Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
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O resultado dessa 
determinação, provocada pelo agir-sofrer proporcional dos 
opostos (reciprocidade), realiza a estabilização de uma pro­
porcionalidade intrínseca que perdura (a forma), que é reve- 
ladora da adequação dos opostos analogados a um logos ana- 
logante, que lhe dá a normal do proceder do ontos (ente) rea­
lizado (harmonia). O homem, por exemplo, surge da opo­
sição entre a sua animalidade e a sua espiritualidade, que
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cooperam na formação de relações intrínsecas, segundo uma 
lei de proporcionalidade decorrente da reciprocidade estabe­
lecida entre tais opostos, a qual revela sempre uma harmo­
nia, que é estabelecida pela analogia dos contrários (pois a 
espiritualidade é analogada à animalidade do homem), e obe­
diente a uma normal, que se manifesta pelo interesse da to­
talidade dêste homem, sua conservação, etc.
Ora, a oposição não exige separabilidade absoluta, mas 
apenas distinção funcional. Não podemos aqui avançar 
mais, porque a exigência de outras análises impõe outros 
exames para que se possa estabelecer uma análise dialéctico- 
-concreta da hominilidade, que não é tarefa difícil, depois de 
havermos precisado todos os elementos imprescindíveis pa­
ra a crítica dialéctica.
A substância primeira, o de que a coisa é, aponta à in­
dividualidade do ontos, enquanto o pelo qual (formal) é 
aponta a substância universal. Ambas constituem o modo 
de ser da coisa (modi essendi), que são a universalidade e a 
singularidade. O de que (quod) indica a singularidade, e o 
pelo qual (quo) a universalidade. Mas, note-se que, dialèc- 
ticamente, o de que tem um pelo qual, pois a animalidade do 
homem é a animalidade do homem, e não qualquer anima­
lidade. A substancialidade primeira do homem já tem uma 
lorma. A carne do homem é carne humana. A substancia­
lidade segunda, que é arístotèlicamente a sua forma, tem 
também um de que, porque a forma do homem é a forma 
humana.
Se examinamos emergentemente um outro têrmo, pode­
mos caracterizar êsses aspectos. Tomemos, por exemplo, 
trabalho. A primeira pergunta dialéctico-concreta nos in­
terroga: de que é feito o trabalho? A resposta é: do esforço 
físico ou mental (erg ). Pelo qual o trabalho é trabalho e 
não qualquer esforço? Pela presença da racionalidade hu­
mana, que dá uma direcção, uma finalidade. Neste sentido, 
os animais não trabalham; mas só um ser inteligente, racio­
nal, trabalha. Nem qualquer esforço humano seria traba­
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lho, como não o é o andar, o comer. Mas, no esporte, há um 
esforço, e há uma direcção inteligente. É trabalho, portan­
to? Se considerarmos apenas como enunciamos acima, se­
rá trabalho, mas se dermos ao trabalho mais uma determi­
nação, como seja a de produzir bens material ou espirituais, 
teremos o trabalho (humano) econômico. Estaremos, já, 
numa espécie de trabalho. Ora, a dialéctica concreta não 
se satisfaz com as classificações meramente fundadas em as­
serções lógicas. Todo o seu empenho se dirige à busca do 
significado ontológico, porque só aí alcançaria a apoditici- 
dade. Precisamos, pois, para alcançar a apoditicidade, che­
gar a um enunciado do trabalho, do qual se possa dizer: ne­
cessariamente, trabalho é P, e nada mais que P. Teremos, 
assim, que alcançar a uma predicação necessária. E essa 
predicação é o conteúdo ontológico do conceito trabalho. É 
necessário ao trabalho esforço (erg)? Sim. É necessária 
uma presença racional? De certo modo, sim. É necessá­
ria uma direcção determinada, ou não? Não, salvo quando 
queremos determinar as espécies de trabalho. Portanto, po­
de-se dizer: Trabalho humano é necessàriamente todo o es­
forço dirigido e criado pela inteligência, tendente a um fim 
determinado (a determinação do fim classificá-lo-á como 
esportivo, econômico, social, etc.).
Se considerarmos apenas o esforço que tende para algo, 
teremos o seu sentido genérico, o qual incluirá o esforço fí­
sico inorgânico, o qual se realiza, por exemplo, numa combi­
nação ou numa operação físico-química. Teremos alcança­
do o conceito universal de trabalho, o eidos do trabalho. Ne­
cessariamente trabalho é eidèticamente todo esforço que 
tende para algo. Nesse enunciado ontológico eidético, temos 
a universalidade, e o trabalho humano seria apenas uma 
espécie de trabalho, a humana.
Então, em sentido genérico, há trabalho entre os ani­
mais, o qual se realiza à semelhança do trabalho do homem, 
mas apenas quanto à sua universalidade, não quanto à sua 
especificidade. Se falamos no campo antropológico, temos
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que tomar trabalho em seu sentido específico; se falamos 
no campo da ciência natural, temos de tomá-lo em seu sen­
tido genérico.
A não-precisão de tais aspectos pode gerar diversas fa­
lácias (sofismas), quando intencionalmente realizadas.
Tudo quanto é material é quantitativo, porque decorre 
do que está contido na materialidade determinada. O con­
ceito de quantidade implica haver partes fora de outras par­
tes numa substância, tomada em si mesma. Só há quanti­
dade, onde uma substância pode ser considerada em sua 
componência, e, enquanto nesta, como contendo partes fora 
de outras. Esta é a quantidade predicamental, e implica 
multidão. Transcendentalmente, pode a quantidade ser 
considerada como abstraída dessa ordem, como o número 
para a matemática comum, que é a quantidade transcen­
dental.
DA RELAÇÃO
O conceito de relação implica a ordem de algo para algo 
(unius ad aliud). Mas êsse é um conceito lato. Há rela­
ção, quando há um relatum, um referir-se de um a outro, 
um ad aliquid, um para algo. Na relação, temos a própria 
relação, o sujeito ao qual se refere, o têrmo ao qual se re- 
fere o sujeito, e o fundamento no qual resulta a relação.
Entre João triste e Pedro triste, há uma relação de se­
melhança, pois triste é o têrmo, e a tristeza é o fundamento. 
O tema da relação pertence à Ontologia, mas na dialéctica 
concreta, é de importância, sobretudo no que se refere à pre­
dicação, porque esta é a relação que se forma entre o su­
jeito e o predicado.
No exame da relação entre sujeito e predicado, segundo 
a dialéctica concreta, não nos afastamos das contribuições 
da Lógica Formal, embora não possamos seguir o seu ro­
teiro, mas, sim, colocando, sempre que possível, o que é po­
sitivo, e que permanece válido.
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A dissociação da proposição em seus três elementos fun­
damentais é uma realização da análise. Na verdade, a pro­
posição é uma totalidade, uma tensão, com sua estructura 
coerente e coesa, na qual estão, coactamente colocados, os 
elementos que poderão posteriormente ser distinguidos pela 
análise, como sejam sujeito, predicado e modo de predicar.
Na verdade, psicologicamente considerados, a proposi­
ção, ou o juízo, são estabelecidos em primeiro lugar, e da­
dos como totalidade. Assim, quando alguém tem fome, essa 
apreensão psicológica é dada como uma totalidade, que, lo­
gicamente, é expressada pela proposição: Tenho fome. A 
proposição, psicologicamente, é um todo, que é desdobrado 
em conceitos na exposição lógica.
Quando temos uma idéia, um sentimento, e o expres­
samos verbalmente, fazemo-lo por proposições lógicas, como 
poderíamos, e podemos fazer, por gestos significativos. Dês- 
se modo, é inseparável da proposição psicológica a sua sig­
nificação; ou, seja, o que pretende dizer, o conteúdo psico­
lógico da mesma.
É por meio de conceitos, que verbalmente o ser humano 
expressa suas idéias, seus desejos, suas emoções diversas, 
suas opiniões. E elas podem ter, como têrmos significati­
vos, gestos, sinais e vozes, que são as palavras faladas.
Com a linguagem falada, abre-se fatalmente o caminho 
da lógica. Noo-genèticamente, a formação dos ante-concei- 
tos e dos conceitos, que examinamos em \u201cNoologia Geral\u201d, 
e o fazemos com mais abundância