Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


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por Salcedo, seguindo o método heurístico, tão usado 
pelos escolásticos.
COMENTÁRIOS
É de notar que os maiores adversários da deducção se­
jam, por sua vez, os maiores defensores da inducção, sem 
contudo terem apresentado em favor desta os melhores ar­
gumentos que foram, na verdade, oferecidos por aqueles, 
que defendem também a posição que mais atacam.
Todo o êrro dos que acusam a inducção está precisa­
mente na disjunção falsa, que tantos filósofos modernos de 
notoriedade e fama, usaram em seus argumentos. Há juí­
zos virtuais, que estão potencialmente, portanto, inclusos em 
todo juízo analítico. Ora, a captação de tais juízos exige 
uma mente bem ordenada e segura, e não é fácil captá-los. 
Sem dúvida, tudo quanto o homem pode pensar já está, de 
certo modo, na ordem das coisas naturais ou sobrenaturais, 
por captar sua presença ou por captá-la deficientemente. 
Todos os juízos virtuais da geometria já estavam contidos, 
como possibilidades eidético-noéticas para o homem nas pró­
prias figuras geométricas que a sensibilidade poderia cap­
tar e o intelecto poderia abstrair, e dêles deduzir as leis. O 
homem não cria o saber, mas o desvela. Há uma grande 
ciência que nos antecede. Chamavam-na os pitagóricos de 
grau superior de Mathesis Suprema. O homem, êsse pere­
grino do saber, êsse viandante, por sua sêde de conhecimen­
to, descobre, desvela a verdade. Não criamos o saber, mas 
o descobrimos. A verdade já está dada de todo sempre. A 
Filosofia é apenas êsse árduo e dinâmico trabalho do homem 
em busca do saber, que é a Mathesis Suprema. Por isso 
Pitágoras chamava a si mesmo de filósofo, amante do saber. 
A Filosofia é essa longa caminhada, essa longa descoberta,
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sujeita a todos os azares e aventuras, que oferece o caminho 
do conhecimento.
A deducção é apenas uma operação, pela qual extraímos 
os juízos virtuais particulares, contidos em juízos mais ge­
rais. Nós, de nossa parte, em \u201cFilosofia Concreta\u201d, como 
nesta obra, demonstramos como se pode usar um método 
que é ora inductivo, ora deductivo, ora dialéctico, com tôdas 
as fases e tôdas as providências que se podem tomar; em 
suma, um método concreto, que busca os juízos virtuais 
particulares que podemos extrair dos gerais, como também 
a busca dos juízos gerais que podemos extrair dos particula­
res, quando os comparamos com têrmos médios, que nos po­
dem abrir novas veredas. Na análise que fizemos do têrmo 
Direito, em \u201cFilosofia Concreta\u201d, mostramos como era possí­
vel, apenas empregando de início a via analítica no exame do 
têrmo, enveredar, depois, por alterações da via analítica e da 
sintética, alcançar a construção de tôda uma filosofia do 
direito, fundada em bases apodíticas, pois o nexo de neces­
sidade é muitas vêzes captável por nós.
Nossa posição consiste na busca constante da filosofia 
positiva (não positivista), no bom sentido que lhe davam 
os antigos. Não somos partidários de modas filosóficas, 
porque a Filosofia, para nós, como a matemática, dispensa 
tais modas sujeitas ao historicismo dos esquemas, que leva 
o homem a formular apenas juízos assertórios, que revelam 
apenas pontos de vista, e não a conquista sólida científica, 
no bom sentido do têrmo, que almejamos para o são filoso­
far. É verdade que essa posição aparece aos espíritos sobre­
maneira estéticos, como uma restricção à capacidade cria­
dora. Mas, enganam-se. A restricção será apenas da capa­
cidade estética, não da verdadeiramente criadora, que é a do 
saber mais elevado, que a Filosofia positiva oferece e ofere­
cerá através dos séculos para o homem.
A TEORIA DO JUÍZO DE TOMÃS DE AQUINO
Pela primeira apreensão, o espírito habet similitudinem 
rei intellectae, capta (tem alguma similitude intelectualmen­
te da coisa). Ora, tôda cognição se faz por alguma seme­
lhança que há na coisa com os esquemas acomodados, ou 
seja pela assimilação. A máxima omnis cognitio fit per ali- 
quam similitudinem, que tôda cognição se realiza por algu­
ma similitude, é também uma comprovação da psicologia mo­
derna. Quando Empédocles afirmava que só o semelhante 
pode conhecer o semelhante, tomava a semelhança num sen­
tido muito restricto, concluindo que só a água poderia co­
nhecer a água, só a terra poderia conhecer a terra, só o ar 
conhecer o ar, só o fogo conhecer o fogo. No entanto, o 
esquema acomodado nos explicaria a tese da similitude, sem 
cair nas dificuldades que decorram da concepção de Empé- 
docles, que levou a muitos afirmar que o nous teria de ser 
necessariamente material para poder conhecer a matéria e 
suas manifestações. Sem dúvida que Empédocles era pita- 
górico, e conta a lenda que foi discípulo de um filho de Pi- 
tágoras. Ora, o pitagorísmo afirmava a espiritualidade do 
nous e também a similitude como fundamental em tôda cog­
nição. Parecia haver uma contradição fundamental. Con­
tudo, a concepção dos esquemas noétícos evitaria essa con­
tradição como se vê. Posteriormente, Aristóteles afirmou 
que a alma de certo modo era tudo (animam esí quo dam 
modo omnia, dos escolásticos) era a afirmativa de que dis­
põe ela de uma esquemática capaz de acomodar-se de tal 
modo a tomar assimilável tudo; ou seja, uma esquemática 
capaz de captar a inteligibilidade de tôdas as coisas, propor-
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cionadamente aos esquemas acomodados. Dêste modo, a 
teoria esquematológica, que seguimos, explica não só a possi­
bilidade cognoscitiva de tudo quanto é, como também a pro­
porcionalidade do conhecimento, relativo, portanto, à esque- 
mática, prèviamente disposta ao conhecimento.
A tese empirista fundamental da concepção de Tomás de 
Aquino é horum autem cogniti in nobis ex sensu oritur (tôda 
cognição em nós tem sua origem nos sentidos); conseqüen­
temente scientia nostra a sensu oritur (a nossa ciência tem 
sua origem nos sentidos) (Q. D. de Ver. p. 10 a .6 \u201csed con­
tra\u201d 2), o que é também tese da esquematologia moderna. 
Temos aqui a simplex aprehensio (a apreensão simples) so­
bre a qual se realiza, posteriormente, (a segunda operação 
do nous) um retorno, um reditus ou reflexio, que revela a 
natureza activa do nous (natura actus ou natura principii 
activi), da qual resulta um assentimento (assensus), que é o 
julgado, o juízo.
Êsse roteiro é, porém, lógico e não psicológico. Porque, 
psicologicamente, o juízo é dado como um todo. A operação 
judicativa do nous (em suas modalidades lógicas) realiza-se 
a posteriori, como veremos, e aliás temos demonstrado em 
nossas obras de Noologia, pois, na verdade, o juízo é um 
intelligibili in sensibilis, é um inteligível que já está no sen­
sível, que captamos por uma operação imediata, mas que é 
construído, depois, em seu enunciado lógico. Assim, o-li- 
-vro-que-está-sôbre-a-mesa é um todo que apreendemos numa 
operação simples, na prima operatio mentis, na primeira ope­
ração do nous, na simplex aprehensio, uma possibilidade 
que o nous actualiza e enuncia logicamente, atribuindo ao 
sujeito (já um conceito lógico) livro, o predicado (outro con­
ceito lógico) está sôbre a mesa. Contudo, antes da cons- 
trucção dos conceitos não é possível a construcção do juízo 
lógico, pois o acto judicativo consiste na operação de atri­
buir ou não o predicado ao sujeito. Mas, o juízo virtual es­
tá dado em tôdas as coisas, aguardando a assimilação judi­
cativa, sôbre a qual falaremos oportunamente.
MÉTODOS LÕGICOS E DIALÊCTICOS
Na operação judicativa, o nous non solum habet simili- 
tudinem rei (não só tem a similitude da coisa), sed etiam su­
pra ipsam similitudinem reflectitur, cognoscendo et dijudi- 
cando ipsam, (mas também sôbre essa mesma similitude re­
flete, conhece e a julga). Importante ressaltar no juízo a 
reflexão, a cognição e o julgamento. Não é apenas ter a 
similitudinem rei, mas saber que a tem, saber que a conhece. 
E êsse conhecimento é adquirido