Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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não é ente.
Responde-se: não na razão formal do ente enquanto 
ente, concede-se; enquanto é tal ente, nega-se.
A polaridade é
enquanto ente \u2014 et \u2014 enquanto tal ente
Alega-se: o que é causa da semelhança não pode ser 
causa da dissemelhança: ora, ser é causa da semelhança; 
logo, falta ser à diferença.
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Responde-se: sob o mesmo respeito sôbre o qual é causa 
da semelhança, concede-se; sob outro, nega-se. Contradis- 
tingue-se a menor: sob o mesmo respeito pelo qual é causa 
da dissemelhança, isto é, enquanto tal, nega-se; sob outro, 
enquanto ente comum, concede-se.
A polaridade é 
sob o mesmo respeito \u2014 et \u2014 sob outro respeito
Um silogismo fácil de, por uma distinção, mostrarmos 
seu êrro lógico, é o seguinte:
Todo delicado é infeliz; ora, o poeta é delicado; logo, êle 
é infeliz.
Formalmente, o silogismo está bem construído, mas a 
maior admite uma distinção, porque o têrmo médio delicado 
está aqui tomado num sentido, e na menor em outro. O 
delicado infeliz é aquele de saúde delicada, de nervos deli­
cados, no sentido do que padece de uma deficiência. No 
entanto, quando se atribui ao poeta a delicadeza, atribui-se 
em sentido de sensibilidade estética aguda, de subtileza sen­
sível, e esta delicadeza não é uma infelicidade. Conseqüen­
temente, a conclusão tem de ser distinguida, porque só será 
infeliz o poeta que fôr <leíicado na saúde, não no sentido de 
acuidada e subtileza sensitivo-estética.
Um silogismo empregado numa campanha política em 
defesa de um candidato conhecido pela sua actividade cor­
ruptora, foi o seguinte:
Virtuoso é aquêle que pratica o bem; ora, Fulano prati­
ca o bem; logo, êle é um homem virtuoso.
Uma simples distinção resolve: se pratica o bem habi­
tualmente, concede-se: se apenas esporadicamente, nega-se. 
Na verdade, o tal político encobria a sua actividade corrup­
tora e perniciosa, através de práticas de benemerência, doan­
do algumas quantias a hospitais, igrejas, etc., e distribuindo 
até entre os mais necessitados algumas migalhas do que lhes 
havia arrancado através de uma das mais corruptas e repug­
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nantes administrações que já surgiram no mundo. A virtu­
de é a prática habitual de um bem, na definição aristotélica.. 
Mas, essa habitualidade é imprescindível, pois, do contrário, 
teríamos de chamar de virtuosos todos os bandidos de todos 
os tempos, porque êles também praticaram alguns actos de 
benemerência em sua vida.
Outro silogismo usado por panteístas é o seguinte: O 
efeito é igual à sua causa (ou causas); ora, Deus é a causa do 
mundo; logo, Deus (como causa) é igual ao mundo; ou o 
mundo, como efeito, é igual a Deus (como causa).
O silogismo formalmente considerado é imperfeito, por­
que o têrmo médio em nenhuma das premissas está tomado 
universalmente. Conseqüentemente, causa poderia ser to­
mado em outro sentido. Poder-se-ia dizer que fisicamente 
o efeito pode ser igual à sua causa (ou às suas causas). É 
uma possibilidade. Mas, Deus, como causa, não é uma cau­
sa finita, mas infinita, de outra essência que uma causa fi­
nita. Como não há necessidade que o efeito físico seja igual 
às suas causas, também não é necessário que o mundo se­
ja igual à sua causa primeira, E ademais, quando se diz 
efeito diz-se dependência, e o ser dependente é o ser finito. 
Ora, Déus, aceito como causa primeira, não é um ser depen­
dente de outro, é infinito. Se seu efeito fôsse também infi­
nito seria êste apenas a própria causa, Deus. Portanto, den­
tro da Lógica e da Dialéctica é necessário que o mundo (como 
criatura) seja desigual em relação a Deus, e a tese panteísta 
é, pois, falsa. Poder-se-ia ainda examinar as acepções em 
que se poderiam tomar os têrmos Deus, causa, efeito, mundo, 
e levando-se a efeito uma análise dialéctico-concreta, pode­
ríamos alcançar inúmeros postulados apodíticos, que favore­
ceriam uma melhor compreensão da tese panteísta e reve­
lariam a sua fraqueza. Contudo, já seria matéria que corres­
ponde ao 3.° volume, mas serviria de tema para quem quises­
se realizar uma análise dialéctico-concreta.
Alegam alguns: Não pode haver desconformidade entre 
o intelecto e a coisa; do contrário, seguir-se-ia um conheci­
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mento falso; ora, tôda coisa é singular, logo, também, todo 
conceito é singular.
Responde-se: no conceito, na verdade, não pode haver 
desconformidade positiva, pela qual algo é acrescentado que 
não é, ou algo negado, que é. Mas, nega-se a desconformi­
dade negativa, consistente em o conceito não representar 
tudo quanto é no objecto, como a individuação. Em suma: 
se a desconformidade fôsse positiva, acrescentando-se à coi­
sa algo que não está na coisa, ou negando-se dela algo que 
ela é, o conhecimento seria falso, sem dúvida. Não, porém, 
pelo facto de o conceito não expressar tudo quanto está na 
coisa, como a sua individuação, que o conceito não expressai 
Pois é precisamente por não expressar essa individuação 
que há conceitos chamados universais.
Se não pede dar-se nem uma desconformidade negativa, 
a maior aceita-se; mas se se pode dar, nega-se.
A polaridade é
desconformidade positiva \u2014 et \u2014 desconformidade
negativa
Alegam: Define-se o universal (conceito) o real que está 
(inesse) em muitos; ora, nada do que é um pode estar (ines- 
se) em muitos por identidade; logo, tal universal não se dá.
Responde-se, distinguindo-se a maior: se se considera 
algo real que está (inesse) em muitos, como universal, nega- 
-se; se se considera o que é um por consideração da mente, 
que realmente é múltiplo, e que pode estar em muitos, se­
gundo a mesma razão, concede-se.
Alega um realista exagerado: O objecto das ciências é 
algo real; ora, o objecto das ciências é universal; logo, o 
universal é algo real.
Um realista moderado responde: o objecto das ciências 
é algo real, segundo o que se diz, concorda-se; segundo o 
modo pelo qual se diz, subdistingue-se: que êste é o objecto
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das ciências reais, nega-se; se das ciências lógicas ou de ra­
zão, concede-se. Contradistingue-se a menor: o objecto das 
ciências é o universal, concede-se; que o universal, enquanto 
universal, é o objecto de alguma ciência lógica ou de razão, 
concede-se; de tôda ciência também real, nega-se.
Aceito que o contínuo (matemático ou físico) é divisível 
in infinitum alguns alegam:
Se o contínuo é divisível in infinitum tem êle partes em 
número infinito; ora, a multidão infinita em acto repugna; 
logo, não é divisível in infinitum.
Responde-se pela distinção da maior: potência infinita 
ou indefinida, concede-se; em acto, nega-se. O contínuo é 
divisível in infinitum potencialmente, não actualmente.
A polaridade é
potencialmente \u2014 et \u2014 actualmente
Mas prossegue o objector: podem-se obter do contínuo 
infinitas partes em acto, já que o contínuo tem infinitas par­
tes em potência ou em possibilidade; ora, o possível pode ser 
reduzido em acto sem contradição; logo, sem contradição, 
podem ser obtidas infinitas partes em acto.
O fundamento do silogismo está na afirmativa: só é 
possível o que pode ser actualizado, ou o actualizável; só o 
impossível é inactualizável. Conseqüentemente, a argumen­
tação conclui pela possibilidade de actualizar as partes infi­
nitas de um contínuo.
Responde-se pela distinção da maior: possibilidade si­
multânea,. nega-se; sucessiva e inexaurível, concede-se. Con- 
tradistingue-se a menor: o que é possível simultâneamente 
ser actualizado, concede-se; o que só é possível, sucessiva­
mente e inexaurivelmente, nega-se.
A divisibilidade in infinitum só significa que o contínuo 
pode ser dividido sucessivamente e inexaurivelmente por 
partes proporcionais.
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A polaridade é 
possível simultâneo \u2014 et \u2014 possível