Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.538 materiais609.492 seguidores
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muitas manei­
ras e algumas podem ser verdadeiras sob um ângulo e não 
sob outro. O máximo cuidado na análise dos juízos segun­
do essas regras habilita a pouco e pouco o estudioso de Ló­
gica e de Dialéctica às mais subtis distinções, e evita os erros 
que são freqüentes.
2) É de um silogismo que se trata? Então a análise 
formal deve preceder a análise material. Verifique-se, em 
primeiro lugar, o têrmo médio, e se é tomado sempre na 
mesma acepção, e se é, pelo menos, uma vez universal. Ve- 
rifíque-se o sujeito, e também o predicado, se estão tomados 
sempre na mesma acepção. Em suma: apliquem-se as re­
gras do silogismo ao exame formal. Materialmente, execute- 
-se o exame das acepções e das distinções possíveis.
3) A lista das polaridades por nós assinaladas podem 
ser copiadas e servirem de ponto de referência para a aná­
lise de um enunciado. Examine-se a possibilidade de apli­
cação de algum ou alguns ao silogismo; se cabem ou não 
as distinções possíveis. Observando-se estas normas é fá­
cil descobrir as distinções e verificar, fàcilmente, sua ade­
quação.
Lembremo-nos que a maestria dos escolásticos no uso 
das distinções foi alcançada através de muitos exercícios e 
sacrifícios.
É um êrro considerar as primeiras dificuldades como in­
superáveis. Também outro êrro consiste na impressão er­
rônea que se tem de nossa capacidade de subtileza, quando, 
nos primeiros contactos com as distinções, notamos que não 
havíamos percebido o que outros perceberam. Ninguém 
consegue alcançar um grau elevado de subtileza, senão habi­
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tualmente, e à custa de muito exercício para desenvolver a 
acuidade mental.
Só o continuado, persistente e devotado estudo às dis­
tinções nos pode dar o grau elevado de acuidade. Ao al­
cançarmos êste, verificamos que a Lógica e a Dialéctica não 
são apenas instrumentos para o bom uso da inteligência, um 
mero organon, mas também uma fonte criadora de idéias, 
pela descoberta constante de juízos virtuais, insuspeitados de 
início, e que terminam por dar uma clareza e uma profun­
didade aos nossos conhecimentos, que nem de leve podería­
mos prever no início.
Devem-se aproveitar tôdas as horas de lazer para le­
varmos avante tais exercícios, cujos frutos são os mais ele­
vados que poderíamos desejar.
Considere-se, ainda, que a prática escolástica das dis­
tinções não esgotou tôdas as possibilidades. Há ainda mui­
tas a continuar. A análise filosófica ainda não chegou ao 
têrmo, e se hoje estamos numa época em que se exige uma 
concreção dos elementos que a análise nos concedeu, deve 
ela servir como ponto de partida para novas e proveitosas 
análises. É o que pretendemos fazer e estamos certos de 
tê-lo feito em grande parte em nossa \u201cFilosofia Concreta".
Devotamo-nos, ademais, a provar aos incrédulos que a 
Lógica e Dialéctica, conduzida como preconizamos, são cria­
doras, e nos dão os mais seguros dados para, fundados nê- 
les, podermos empreender as mais ricas e productivas aná­
lises.
EXEMPLO DE DEFESA DE UMA TESE 
SÔBRE A DEDUCÇÃO
Damos a seguir um exemplo de defesa de tese, seguindo 
o método heurístico, que compendiamos de Salcedo.
A tese é: O raciocínio deductivo pode gerar uma certe­
za verdadeira e nova.
Trata-se de defender a tese acima exposta. Como vi­
mos, a primeira providência consiste no exame do nexo dos 
têrmos empregados no enunciado da tese.
Um juízo é singular quando é êle obtido pela experiên­
cia. É êle universal e necessário, quando, considerando-se 
apenas a experiência, esta não pode justificá-lo.
Raciocínio chama-se à operação da mente pela qual, 
instituída a comparação entre duas idéias com uma tercei­
ra, conhece-se, delas, a identidade ou a diversidade que há 
entre elas. Assim também definia Aristóteles: \u201cProcesso pe­
lo qual, postas duas premissas, delas se segue algo necessá­
rio, já contido naquelas.\u201d
O raciocínio chama-se deductivo se de premissas mais 
universais atinge-se a um conseqüente menos universal. Po- 
de-se, na verdade, no raciocínio deductivo, distinguir-se uma 
tríplice ordem de apreensão:
a) apreensão ou mediata ou imediata da identidade 
ou discrepância dessas idéias com a idéia significada pelo 
têrmo médio.
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b) Apreensão imediata da conseqüência; cuja idéia de­
ve ser imediata, sem necessidade de realizar-se um processo 
in infinitum,
c) Apreensão imediata do conseqüente na própria 
apreensão, e decorrente da mesma apreensão da conse­
qüência.
Segundo a fonte da qual se obtém o antecedente, divi­
de-se o raciocínio deductivo em:
1) Puro, quando cada premissa é analítica ou evidente 
de per si. Tal raciocínio não depende da experiência, a não 
ser quanto ã cognição dos têrmos.
2) Empírico, quando cada premissa é uma proposição 
apenas captada da experiência. Ora, como a nossa experiên­
cia só pode atingir os concretos singulares, tal deducção 
requer, pelo menor, uma premissa universal. Mas, tal racio­
cínio só pode dar-se por meio de um silogismo expositório, 
que é aquêle em que o têrmo médio é singular. Conseqüen­
temente, é uma inducção incompleta. Finalmente, pode ser:
3) Misto, quando uma premissa é experimental e outra 
verdadeiramente analítica, ou seja, independente da expe­
riência.
Passamos agora ao status quaestionis. Quanto à deduc­
ção, longa é a controvérsia que se observa na Filosofia. Ar­
gumentam os opositores: a conclusão de certo modo deve es­
tar contida nas premissas; ou a conclusão é conhecida 
quando conhecemos as premissas, ou não é conhecida; no 
primeiro caso, nada de novo se conhece por tal processo; 
no segundo caso, já que alguma coisa se afirma nas premis­
sas, como poder-se-ia dar na conclusão algum caso parti­
cular da mesma coisa não afirmado nas premissas? Ou a 
deducção cria um novo conhecimento, mas puramente pro­
vável, ou cria um conhecimento certo, não novo.
Como então pode ser uma genuína fonte da verdade e 
da certeza?
í
A primeira posição não nega absolutamente que a de- 
ducção e todo silogismo sejam úteis ou legítimos; concede 
ainda que são aptos ao conhecimento já adquirido; nega, po­
rém, que tal processo seja apto para estender nosso conhe­
cimento, a não ser de modo ilegítimo, cabendo apenas à in- 
ducção êsse papel.
Defendem essa posição os antigos cépticos, fundados 
nas dificuldades de Platão no Ménon. As mesmas dificul­
dades foram repetidas, depois, por Sexto Empírico e ainda 
por Stuart Mill, como veremos.
Bacon de Verulam afirmou, ademais, em sua \u201cInstau 
ratio Magna\u201d, a nulidade do silogismo e seu desvalor para 
a ciência, embora útil na vida quotidiana. Também escre­
veram contra o silogismo Descartes, Petrus Ramus, Lutero, 
Comte, Stuart Mill, Spencer e todos os positivistas e empi- 
ristas, que negam o raciocínio deductivo. E tudo isso decor­
re da maneira falsa que têm tais autores de considerar as 
idéias universais. Conhecer universalmente, em tais auto­
res, é conhecer todo indivíduo em particular, não segundo a 
compreensão, mas segundo a extensão. Ademais, negam a 
diferença radical entre o intelecto e os sentidos. Da mesma 
posição é Kant e seus seguidores, Schleíermacher Beneke, etc.
Os existencialistas também negam todo valor ao racio­
cínio deductivo, e até na Igreja, nos tradicionalistas, encon­
tramos adversários.
Em oposição a essas sentenças, temos a que afirma que 
o raciocínio é apto, por sua natureza, a criar novo e certo 
conhecimento. Não nos casos em que a conclusão está cla­
ramente contida (compreensivamente) nas premissas, como 
o homem é animal, logo é substância; mas há muitos casos 
em que a conclusão só virtualmente está contida nas premis­
sas. O efeito está contido virtualmente na causa. Assim, 
quando conhecemos a causa, não conhecemos por isso o efei­
to; e só o podemos através de uma nova operação; ou, seja, 
podemos ter uma