Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


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Ora, o grau de atractibilidade é proporcionado à dis­
tância. Logo, entre dois ou mais corpos em atracção, o grau 
desta, proporcionado directamente à massa, será proporcio­
nado inversamente à distância. Como essa proporção é du­
pla, como vimos, a conclusão final é que os corpos se atraem 
na proporção directa das suas massas e na proporção in­
versa do quadrado das distâncias.
m é t o d o s l o g i c o s e d i a l s c t i c o s 21
E como díalèctícamente se sabe que as coisas físicas 
reproduzem os números, não em sua perfeição formal, mas 
em sua participação imperfectiva, a relação numérica não 
será absoluta, mas relativa, assim como nenhum objecto 
triangular poderá realizar a perfeição da triangularidade 
em sua absolutuidade formal, mas, e apenas, em sua perfec- 
tibilidade participativa, que é sempre relativa, o que é tese 
bem fundada do platonismo. Dêsse modo, o enunciado aci­
ma está submetido à relatividade das participações e a re­
lação numérica não é absolutamente formal.
A Física moderna comprova, experimentalmente, o 
acêrto desta tese platônica.
Êste desenvolvimento lógico e dialéctico demonstra ca­
balmente quão criadoras são a Lógica e a Dialéctica, quando 
conduzidas cuidadosamente, podendo dar-nos com segurança 
o que é comprovado, depois, pela experiência, o que demons­
tra, por sua vez, que tais disciplinas não são arbitrariamen­
te impostas à natureza pela estructura da mente humana, 
como o pretendem os subjectivistas de tôda espécie, in­
cluindo entre êles Kant, mas que a. natureza do funcionar 
lógico e dialéctico, quando regular e normal, corresponde às 
leis da realidade. A Lógica, repetimos, é desvelada pela in­
teligência humana dos factos e não imposta a êsses. Con­
seqüentemente, não são disciplinas que se opõem à realidade 
extra-mental. Ao contrário, elas estão adequadas proporcio­
nadamente a esta.
NOTAS SÕBRE A LOGÍSTICA
No século XIX, alguns estudiosos da matemática e da 
lógica tentaram organizar um sistema de cálculo ideográfico 
que fôsse universal, ao qual se deu o nome de Logística, em 
cujos trabalhos se salientaram diversos autores inglêses e 
italianos, e entre êles Morgan, Boole, Peirce, Russell, Padoa, 
Maefalane, Peano, Whitehead e outros.
22 M ARIO F E R R E IR A DOS SAN TO S
É a Logística apenas o estudo das relações entre sinais 
ideográficos, com valôres lógicos definidos e suficientes, 
permitindo, assim, matematizar a Lógica. Para muitos de­
les, a Lógica nada mais é que uma matemática de conceitos, 
como a matemática é uma lógica de números. Realmente 
há muita semelhança entre a Lógica e a Matemática, pois 
-aquela é um gênero em relação a esta. A Matemática, no 
sentido em que é tomada modernamente, é uma lógica de 
números.
Mas a Logística tinha, como tem, uma finalidade: dis­
pensar as dificuldades que oferece a lógica clássica com as 
distinções, a argumentação, as suppositiones, realizando uma 
verdadeira álgebra do raciocínio. Alguns chegaram até ao 
exagêro de afirmar que tôda a actividade filosófica deve-se 
cingir apenas ao campo da Logística, como se seus propugna- 
dores tivessem acaso resolvido qualquer problema filosófico, 
\u25a0a não ser cair ou num agnosticismo deprimente ou num 
'cepticismo negro, ou, na melhor das hipóteses, num mero 
cientificismo retardado.
Ora, a Lógica não dispensa o pensar; ao contrário, es- 
timula-o, e torna-o criador, como temos visto até aqui. A 
Logística, quando muito, poderia criar uma cultura ciber­
nética, cérebros cibernéticos, uma erudição de fichário. A 
Lógica ensina a pensar, a actualizar juízos virtuais, que são 
inúmeros, por mais simples que seja o juízo; em concatenar 
conhecimentos dispersos, em evitar se tome confusamente o 
que é distinto, em não confundir os têrmos verbais com os 
conteúdos conceituais, em ampliar o campo das operações ló­
gicas, desde a primeira, no cuidado, na construcção do con­
ceito, na precisão do juízo e na pujança da argumentação, 
do raciocínio, pelo cuidadoso trabalho das inferências media- 
tas e imediatas, a disciplinação do método analítico, do sin­
tético e do concreto; em suma, em desenvolver a capacidade 
de contemplação (com suas três fases: a intuição, a medi­
tação e o discurso, o discorrer sôbre o tema sintèticamente), 
em desenvolver a capacidade intelectual, a acuidade mental
MÉTODOS LÓGICOS E DIA3USCTICOS 23
e, finalmente, em fortalecer e integrar plenamente o ser hu­
mano.
Na verdade, há uma longa distância a separar a Lógica 
da Logística. São disciplinas distintas, e é um êrro elemen­
tar julgar que a segunda possa substituir a primeira, ou 
mesmo que a supere.
Os que se dedicam apenas ao estudo dos logísticos e 
desconhecem os grandes e profundos trabalhos da Lógica 
clássica júlgam que tais autores resolveram todos os pro­
blemas lógicos e superaram os antigos. Tais afirmativas, e 
algumas bem arrogantes e audaciosas, revelam apenas igno­
rância sôbre o que já foi realizado. Ora, tal ignorância não 
é de admirar nestes últimos séculos, quando se abriu um 
abismo entre o que realizaram os medievalistas e a filosofia 
moderna.
Analisam os logísticos as diversas operações lógicas e 
chegam a afirmações das mais estranhas. Alguns, como sa­
lientaremos mais adiante, apresentam exemplos de raciocí­
nios que são, para êles, insolúveis dentro da lógica clássica, 
-quando qualquer estudante elementar dessa matéria poderia 
solucioná-los com a maior facilidade. Por outro lado, 
acusam de ilegítimos a quase totalidade dos modos do silo­
gismo, para afirmarem uns que apenas três são válidos (Bar­
bara, Darapti e Bramalip) enquanto outros, mais sóbrios 
ainda, afirmam que apenas um é válido (Barbara).
Muitos se escandalizam com o número dos modos do 
silogismo (como Padoa), desconhecendo que Aristóteles e os 
escolásticos mostravam que podiam ser reduzidos aos qua­
tro modos perfeitos da l / 1 figura, como vimos ao estudar 
o silogismo.
Desconhecem que tais modos não são fórmulas de cál­
culo lógico, mas tipos de operações racionais, que a mente 
humana realiza quando raciocina. Não pretendemos nesta 
obra fazer a análise da Logística, nem ressaltar os graves 
-erros que ela comete. Os autores modernos, que seguem a lí-
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ilha escolástica, já o realizaram com tal acuidade e precisão 
que seria desnecessário repetir aqui os trabalhos já feitos. 
Podemos, contudo, por ser mais accessível, apontar os exa­
mes realizados por Maritain, tanto em sua Lógica Menov 
como em sua Lógica Maior, onde se deteve sôbre tais temas 
com suficiente precisão. Ademais a Logística é apta para 
trabalhar com os juízos relativos (per accidens), mas coin 
os juízos per se, ainda a Lógica Formal é insubstituível. Aque­
la é aproveitável nas Ciências N a t u r a is , enquanto esta é mais 
apta para a Filosofia.
DA D I S T I N Ç Ã O
COMENTÁRIO DIALÉCTICO-CONCRETOS 
SÕBRE A DISTINÇÃO
A palavra coisa é em latim res, de onde nos vêm os têr- 
mos real, realidade, etc. Por sua vez, res vem do verbo reor, 
que significa pensar, medir, mentar. Res, dêste modo, signi­
fica tudo quanto é pensado, medido, mentado, ou seja, tudo 
quanto pode ser conteúdo significativo de um pensamento. 
Conseqüentemente, o têrmo res, em sua etimologia, revela 
significar tudo quanto tem um conteúdo positivo, porque 
não se pode dizer que nada, uma idéia simplesmente nega­
tiva, seja res, pois consiste, precisamente, em não ter con­
teúdo positivo, pois sua conceituação é a referente à recusa 
de alguma positividade. Neste caso, se considerarmos ainda 
o sentido etimológico, é real tudo quanto tem um conteúdo 
positivo; ou seja, tudo quanto do qual não se pode recusar 
uma positividade. Assim, teríamos, para manter o conceito 
em sua pureza significativa, de usá-lo para indicar tudo 
quanto tem um conteúdo positivo.
Como os têrmos empregados em nossa linguagem