Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II
233 pág.

Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume II


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.538 materiais609.492 seguidores
Pré-visualização50 páginas
personalidades 
medíocres exaltadas como sumidades, apontadas como supe- 
radoras do que de maior realizaram os grandes mestres do 
passado.
É um grave êrro dos modernos considerar como abstrac- 
to o pensamento tomado isoladamente. Na verdade, o pen­
samento abstracto pode ser concreto, como já o demonstra­
mos, desde que se considerem os logoi analogantes, que har­
monizam e dão concreção aos pensamentos. E êsse êrro 
advêm das confusões sôbre os nossos pensamentos, as nos­
sas idéias, que nos foram legadas desde Descartes, através 
dos racionalistas e idealistas, até nossos dias, que tomaram, 
estanquemente, os conceitos, como se observou, também, no 
período de decadência da filosofia grega.
34 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
Não nos é possível pensar sem pensamentos, e, conse­
qüentemente, sem conceitos abstractos. Não haveria nenhum 
saber culto sem êles, e a racionalidade humana caracteriza- 
-se pela capacidade de pensar abstraeta e concretamente. 
Como conseqüência, era de exigir o máximo nos conteúdos 
eidéticos dos conceitos. Ora, tal trabalho de precisão foi 
realizado pelos escolásticos, através de séculos, criando uma 
terminologia segura, que os modernos desbarataram, per­
mitindo penetrar no campo da filosofia os estetas, que só 
vieram para perturbar um terreno onde se exige pondera­
ção e segurança, e onde o opinativo, o meramente assertó- 
rico, é uma demonstração de insuficiência e de fraqueza.
Se os escolásticos, no campo filosófico, oferecem solu­
ções a problemas numerosos, que nos havia legado a filoso­
fia grega, deixaram para nós, contudo, uma boa soma dê- 
les. Que outro papel saudável nos poderia caber senão 
realizar o trabalho de solução das aporias que nos haviam 
legado? Que outro empreendimento mais elevado caberia 
à filosofia moderna senão o de resolver as dificuldades que 
ainda restavam? Mas, em vez disso, desconhecendo a obra 
já realizada, desprezada agora por mediocridades famosas, 
em vez de se contribuir para diminuir aporias, semearam-se 
inúmeras outras, e velhos erros ressuscitaram de modo sur­
preendente, para abalar as mentes desprevenidas e surgirem 
como novidades acabrunhantes, quando não passavam de 
velhas excrescências do pensamento humano.
Depois da análise prévia que empreendemos dos con­
ceitos de real, coisa, natureza física, entidade, positividade, 
negatividade, podemos estabelecer algumas anotações impor­
tantes.
Filosoficamente, o conceito de físico indica tudo quan­
to é real actual ou potencialmente. No sentido restricto, que 
os modernos lhe dão, significa apenas o experimentável. 
Não era de admirar que caísse no sentido restrictíssimo de 
corpóreo, referindo-se, assim, a tudo quanto pertence à ex­
periência externa, em oposição, portanto, a todo psíquico.
m é t o d o s l o g i c o s e d i a l é c t i c o s 35
Ora, filosoficamente, o psíquico é ainda físico, porque é na­
tural, nasce. Contudo, quando pensamos, pensamos pensa­
mentos; ou seja, todo pensar é intencionalmente dirigido a 
algo pensável. Ora, o pensado funda-se em pensamentos 
arquetípicos, primordiais e imprincipiados, que estão con­
fusamente no conteúdo eidético dos pensamentos comuns, 
que o entendimento humano, em estágios mais elevados, 
realiza a actividade selectiva de distingui-los, que é a abs- 
tracção em seu sentido eminente. Assim, quando o cientis­
ta, do exame das causas e dos efeitos, extrai as leis, que 
regem os factos, realiza uma abstracção no elevado sentido, 
extraindo, noèticamente, os conteúdos eidéticos das normas 
que presidem aos factos e os analogam numa normal da 
totalidade.
Desta forma, só podemos, segundo a nossa análise, em­
pregar o têrmo físico no sentido amplo de tudo quanto tem 
realidade principiada. É verdade que os escolásticos usa­
vam no sentido apenas genérico de ter realidade e, portan­
to, podiam falar na essência física de Deus. Nós, porém, 
temos usado o têrmo no sentido escolástico muitas vêzes, 
mas preferiríamos empregá-lo num sentido mais rigoroso: 
físico é tudo quanto é real e principiado. Neste caso, o ter 
realidade seria seu gênero próximo, e sua diferença espe­
cífica o de ser principiado. Então, os entes reais seriam 
divididos em reais imprincipiados e reais principiados. O 
Ser Supremo, como realidade imprincipiada, seria, logica­
mente, distinto do ser físico. Neste caso, não se poderia fa­
lar numa natureza nem numa essência física de Deus. O 
que se entende por natureza ou por essência física de Deus 
seria a sua realidade, e esta é a sua omnipotência, pois é 
esta a essência física de Deus para os escolásticos. Para 
nós, seria, então, a essência de sua realidade apenas, e a 
infinitude, que para muitos escolásticos é a essência meta­
física de Deus, seria, para nós, a essência de Deus, conside­
rada formalmente, porque o Ser Supremo é realmente 
omnipotente e formalmente é o ser infinitamente absoluto.
36 MARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
Os escolásticos tomam ainda o têrmo natureza no sen­
tido de modo de ser de cada ente, tal como lhe corresponde 
por sua origem. Embora muitos não façam uma distinção 
nítida entre natureza e essência, deve-se, contudo, anotar 
que natureza empresta à essência um momento dinâmico; 
ou seja, quando se fala em natureza de um ser, fala-se do 
princípio do desenvolvimento do ser, enquanto fundamento 
interno de seu operar e \u201cpadecer\u201d. Neste sentido, qualquer 
ente tem uma natureza, inclusive Deus, desde que se lhe ex­
clua qualquer imperfeição ou deficiência.
No exame de um pensamento, que fale sôbre a natureza 
ou essência de uma coisa, é mister, desde logo, distinguir 
os sentidos que tais têrmos podem assinalar, pois evitam-se, 
assim, muitas confusões.
Neste caso, ao falar-se da essência física do Ser Supre­
mo, é mister distinguir claramente a conceituação possível.
OS GRAUS METAFÍSICOS
é Imprescindível, para a boa aplicação das distinções, 
estudar o que se chama de graus metafísicos. São êles os 
predicados essenciais superiores e inferiores, que de algo 
são predicados. Assim, de João, predicamos homem, ani­
mal, animado, corpo, substância, ente físico (gêneros supe­
riores e inferiores), bem como suas diferenças: composto, 
vivente, sensitivo, racional. Ora, tais predicados indicam 
graus, pois uns são mais universais que outros, ou mais es­
pecíficos que outros, e por êles ascendemos ou descemos. 
Chamam-se, por isso, graus metafísicos, porque transcendem 
êles a realidade meramente física.
A distinção indica uma pluralidade. A distinção é o 
resultado de uma comparação. E como tôda comparação 
é uma relação, na distinção há uma relação. Em tôda re­
lação há, pelo menos, dois têrmos relacionantes e o funda­
mento da relação. Só é real uma relação se são reais os 
têrmos relacionantes, e a relação será da espécie que fôr 
a realidade dos têrmos, o que dará o fundamento real à mes­
ma. De uma relação entre entidades físicas, a relação será 
física e, conseqüentemente, o será segundo a esfera de rea­
lidade dos têrmos. Ora, há distinção entre têrmos em que 
um não é o outro, em que um não se identifica com o outro. 
Se os têrmos são reais físicos, o que os distingue será real 
físico, se são meramente formais, a distinção, entre êles, se­
rá formal, e assim correspondentemente a cada esfera da 
realidade: biológica, fisiológica, psicológica, ética, jurídica, 
etc.
38 M ARIO F E R R E IR A DOS SANTOS
Quando a distinção entre um e outro se dá apenas no 
intelecto, diz-se que é uma distinção de razão, como a do 
juízo João é João, em que João, como sujeito e predicado, é 
distinto por distinção de razão. Diz-se que é real, quando 
se dá nas coisas da natureza. Ora, no sentido que tomamos 
o têrmo real, ambas são reais, mas o segundo tem uma du­
pla realidade, é real-real, e será real-física se os têrmos dis- 
tinguidos são físicos.
Vimos, também, que a distinção de razão