Busa Mackenzie Michellazzo - Da Busca e Apreensao na Alienacao Fiduciaria

Busa Mackenzie Michellazzo - Da Busca e Apreensao na Alienacao Fiduciaria


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não entregou a coisa ao adquirente. Quem a entregou foi o vendedor. Em conseqüência, o depositante seria o vendedor em face do comprador, se depósito houvesse, mas não houve. O que ocorreu, sim, foi um contrato de compra e venda entre, p. ex., uma indústria de equipamentos e um comerciante adquirente desse equipamento, com interveniência de terceiro, o financiador. O financiador recebe do comprador a propriedade fiduciária do bem. E a posse deste desdobra-se
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em posse direta do comprador; e indireta do financiador. 
Não vejo depósito aí. Vejo, sim, Min. Néri da Silveira, a utilização maliciosa e injurídica de uma palavra, para o fim exato de criar um caso falso de \u201cdepósito\u201d e assim legitimar, contra a Constituição, prisão por dívida neste País. Porque depósito da coisa não houve pelo financiador, em mãos do comprador, que não é depositário, mas possuidor. Se houvesse, estaria de acordo. 
A Constituição comanda: é proibida a prisão por dívida, salvo o caso de depósito e dívida de alimentos. É mero resíduo da antiga e odiosa prisão por dívida, o que a Constituição admite. Mas a Constituição não define o que seja depósito, apenas a ele se refere. O legislador comum deve obediência ao conceito civil de depósito, o qual não se confunde com o de posse. 
Para mim, quando a lei autoriza a prisão no caso de aliena-
ção fiduciária, trata-se de um devaneio malicioso do legislador. 
O legislador, porém, nada pode contra a Constituição. De modo nenhum há a possibilidade, no caso, de inserir a prisão do devedor no abrigo forçado do depositário, pois ele não o é. Se o legislador chamar \u201cenfiteuse\u201d à hipoteca, nem por isto vou acompanhá-lo. Neste caso, o legislador nem sequer errou. 
Usou maliciosamente da palavra \u201cdepósito\u201d em hipótese na qual depósito não existe, para poder contrabandear a prisão por dívida e instituí-la no sistema legal brasileiro, numa regressão odiosa a um passado já morto - o da legitimidade da prisão por dívida. 
O credor não vendeu nada. Sendo assim, não é depositário da coisa, é meramente credor de dinheiro. Quem está mandando prender é o credor. Então, vejo aí prisão por dívida. 
Uma empresa industrial vende máquinas a comerciante; e este contrata alienação fiduciária com o financiador da compra, mas retém consigo a posse direta dessas máquinas. Está de
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posse delas, não é depositário. E está de posse porque exerce atributos manifestos do domínio, o uso e a fruição. Depositário apenas detém a coisa, não a usa nem a frui. 
O Min. Cunha Peixoto (pres.): Mas passou a ser proprietário. 
O Min. Clóvis Ramalhete (relator): Nesta intervenção apenas pretendi dar inteireza, clareza, a meu entendimento. 
Respeito o pensamento da corrente em sentido contrário. Mas consigno que, tal como a Constituição e o Direito na atualidade por toda a parte, odeio a prisão por dívida. É o voto. 
(Pediu vista o Min. Soares Muñoz.)
VOTO (Vista)
- O Min. Soares Muñoz: Sr. Presidente, três são os fundamentos do pedido de \u201chabeas corpus\u201d: 1º) o paciente, na qualidade de simples avalista, não pode ser preso como depositário infiel; 2º) trata-se de simples operação de financiamento, tipicamente bancária, e não de alienação fiduciária, pois inexiste o objeto da garantia, cuja posse jamais foi confiada ao paciente; 3º) a alienação fiduciária não é a mesma coisa que contrato de depósito, não pode autorizar a prisão e, por isso, é manifesta-mente inconstitucional o art. 4º do Dec.-lei 911, de 1.10.69. 
Entretanto, o paciente não foi preso na condição de avalista, e sim na de sócio-gerente da firma devedora e depositária. O acórdão da 8ª Câmara do 1º Tribunal Civil de São Paulo que negou provimento ao agravo de instrumento é expresso a respeito, \u201cverbis\u201d:
Na verdade, é o agravante sócio de uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada, denominada \u201cPreciso Co-mércio de Automóveis Ltda. 
Segundo os estatutos dessa entidade, a sua administração e gerência cabem a todos os sócios, aos quais compete usar o nome da firma, conjunta ou separadamente, e representá-la em juízo nas suas relações com terceiros (fls.). 
Ora, essa sociedade adquiriu da agravada, mediante con-
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trato com alienação fiduciária, os bens descritos a fls., e, tornando-se inadimplente, deixou de devolver os bens alienados fiduciariamente, ou o seu equivalente em dinheiro, e, por isso, foi decretada a prisão do seu representante legal, no caso o recorrente, uma vez que essa ordem de prisão não podia ser determinada contra a pessoa jurídica. 
Aliás, a esse respeito, já ficou decidido pelo Excelso Pretório que o contrato de depósito tanto pode ser lavrado entre pessoas físicas como entre pessoas jurídicas. Nessa última hipótese, gerente e diretores, como órgãos ou representantes legais da pessoa jurídica, se colocam na posição de depositári-os. Contra estes, pois, pode ser decretada medida coercitiva destinada à obtenção do bem objeto de alienação fiduciária, porquanto, como lembra Pontes de Miranda, referindo-se à prisão do depositário, \u201ctrata-se de efeito de pretensão civil, e não criminal\u201d (RTJ 77/798). 
O segundo fundamento questiona matéria de fato, relacio-nada com a posse dos objetos adquiridos mediante alienação fiduciária. Do contrato de fls. consta a relação dos bens alienados e, bem assim, que, \u201ccomo garantia de pagamento do financiamento ora concedido, da liquidação integral das prestações referidas na cláusula 1 e do cumprimento de todas as obrigações no presente assumidas, o financiado transfere à UNIBANCO, a título de alienação fiduciária em garantia, na forma prevista no art. 66, e seus §§, da Lei 4.728/65, Dec.-lei 911, de 1.10.69, e de acordo com a legislação em vigor, o domínio do bem móvel individualizado e descrito no quadro V
(descrição do bem alienado fiduciariamente), razão pela qual continuará a possuí-lo mas em nome do UNIBANCO, na qualidade e com a responsabilidade civil e criminal de fiel depositário, sob as seguintes obrigações: manter o bem em perfeitas condições de uso e funcionamento, de modo que o mesmo não sofra desvalorização anormal, não podendo vendê-
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lo ou onerá-lo sob nenhum título ou pretexto, antes de cumpridas todas as obrigações no presente estipuladas; proceder, às suas expensas, à substituição do bem, no caso de destruição ou perda total, por outro de igual valor e espécie; comunicar imediatamente à UNIBANCO quaisquer ocorrências relativas ao bem, assegurando-se, ainda, à UNIBANCO o direito de examiná-lo e vistoriá-lo a todo e qualquer tempo; proteger o bem ora alienado contra quaisquer turbações de terceiros; reservando à UNIBANCO iguais direitos para si, hipóteses, estas, em que todas as despesas que se fizerem necessárias correrão por inteira e exclusiva conta do financiado; não ceder ou transferir os direitos e obrigações decorrentes deste contrato sem expressa anuência da UNIBANCO; não transferir seu domicílio sem prévia comunicação por escrito à UNIBANCO\u201d(fls.)
Em hipótese semelhante, no HC 56.882, esta 1ª Turma, em acórdão por mim relatado, decidiu: \u201cPrisão civil - Ação de depósito - Alienação fiduciária - Cabimento da prisão, nos termos dos arts. 902, § 1º, e 904, e parágrafo único, do CPC, c/c o art. 4º do Dec.-lei 911/69 (redação dada pela Lei 6.071/
74)\u201d. 
Quanto à alegada inconstitucionalidade da equiparação do devedor alienante ao depositário, para o efeito de prisão civil, tal como lembra o parecer da Procuradoria-Geral da República, o STF, em sessão plenária, decidiu: \u201cNão ofende a Constituição (art. 153, § 17) a decretação da prisão civil do devedor, alienante fiduciário, porque a própria lei o constitui depositário (art. 66 da Lei 4.728/65, com a redação do Dec.-