito e o predicado segundo a su- 
plência (acepção), do que já tratamos, mas voltaremos a 
tratar. Por ora, buscaremos compreender da melhor manei­
ra a proposição quanto à sua forma e quanto à sua matéria.
M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
A primeira é indicada pelo modo da predicação, e a segunda 
pela função do sujeito e do predicado, pois êstes são a ma­
téria da proposição, que a predicação informa.
A verdade e a falsidade de uma proposição pode ser 
considerada em si ou em relação a outros, pois podemos tra­
tar da verdade ou da falsidade de uma proposição
mediatamente \u2014 et \u2014 imediatamente
Uma proposição é verdadeira ou falsa imediatamente, 
quando podemos alcançar a sua verdade ou falsidade pela 
análise apenas da mesma oração, sem necessidade de a com­
pararmos com outra verdadeira ou falsa; é mediatamente 
verdadeira ou falsa, quando a sua verdade ou falsidade de­
corre necessàriamente da verdade ou da falsidade de outra 
proposição.
Logicamente, a proposição Deus existe é imediatamen­
te verdadeira, porque o sujeito Deus implica necessària­
mente existência, como mostramos. Mas, uma verdade ló 
gica pode não ser uma verdade real. Assim, se inferimos 
que é logicamente verdadeiro, por necessidade, a proposição 
Deus existe, não podemos dela concluir a existência real de 
Deus sem outras provas; só o poderíamos mediatamente. 
Por isso, não basta uma verdade lógica para que alcancemos 
uma verdade real. Esta exige a prova real, enquanto àque­
la basta a prova lógica. Assim, é verdadeiro logicamente 
que Centauro c homem-cavalo, não é realmente verdadeiro 
sem a prova da existência real do Centauro, como já vimos.
Na comparação das proposições lógicas, verdadeiras ou 
falsas, as conseqüências não são ainda dialècticamente con­
cretas, enquanto a prova da onticidade objectiva do que elas 
referem não fôr feita. Se se houvesse compreendido isso 
com cuidado, o formalismo lógico não teria criado tantos 
males ao pensamento humano. Ora, a dialéctica concreta 
procura colocar êste tema em situação clara e nítida, tanto
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quanto é possível ao ser humano fazer, a fim de evitar as 
confusões que surgem daí.
Partamos, primeiramente, para as combinações possí­
veis, para a análise dos exemplos, deixando para extrair as 
regras principais, após tais exames, a fim de tornar meri­
diano o que à primeira vista pode parecer de uma dificul­
dade insuplantável.
Principiemos por paralelos clássico:
Todos os homens são mortais \u2014 Nenhum homem é
mortal
Alguns homens são mortais \u2014 Alguns homens não
são mortais
Um homem é mortal \u2014 Um homem não é
mortal
Temos aqui, de um lado, a universal afirmativa, a par­
ticular afirmativa e a singular afirmativa; de outro lado, 
a universal negativa, a particular negativa e a singular 
negativa.
Façamos a análise individual das proposições em pri­
meiro lugar, depois a análise das relações múltiplas e possí­
veis.
Todos os homens são mortais é uma proposição univer­
sal afirmativa.
Está assim classificada quanto à quantidade e à quali­
dade.
Análise do sujeito e do predicado: o sujeito é tomado 
em tôda a sua extensão, pois nêle incluímos todos os ho­
mens; é tomado também em sua compreensão, porque essa 
proposição poderia ser enunciada de outro modo, mais com­
preensivo: Todo homem é mortal ou também O homem é 
mortal.
Quanto ao predicado, está êle tomado em sua compreen­
são. A mortalidade, que se atribui ao homem, é compreen- 
sivamente mortalidade; quanto à extensão não, pois não se 
diz que os homens são todos os mortais, podendo, portanto 
haver outros sêres mortais que não sejam homens, pois a 
proposição deixa indeterminadamente a possibilidade de ha­
ver mortais que não sejam homens (1).
Voltando à análise da proposição Todos os homens são 
mortais, cujo exame sôbre a qualidade e a quantidade já 
fizemos, podemos agora realizar o que se refere à suplência.
Na proposição em análise, a da suplência (suppositio) 
é formal, própria, simples, universal. Se é real quanto à 
ordem: é essencial; quanto à extensão: é universal distri- 
butiva completa, porque a mortalidade é atribuída, formal­
mente, de modo simples e universal absoluto; em sentido 
lógico, e realmente quanto à ordem, é essencial ao homem; 
e quanto à extensão é universal distributiva, porque inclui 
todos os homens e cada um.
Quanto à proposição Alguns homens são mortais, está 
ela naturalmente subordinada à primeira, e a verdade da 
primeira indica a verdade da segunda. Contudo, a falsi­
dade da primeira não indica a falsidade da segunda, por­
que se apenas alguns homens fôssem mortais, sendo verda­
deira a universal afirmativa, seria falsa se a mortalidade 
fôsse contingente, accidental e não essencial. Mas, desde 
que se demonstre que a suposição formal real é, quanto à 
ordem, essencial, a particular afirmativa seria verdadeira, 
Ora, o que é essencial é necessariamente da coisa; conse­
qüentemente, a particular afirmativa é necessariamente ver­
dadeira se a universal afirmativa fôr verdadeira em matéria 
necessária. E se a universal afirmativa fôr verdadeira em 
matéria contingente? Não o é também a particular afirma-
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(1) Deixamos deliberadamente de considerar as proposições modais 
aqui, pois a modalidade se refere à forma da proposição, a fim de não 
complexionar a análise.
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tiva, que lhe estã subordinada? Se tomada em sua exten­
são, fôr verdadeiro que a universal afirmativa aponta matéria 
contingente universal, a afirmativa particular será também 
verdadeira na mesma ordem.
Quanto à quantidade, a mortalidade é, nessa proposi­
ção, afirmada de alguns, e êstes são tomados em sua exten­
são, não em sua compreensão, porque, numa proposição afir­
mativa particular, o predicado não é tomado directamente 
em sua compreensão, salvo prova, pois dizer-se que alguns