Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
252 pág.

Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.573 materiais611.007 seguidores
Pré-visualização50 páginas
sujeito. Assim, na divisão aristotélica, a matéria é a 
substância primeira (ousia prote, substantia prima), e a 
forma, a substância segunda (ousia deutera, substantia se­
cunda). A primeira é individualizante, a segunda é univer- 
salizante.
À substância convém pois ser por si ou subsistir, e 
subestar aos accidentes. Ser por si significa independência 
no ser (in essendo), embora não absoluta. Significa, pois, 
independência do sujeito da inesao e independência do co- 
principio intrínseco substancial. A substância, que é sujei­
to, chama-se na Lógica, substância predicamental.
A substância transcendental pode ser finita ( criada í ou 
infinita (incriada), e segundo a razão da completaçáo, pode 
ser completa ou incompleta. A completa pode ser simples 
ou composta, simples como homem; composta, como liló- 
s ü Ío . A substância incompleta ora o è em razão da espécie
58 MARIO FERREIRA DOS SANTOS
apenas (como a alma humana), ou em razão da espécie e 
da substaneialidade, como a matéria prima e a forma subs­
tancial recebida na matéria.
Accidentalmente, a substância predicamental divide-se 
em razão do modo de ser (universalidade e singularidade), 
e substância primeira e segunda. A substância primeira é 
o indivíduo, e a segunda é substância universal.
Em sua essência, divide-se em composta (composta de 
partes essenciais), e simples (não composta de partes essen­
ciais).
Propriedades da substância. Anota Aristóteles as se- 
seguintes propriedade:
1) não está num subjectum, não inere em outro. Esta 
propriedade convém tanto à substância primeira como à se­
gunda. A substância primeira é o subjectum lógico da se­
gunda, e esta se predica da primeira, que não é suleito 
físico ou inesão.
2) Significar ou ser um algo qualquer, quer dizer algo 
por si subsistente e substantivamente expresso, diferente 
dos accidentes, que apenas significam adjectivamente.
3) Não ser sujeito a mais e menos; quer dizer que a 
essência substancial não pode tomar-se mais intensa ou me­
nos intensa, como por exemplo o calor. Contudo, uma subs­
tância pode ser mais nobre do que outra.
4) Não ter contrários. Dizem-se contrários aquêles 
que, no mesmo sujeito, se repelem, como a substância não 
está no sujeito não pode expelir alguma coisa do sujeito. 
A razão das qualidades contrárias não impede que as subs­
tâncias lutem entre si.
5) Ser susceptível de contrários. Como a substância 
é sujeita de inesão dos accidentes, pode permitir accidentes 
contrários.
6) A substância segunda pode ser predicada univoca- 
mente da primeira, porque aquela está contida nesta.
MSTODOS LOGICOS E DIALffiCTICOS 59
ACCIDENTE PREDICAMENTAL
O accidente predicamental define-se como aquêle cuja 
qüididade consiste em ser não em si, mas em outro, que é 
sujeito de ínesão.
O que caracteriza, portanto, o accidente é ser inerente 
em outro ou seja inesse (em outro). No inesse temos: atri­
bui-se formalmente algum ser secundário, que supõe um ser 
primeiro consubstanciai, e dependência em ser de um su­
jeito.
Da quantidade predicamental se define a ordem das 
partes no todo. Sendo que o têrmo ordem significa posi­
ção das partes extra partes, o que quer dizer, que a quan­
tidade é o accidente atribuído ao sujeito por ter partes extra 
partes quanto a si. A ordem é o fundamento da relação, na 
qual consiste a essência da qualidade, e não é relação da 
ordem. Desta maneira, a ordem fundamental é o funda­
mento da relação, segundo prioridade e posterioridade. A 
quantidade, portanto, contém multidão de partes, e desta 
multidão, ordem, segundo a posição em que as partes são 
colocadas extra partes, segundo prioridade e posterioridade. 
A quantidade transcendental é aquela que abstrai esta or­
dem, e é apenas a multidão dos entes tomados conjuntamen­
te como número transcendental, ou, então, é tomado indivi- 
samente, como a plenitude de uma potência, quando se diz 
quantidade de virtude. A quantidade predicamental é tam­
bém a extensão chamada quantidade dimensível, que é acci­
dente das coisas materiais, e é medida da matéria.
A quantidade predicamental se divide em contínua e dis­
creta. É contínua, quando suas partes continuam entre si, 
e descontínua, ao contrário.
A quantidade contínua chama-se linha quando tem uma 
única dimensão; superfície, quando tem duas; corpo, quando 
tem três. Chamam-se unidades predicamentais as últimas
60 MARIO FERREIRA DOS SANTOS
partes de um número de uma quantidade. O número pre- 
dicamental é o que decorre da quantidade discreta, que sur­
ge da divisão da quantidade contínua, que é multidão de 
partes entre si discretas, em que cada uma é uma quanti­
dade contínua, extensa. O número predicamental é a ver­
dadeira e própria espécie da quantidade, porque ela mesma 
ordena as partes discretas, as unidades, extra partes.. .Dês­
te modo, não é êle apenas a eolecção de muitos, mas a sua 
ordem quantitativa, ordem segundo prioridade e posterio- 
ridade. Da unidade resulta o número; ou seja, a ordem 
da posição discreta, que é o novo accidente realmente dis­
tinto da substância tomada singularmente, como também da 
sua quantidade continua. O número á um per se, unidade 
da ordem, que é um accidente. O número é, portanto, uma 
ordem de posição das partes discretas, e ordena muitos sô­
bre uma ordem. Não se pode dizer que é um o que não tem 
um sujeito. Tomado nas coisas da natureza, o número, con­
siderado meramente numérico, é um. O número diversifi­
ca segundo a diversidade essencial.
O número é terminado e determinado pela última uni­
dade. A linha, a superfície e o corpo matemático são ver­
dadeiras espécies da quantidade.
O lugar, o movimento e o tempo não são espécies da 
quantidade, mas são quanta, por accidente. Assim, o lugar 
é a superfície ambiente, que contém o locado, o que não sig­
nifica especial razão de extensão, mas sim algo que é fora 
do conceito de quantidade, e que nêle acontece. O um, to­
mado em si, não é número, porque o número implica mul­
tidão. O um transcendental nada de real acrescenta ao en­
te, mas significa o próprio ser enquanto é concebido como 
num indiviso, enquanto que o um predicamental acrescenta 
algo ao ente, pois não significa apenas o ente, mas o ente 
como um quantum.
Propriedades das quantidades \u2014 Assim, na Física são 
conhecidas as propriedades como a extensão local, a impe-
MÉTODOS LOGICOS E DIALÊCTICOS 61
netrabilidade, a mensurabilidade, a divisibilidade. Como 
propriedades lógicas, temos: 1) não ter contrários, de con­
trariedade propriamente dita. A razão é simples: os con­
trários, que estão no mesmo sujeito, repelem-se mütuamen- 
te. Mas, a quantidade não repele a quantidade. Pois uma 
quantidade não produz outra quantidade, mas a quantida­
de retirada é extraída da quantidade. Grande e pequeno, 
muito e pouco são opostos não contrários, apenas relativa­
mente, pois se diz que uma coisa é grande em relação a uma 
menor, e se diz que é menor em relação à maior. Assim 
duzentos é grande em relação a três, e é pequeno em rela­
ção a dois mil.
2) Não estar sujeita a mais e menos. Um número 
pode ser maior que outro; contudo, não é mais número (en­
quanto número).
3) A quantidade funda-se na relação de igualdade e 
desigualdade, porque torna o sujeito mensurável, e o que 
convém nalguma medida é chamado igual, e o que não con­
vém, desigual.
DA Qü í LIDADE PREDICAMENTAL
A qualidade é tomada: 1) como diferença essencial, que 
é chamada a qualidade do gênero; 2) como um accidente 
qualquer; 3) estrictamente como algo especial de algum 
accidente, que responde à pergunta qualis?, endereçada à 
substância, e que convém absolutamente à substância distin- 
guida e determinada esta. Separa-se da quantidade, que 
também convém absolutamente à substância, que, contudo, 
não a distingue-nem a determina.
São Tomás define como o accidente modificativo ou 
determinativo