Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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nova* e verdadeira cognição.
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Passa agora a provar a tese. Apresentava Stuart MilI, 
em defesa de sua posição, o seguinte argumento em seu \u201cA 
system of Logic. . .
\u201cTodo homem é mortal; ora, o duque de Wellington é 
homem; logo, é mortal. Ao proferir a maior, ou sei a ver­
dade da conclusão ou não sei. Se sei, é inútil o processo; se 
não sei, é ilegítimo propor-se a maior com aquela generali­
dade; portanto, o processo não vale para novo e certo co­
nhecimento,\u201d
A tal argumento facilmente se responde: a objecção tem 
fôrça na ordem da extensão, se a generalização fôsse apenas 
uma mera totalização de todos os casos particulares. Nes­
te caso, não se poderia afirmar com plena generalidade que 
todos os homens são mortais, e, conseqüentemente, não se 
poderia saber se o duque de Wellington é mortal; mas, na 
ordem da compreensão, perde tal argumento tôda a fôrça, 
porqúe a maior não é uma mera soma das experiências, mas 
é a exposição de algo que pertence à natureza específica.
Nas Ciências, verifica-se o emprêgo constante do racio­
cínio deductivo com capacidade criadora de novos e verda­
deiros conhecimentos. É o que se verifica nas Matemáticas, 
na Psicologia, na Cosmologia, e em geral na Filosofia, in­
cluindo a Teodicéia.
Para que o raciocínio deductivo seja a fonte de novas e 
certas cognições, impõem-se três coisas: um meio de co­
nhecer a verdade nova; um meio conexo com a verdade ne­
cessária, e que essa conexão necessária do meio com a ver­
dade revele-se claramente à mente. Ora, se tais coisas (tô­
das) se dão no raciocínio deductivo, tal raciocínio é fonte 
certa e nova de cognição.
Provemos essas premissas:
A) Adquire-se nova cognição; pelo raciocínio puro: 1) 
Verdades imediatamente evidentes subordinam outras ver­
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dades; ora, isso gera nova notícia, de dependência de ordem 
das verdades entre si.
2) Capta relações entre essas verdades, que por si sós 
e imediatamente, ou só pela análise ou comparação das 
idéias não são para nós evidentes, como as conclusões da 
Metafísica pura.
B) Raciocínio empírico \u2014 neste raciocínio, só quando 
se aplica aos princípios sintéticos, conhecidos pela inducção, 
ou aos indivíduos, ou às espécies, e assim, conhecida a na­
tureza de algum objecto, deduz-se suas qualidades, proprie­
dades, etc., quando essas não foram captadas através da 
cognição experimental.
C) Raciocínio misto \u2014 1) Cognições experimentais, su­
bordinadas aos princípios analíticos. 2) Capta nos objectos 
da experiência suas relações, as quais não podem ser cap­
tadas apenas pela experiência, enquanto se aplica ao objec­
to suas relações, que são conhecidas entre as idéias, como, 
por exemplo, as conclusões da matemática aplicada. Da ex­
periência, captam-se as leis universais, quer físicas, quer mo­
rais; ou, seja, dos efeitos deduz-se a existência da causa.
O raciocínio é um meio conexo com a verdade; ou, seja, 
das premissas verdadeiras segue-se a verdade. Esta parte 
não é mister demonstrar. Demonstrar é obra de algum ra­
ciocínio, pois já é suposta a infalibilidade do raciocínio, o 
que daria lugar a uma petitio principii. Entretanto, não exi­
ge demonstração, mas apenas uma declaração; da natureza 
do raciocínio revela-se, evidentemente, que só se pode de­
duzir a verdade de premissas verdadeiras.
A necessária conexão do meio com a verdade pode ser 
conhecida de modo certo. 1) Se as premissas são verdadei­
ras, pode-se, na verdade, conhecer as verdades delas decor­
rentes, ou que nelas estão inclusas. Mas, se as premissas 
não são imediatamente, mas mediatamente evidentes, a ver­
dade delas mostra-se por resoluções às primeiras verdades
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evidentes, nas quais aquelas estão, ou nelas têm sua sis- 
tência.
2) Se o raciocínio é legítimo; ou, seja, recto, pode-se 
certamente conhecer apenas pela atenção da mente à forma, 
do raciocínio, presente nêles o princípio fundamental, o prin­
cípio de identidade e de discrepância com uma terceira po­
sição.
Vejamos agora as objecções e as respostas que elas me­
recem.
O argumento clássico é o fundado na passagem do Mé- 
non de Platão, que se pode resumir do seguinte modo: Quem 
pelo raciocínio inquire alguma coisa, ou sabe o que inquire 
ou não sabe; ora, se sabe, é inútil inquirir, se não sabe, frus­
trada está a sua inquirição, porque, neste caso, ignorava o 
<Jue pergunta; logo, o raciocínio não é fonte de conheci­
mento.
Terçaram êste argumento os cépticos gregos, e também 
os cépticos modernos. Mas, todo êrro está na disjunção, 
que é imperfeita, pois há uma terceira possibilidade e não 
apenas duas. E essa terceira é: ou sei virtualmente (virtua- 
liter) não, porém, formalmente (formaliter).
Contudo, um objector poderia ainda apresentar o se­
guinte argumento: mas a conclusão, antes do raciocínio, é 
conhecida formalmente, pois é conhecida formalmente a con­
clusão antes do raciocínio, por quem é interrogado sôbre 
tudo, e responde sem hesitação; cra, tanto a criança como 
um ignorante, interrogado por uma série convenientemente 
ordenada de coisas, que nunca se desdigam, respondem sem 
hesitação e rectamente; logo, a conclusão é conhecida for­
malmente antes do raciocínio.
Sim, é verdade, quanto às ilações imediatas, não quanto 
às mediatas, pois nestas nem sempre se vê a verdade con­
tida em seus têrmos.
Outra objecção é a seguinte: O fim deve ser conhecido 
antes dos meios; ora, a conclusão tem razão de fim, o racio­
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cínio o de meio; iogo, a conclusão deve ser conhecida antes 
do raciocínio.
Que o fim deve ser conhecido antes do meio, quando 
suficiente para escolher os mesmos meios, concede o defen­
sor da tese. Que deva ser conhecido perfeitamente, nega.
Veja-se êste argumento de Stuart Mill: Ao proferires 
a maior, ou conheces a conclusão ou não conheces; ora, se 
se dá a primeira situação, o processo é inútil; se se dá a se­
gunda, o processo é ilegítimo.
O argumento de Stuart Mill, como também o de Kant, 
peca pela disjunção falsa. Há uma terceira possibilidade: 
ou sei virtualmente; não, porém, formalmente.
Mas objectam: Contudo deve ser conhecido formalmen­
te. Pois saber que o homem é mortal, é saber que Pedro, 
João e o Duque de Wellington são mortais; portanto, deve 
saber formalmente, antes da conclusão, que o duque de 
Wellington é mortal. Nestas condições, todo o processo de­
ductivo é inútil.
A premissa maior desta objecção é tôda ela fundada na 
doutrina nomínalista, a qual é fundamentalmente falsa.
Mas prossegue o objector: Ambas premissas, tomadas 
simultaneamente, contêm formalmente a conclusão; logo, 
antes da conclusão conheço já a mesma formalmente.
Responde o defendente da tese: Contêm e as manifes­
tam, quando em sua mútua relação são conhecidas, conce­
de; antes, nega; contradistingue a menor: devem antes ser 
conhecidas em sua relação mútua, nega; que separadamente 
devem antes ser conhecidas, concede.
O objector prossegue: para que a deducção dê conclusão 
certa, deve-se demonstrar tôdas as regras dialécticas; ora, 
não podem ser demonstradas senão pela mesma deducção; 
logo, sem petitio principií não se pode certamente constatar 
a verdade da conclusão.
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Responde-se: Para que a deducção dê conclusão certa, 
devem ser conhecidas as regras da deducção de algum mo­
do pela lógica natural e por evidência quase imediata como 
certa, concede; que sejam tôdas demonstradas por estricta 
demonstração, subdistingue: que para o valor da demons­
tração não sejam antes conhecidas, nega; que para certos 
casos subtis, em que não se tenha certeza científica, mas 
apenas natural, ou mesmo formal, concede.
Compendiamos assim em têrmos gerais a defesa da tese 
feita