Busa Mackenzie Michellazzo - Da Busca e Apreensao na Alienacao Fiduciaria

Busa Mackenzie Michellazzo - Da Busca e Apreensao na Alienacao Fiduciaria


DisciplinaDireito Processual Civil I45.899 materiais808.902 seguidores
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e apreensão de táxi financiado pela Caixa Econômica Federal. Concomitância de ações de consignação em pagamento e de busca e apreensão, correndo em Juízo. 
II - Permanência do bem em poder do financiado como meio de prover seu sustento e de sua família, assim como de possibilitar recursos para cumprimento das obrigações assumidas no financiamento. 
III - Recurso não conhecido. 
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Srs. 
Ministros da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, não conhecer do recurso especial. Participaram
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do julgamento os Srs. Ministros Menezes Direito, Costa Leite, Nilson Naves e Eduardo Ribeiro. 
Custas, como de lei. 
Brasília, 3 de fevereiro de 1998 (data do julgamento). 
Ministro COSTA LEITE, Presidente - Ministro WALDEMAR ZVEITER, Relator. 
RELATÓRIO
O EXMO. SR. MINISTRO WALDEMAR ZVEITER: -
Cuida-se de Ação de Busca e Apreensão de veículo, alienado fiduciariamente a Decreto-lei n. 911/69, art. 3º. 
Aforada a Ação, requereu liminarmente a Autora, Caixa Econômica Federal, a apreensão do bem automotor (táxi). 
Concedida a liminar, agrava de instrumento o Réu e, cassada essa liminar, deu-se provimento ao Agravo, em decisão, assim ementada (fls. 42):
\u201cAGRAVO DE INSTRUMENTO. TÁXI. MORA DO
DEVEDOR. DEFERIMENTO DE LIMINAR DE BUSCA E
APREENSÃO. PRINCÍPIOS DO CONTRADITÓRIO E
DA AMPLA DEFESA. CUNHO SATISFATIVO DA
LIMINAR. 
I - Não é de bom alvitre determinar a busca e apreensão de bem alienado fiduciariamente, ainda quando em mora o devedor, sem que o mesmo tenha tido a oportunidade de apresentar sua defesa, o que constitui violação ao princípio do devido processo legal, agasalhado na Constituição Federal de 1988. 
II - Correlação de ações de consignação em pagamento e de busca e apreensão havidas no mesmo Juízo singular. 
III - A concessão da liminar de busca e apreensão do veículo alienado, possui caráter satisfativo, expressamente proi-bido pelo art. 1º, § 3º da Lei n. 8.437/92, e pode acarretar a privação do financiado, do único meio de subsistência seu e de sua família.IV - Agravo provido\u201d. 
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Irresignada, apresenta a Caixa Econômica Federal, Especial (art. 105, III, \u201ca\u201d e \u201cc\u201d), onde aponta que o \u201cdecisum\u201d teria ferido o art. 3º do Decreto-lei n. 911/69 e dissentido da exegese que alguns precedentes colacionados versam sobre o tema - fls. 
45. 
Na instância de origem (fls. 57), deferiu-se o processamento do apelo pela dissidência interpretativa, posto que comprovados os requisitos de sua admissibilidade. 
É o relatório. 
VOTO
EMENTA: - AGRAVO DE INSTRUMENTO. TÁXI. 
MORA DO DEVEDOR. BUSCA E APREENSÃO. 
CONSIGNATÓRIA EM PAGAMENTO. PERMANÊNCIA
DO BEM COM O DEVEDOR. 
I - Busca e apreensão de táxi financiado pela Caixa Econômica Federal. Concomitância de ações de consignação em pagamento e de busca e apreensão, correndo em Juízo. 
II - Permanência do bem em poder do financiado como meio de prover seu sustento e de sua família, assim como de possibilitar recursos para cumprimento das obrigações assumidas no financiamento. 
III - Recurso não conhecido. 
O EXMO. SR. MINISTRO WALDEMAR ZVEITER
(Relator): - As judiciosas razões do eminente Relator foram assim deduzidas (fls. 38/39):
\u201cPenso haver motivos para se prover o presente agravo, não obstante as louváveis considerações arroladas pelo ilustre Magistrado singular em seu despacho. Portanto, merece reforma a douta decisão impugnada pelos fundamentos aqui esposados. 
Verifico que não foi dada oportunidade ao agravante, na ação de busca e apreensão, de apresentar sua defesa, o que constitui flagrante violação ao devido processo legal consagrado em nossa Constituição Federal de 1988. 
Não me parece de bom proceder determinar, ainda que
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em mora o devedor, a busca e apreensão do bem alienado fiduciariamente, sem que ao mesmo seja oferecida a chance de contestar os fatos alegados pela requerente (CEF). 
Em existindo, na espécie, duas ações correlatas, a consignatória em pagamento, ajuizada pelo agravante, e a de busca e apreensão, interposta pela agravada, salutar à decisão final que se tenha cautela para que se permita que o bem em juízo, no caso o veículo táxi, permaneça na situação originária e prestando os serviços a ela destinados pelo contrato a que se vincula. 
Observa-se que em sua ação autônoma (a de busca e apreensão) a CEF pretendeu, através do deferimento da liminar, a satisfação do débito. 
Assim, com a busca e apreensão do bem alienado, esgo-tar-se-ia o objeto daquela demanda antes mesmo do seu início, privando-se o agravante de um bem que pode constituir o único meio de sobrevivência seu e de sua família, inclusive para buscar recursos necessários ao financiamento de sua defesa e mesmo os meios para saldar suas obrigações. 
Explicitando mais claramente: o indeferimento da liminar de busca e apreensão do bem, pouco ou nenhum prejuízo acar-retaria à agravada - CEF, que, em sendo vitoriosa na demanda, teria a restituição do bem alienado fiduciariamente. 
O mesmo não se pode dizer do agravante caso tenha o seu veículo apreendido. O prejuízo que tal ato lhe será, sem dúvida, muito mais danoso, pois antes mesmo de ser declarado vencedor ou vencido após o julgamento da ação que contra si foi proposta, terá sofrido, antecipadamente, a sua punição. 
O Egrégio Plenário desta Corte Regional já se pronunciou, em decisão unânime, sobre o tema qui versado, conforme ementa que registro:
\u201cAGRAVO REGIMENTAL. LIMINAR QUE DETER-
MINA EFEITO SUSPENSIVO A AGRAVO DE INSTRU-
MENTO. 
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I - Busca e apreensão de táxi financiado pela Caixa Econômica Federal. Concomitância de ações de consignação em pagamento e de busca e apreensão correndo em Juízo. 
II - Permanência da coisa (táxi) em poder do financiado, não só por ser o único meio de manutenção de si mesmo e de sua família, além de sua exploração facilitar a aquisição de meios para cumprimento das obrigações assumidas. 
III - Situação provisória até decisão final das demandas. 
IV - Agravo Regimental improvido\u201d (AgRg no MS n. 
47.868/PE, Rel. Juiz JOSÉ DELGADO). 
O apelo merece reexame pela divergência pretoriana. 
Sem razão, porém, a Caixa Econômica recorrente. 
A tese jurídica acolhida pelo aresto recorrido, da lavra do eminente Min. JOSÉ DELGADO, quando pontificava naquele Colegiado Regional (TRF - PE), é escorreita e encontra ressonância também em julgados da Terceira Turma, como o AGA n. 
124.618/PR, de minha relatoria, assim ementado:
\u201cAGRAVO DE INSTRUMENTO. AGRAVO REGI-
MENTAL. ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA. BUSCA E APRE-
ENSÃO. PERMANÊNCIA DOS BENS COM O DEVE-
DOR. MATÉRIA DE PROVA. 
I - Maquinário indispensável à atividade da empresa devedora, apreendido em ação de busca e apreensão, pode permanecer na posse da Ré. Tal desiderato não ofende dispositivos do Decreto-lei n. 911/69. 
II - Tal fundamento requer reavaliação de fatos soberana-mente analisados pelas instâncias ordinárias, o que é defeso ante a Súmula n. 7/STJ\u201d. 
Tenho que a questão como posta pelo acórdão e a solução que aponta para o conflito de interesses, não afronta a lei. Ao contrário, harmoniza-se com o que nela disposto sem causar gravame às partes. Litigando-se em ações concorrentes, cujo mérito e o valor devido e a pagar, outra, penso, não
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haveria mesmo de ser a solução. 
Fortes nesses lineamentos, não conheço do recurso. 
EXTRATO