Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


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a posição dos dogmáticos exagerados, para 
os quais tais problemas não existem, pois não duvidam das 
nossas possibilidades de conhecer. Por sua vez, surgem ou­
tros para negar até totalmente qualquer possibilidade de 
conhecimento, como procedem os céptícos exagerados, que, 
nessa tomada de posição, constituem o pólo oposto aós dog­
máticos extremados. Entre ambos extremos colocam-se di­
versas posições gradativas, tendentes para um pólo ou para 
outro, o que foi tema de exame em nosso \u201cTeoria do Conhe­
cimento\u201d.
A objecção, que apresentamos acima, coloca-se plena­
mente dentro do campo da crítica e a resposta, que foi dada, 
é a que permite uma distinção clara sôbre o tema, cuja dis­
tinção evita, desde logo, uma tomada de posição exagerada.
Portanto, prossigamos no exame de outras objecções, 
que poderiam ser apostas a uma tese que afirmasse que se 
deve, cuidadosa e sinceramente, realizar o exame crítico das 
verdades, inclusive as fundamentais, aceitas pela Filosofia 
através dos tempos.
MfSTODOS LÓGICOS B DIALÉCTICOS 16?
Objecta-se: o filósofo, que busca a solução do problema 
do conhecimento, é um homem naturalmente imbuído por 
preconceitos. Ora, é impossível libertar-se de tais precon­
ceitos ao tentar solver qualquer problema, como consta pela 
experiência; logo, é impossível ao filósofo solver tal proble­
ma sem preconceitos.
É impossível fugir à influência da esquemática psicoló­
gica adquirida por influxo da educação e dos hábitos adqui­
ridos, sem dúvida. Contudo, ao examinar abstraetivamente, 
e dentro da Lógica, as verdades fundamentais, pode o filó­
sofo libertar-se dos preconceitos, embora seja tal libertação 
difícil; não, porém, fisicamente impossível.
A polaridade é
Difícil \u2014 et \u2014 Fisicamente impossível
Não há dúvida que sofremos, todos, do influxo dos es­
quemas históricos, próprios da época em que vivemos, e, 
também, do que habitualmente adquirimos, através da 
educação. Que tais esquemas influam no exame, posterior­
mente, das ciências particulares, sem dúvida é evidente, co­
mo o é até na Filosofia quando é matéria apenas de asser­
ções, de opiniões ao sabor estético, tão comum na época mo­
derna. Não, porém, quando a examinamos dentro dos câ­
nones lógico-dialécticos, porque aí conseguimos superar a 
influência da época, e é só aí que ela pode tornar-se positi­
va e perene (através dos anos), como o tem sido a filosofia 
escolástica.
A mente humana é apta à verdade. Não a adquire a 
priori, mas a posterlori, e essa acquisição exige esforço, aná­
lise cuidadosa e bem fundada.
Nenhum preconceito no mundo mudará a rigidez de uma 
operação matemática. E um materialista e um espiritualis­
ta concordarão sempre com as operações lógicas, quando 
exatamente fundadas.
168 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
Alegam: a evidência é o critério da verdade; ora, dos 
princípios abstractos tem-se pleníssima evidência; portanto, 
os princípios abstractos dão-se sem qualquer dúvida.
Quando o valor das idéias e a aptidão da mente são jus­
tificados por evidência concreta, concede-se; do contrário, 
não.
A polaridade é
evidência \u2014 et \u2014 evidência concreta
Portanto, ao afirmar-se uma evidência, verifique-se de 
que evidência se trata.
Alegam: Tudo quando experimentamos é um ser singu­
lar; ora, se o ser singular não é o ser enquanto ser; logo, 
não experimentamos o ser enquanto ser.
E argumentam: o ser enquanto ser é predicável de mui­
tos, e o que experimentamos não é predicável de muitos.
Responde-se: a maior é verdadeira. Mas a menor exi­
ge uma distinção: não é o ser enquanto ser, segundo a abs­
tracção, concede-se; mas segundo a compreensão, nega-se. 
Portanto, enquanto abstracção, não se tem experiência do. 
ser enquanto ser, mas se tem quanto à sua compreensão.
A polaridade é 
quoad abstractionem \u2014 et \u2014 quoad comprehensionem
Alegam: De facto, na História, a verdade aparece como 
relativa, como se vê nas questões físicas, inclusive nas re­
ligiosas, morais, etc. Portanto, a verdade é relativa.
Responde-se: que a verdade material aparece na Histó­
ria como relativa, concede-se mas que a verdade formal apa­
rece como tal, nega-se.
A polaridade é
verdade material \u2014 et \u2014 verdade formal
M13TODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 169
Alega-se: a teoria, que mais breve e mais facilmente 
explica os factos, é a aceita na ciência; ora, tal é sinal de 
que o que é da economia do espírito é verdadeiro; portanto, 
tal afirmativa implica a aceitação da teoria relativística
Responde-se: realmente tal se dá quanto à maior; mas 
o que seja apenas por economia do espírito, nega-se. A re­
cíproca é que não é verdadeira. Pelo facto de uma teoria 
ser breve e fácil, ser econômica quanto ao espírito, não im­
plica a verdade da recíproca; ou, seja, que se aceite como 
verdadeira tôda teoria que seja econômica ao espírito.
Verifique-se sempre a reciprocidade.
Mas prossegue o objector: É inegável que a teoria relati­
vística explica a variedade das opiniões e dos erros no sector 
do conhecimento, e das teorias e doutrinas várias que têm 
sido formuladas.
Responde-se: realmente favorece alguma explicação, mas 
que seja a única e a mais fácil e sem contradição, nega-se.
A polaridade é
explicação parcial \u2014 et \u2014 explicação total
Alega-se: Cognição quer dizer actividade e produção; 
ora, se a coisa preexistisse à cognição, dir-se-ia passividade 
ou recepção da coisa preexistente; portanto, a coisa conhe­
cida não preexiste à cognição, mas é produzida por esta.
Responde-se: dizer que é produção do acto de conhecer, 
concede-se; da coisa conhecida, nega-se. Quanto à menor: 
que haja receptividade no acto de conhecer, nega-se; a coisa 
conhecida, enquanto conhecida, o é pelo intelecto, não há 
dúvida, mas tal, não impede que preexista, enquanto não 
conhecida, ao conhecimento.
A polaridade é
acto de conhecer \u2014 et \u2014 a coisa conhecida
170 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
Alega-se: o último critério emotivo universal infalível de 
modo máximo é o que conseqüentemente provê a suma cer­
teza: ora, tal é apenas dado pela autoridade divina: portanto, 
só a autoridade divina é o último critério da verdade.
Responde-se: é o último na ordem da dignidade, conce­
de-se: na ordem da cognição, subdistingue-se: se é conhe­
cido, concede-se; se não é conhecido, nega-se. Dêste modo, 
concede-se a menor e distingue se igualmente a conseqüên­
cia.
A polaridade é 
na ordem da dignidade \u2014 et \u2014 na ordem da cognição
Mas o objector prossegue: o último critério só pode ser 
aquêle que nos libere de todo êrro, apenas a autoridade di­
vina consegue tal coisa; portanto...
Responde-se: que nos possa libertar de todo êrro de tô­
da ordem, concede-se; mas de alguma ordem, nega-se.
A polaridade é
de tôda espécie \u2014 et \u2014 de alguma espécie
Outro poderia alegar: o que de modo necessário deter­
mina o intelecto ao assentimento é o último critério da ver­
dade; ora, o instinto ou a idéia clara, necessariamente, de­
terminam o intelecto ao assentimento; portanto, nêles está o 
último critério.
Responde-se: o que necessariamente determina o intelec­
to proveniente necessariamente da própria realidade objec­
tiva da mente manifestada, concede-se; por necessidade me­
ramente subjectiva, nega-se.
A polaridade é
realidade objectiva \u2014 et \u2014 meramente subjectiva
MÉTODOS LOGICOS E DIALÉCTICOS 171
Mas, o objector poderia continuar: é critério necessário 
e suficiente o que é a ultima razão de tôda verdade e certe­
za: ora, Deus é a última razão da verdade e da certeza; 
logo...
Responde-se: que é a última razão ontológica de tôda ver­
dade e certeza, concede-se; que é a última razão lógica, que 
move o intelecto objectivamente com o assentimento do juí­
zo, subdistingue-se: nas verdades supranaturais, concede-se; 
nas naturais, nega-se.
As polaridades são
razão ontológica \u2014 et \u2014 razão lógica