Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
252 pág.

Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.599 materiais612.005 seguidores
Pré-visualização50 páginas
humana afunda-se 
nas brumas da confusão que invade todos os sectores. Nun­
ca se pensou de modo tão heterogêneo e tão vário, nunca as 
idéias mais opostas estiveram tão vivas em face umas de 
outras, e também nunca opiniões tão descabeladas conse­
guiram impor-se a vastos círculos intelectuais, como se ve­
rifica em nossos dias.
Na verdade, se observarmos com cuidado ás causas de 
íactos que tanto entristecem os que desejam uma humani­
dade mais sã, temos que debitar tal estado de coisas à fraca 
maneira de pensar do homem moderno, que facilmente se 
enieia nas teias de aranha de abstrusas ou de falsas idéias, 
e acaba por perder o norte, e desviar-se por caminhos que, 
cada vez mais o afastam do que desejaria alcançar. Ésse 
estado de crise intelectual, que delineamos em \u201cFilosofia da 
Crise\u201d, é a causa, sem dúvida, do desespêro que domina 
muitas consciências.
O surgimento desta obra tem, entre muitos, o intuito de 
contribuir, dentro das nossas fôrças, para sanear o pensa­
mento e os modos de pensar, a fim de permitir que cada 
um possa guiar a si mesmo na busca do que há de mais 
elevado, e que tanto lhe oprime o coração e desafia a inte­
ligência.
Esta obra, que é simultâneamente de Lógica e de Dialéc­
tica, de Lógica porque examina o que há de positivo na ve-
14 MA UH) KKUItfêlllA. DOS SANTOS
Ihu lógica clássica, e de Dialéctica, porque traz as mais só- 
Iidus contribuições que o raciocinar de nossos dias cons­
truiu, tem a finalidade, também, de permitir a construcção 
de um raciocinar concreto, mas fundado na solidez do que 
de maior a humanidade já conquistou. Tratamos, nela, dos 
conceitos, dos juízos, do raciocinar discursivo, das oposi- 
ções, tão importantes na Lógica, das relações que se formam 
entre os métodos lógico-formais e os dialécticos-ontológicos, 
sempre com o intuito de fornecer ao leitor os meios já con­
densados, seleccionados para um uso mais fácil, dentro, na­
turalmente, dos limites que o raciocinar humano permite.
Demoramo-nos, sobretudo, no estudo das distinções, que 
tanto celebrizaram os escolásticos, e o fizemos por razões 
ponderáveis.
É sem dúvida o uso das distinções uma das grandes con­
quistas da lógica escolástica e pertence ao cabedal das gran­
des realizações filosóficas do ocidente. Não há a menor 
duvida de que o emprêgo das distinções exige uma acuidade 
capaz das mais profundas e raras subtilezas. A verdade é 
que todo saber, como tôda ciência, c um hábito que se ad­
quire, e o exercício continuado permite que a acuidade seja 
constantemente despertada e desenvolvida, favorecendo a 
capacidade de distinção. Aqueles que são dotados de men­
te filosófica têm naturalmente maior facilidade para ver dis­
tintamente onde outros vêem confusão. Contudo, essa ca­
pacidade, que parece inata, pode ser alcançada também atra­
vés do esforço pessoal.
A pouca familiaridade do homem moderno, pretenciosa- 
mente culto, com a escolástica, é a causa, sem dúvida algu­
ma, do pensar aer tão deficiente, e de alguns se julgarem 
outros colombos, quando, na verdade, são apenas descobri­
dores de velhas formas, já valorizadas pela ancianidade.
As chamadas contribuições modernas à Lógica não têm 
o valor exagerado que lhes emprestam seus autores. E en­
contramos maior segurança, maior âmbito e maior firmeza
m é t o d o s l ó g ic o s e d ia l é c t ic o s 15
no emprêgo do velho modo de pensar, que em muitos mé­
todos modernos, que não podem sequer prescindir dêles. 
Contudo, não queremos negar certa contribuição moderna. 
Inegavelmente, a Dialéctica, como é entendida hoje, tem ofe­
recido meios para evitar o raciocinar abstractista, e permi­
tir um mais sólido raciocinar concreto. Mas, tais contri­
buições vêm envolvidas com muitos erros, com muitas fal­
sas proposições, e métodos deficitários e insuficientes, que 
foram superados, com antecedência, por métodos que o 
tempo guarda em seu passado, e que a ignorância de muitos 
não permite dêles tomar conhecimento, nem sequer saber 
usá-los.
Êste livro surgiu com a finalidade de oferecer ao estu­
dioso moderno o que havia de mais sólido e aproveitável 
para o recto pensar. Sabemos que o homem de hoje, ante 
o frenético de sua vida, não dispõe do tempo de que dispu­
nham os antigos para dedicar-se a um estudo mais demora­
do dos métodos de raciocinar, de reflectir. Esta a razão por 
que julgamos que seria de bom alvitre reunir, numa obra 
manuseável, o máximo das regras úteis, procurando, sempre 
que possível, a demonstração imediata, a fim de favorecer 
a realização de um desejo que anima vivamente a todos.
Por outro lado, não é de admirar a ignorância que exi­
bem muitos sôbre as grandes contribuições do passado. 
Basta que se examine a França, que é um país tido como 
imensamente culto, e por alguns até como o mais culto do 
mundo. Pois bem, aí, cêrca de 90% dos professôres das es­
colas superiores são ateus declarados. Como tais, afastam- 
-se sistematicamente do estudo da obra dos medievalistas, 
com um gesto despectivo e de suma auto-suficiência. A 
maior parte, ante a impossibilidade de conseguir qualquer 
fundamento para as suas afirmações, falhos de um exame 
mais sólido do que constitui o campo do saber, tornam-se 
agnósticos, ou cépticos, e insuflam na juventude um cepti- 
cismo que já está dando seus frutos. Essa juventude sem 
firmeza em suas idéias é prêsa fácil de qualquer barbarismo
16 MARIO FERREIRA DOS SANTOS
cultural (perdoem a aparente contradição), e sem fé, nem 
confiança em si mesma, entrega-se ao imediatismo mais 
torpe e, o que é mais deplorável, toma-se inapta a realizar 
obras superiores. Não é, pois, de admirar que mais de du­
zentos anos de pregação céptica e agnóstica tenham de al­
cançar o estado a que assistimos: um deserto que cresce ca­
da vez mais, dentro dos homens e à sua volta, uma ausência 
quase completa das obras de valor que enobreceram o pas­
sado. Nunca houve tantas universidades, tantas escolas; 
nunca se publicaram tantos livros, também nunca uma li­
teratura foi tão frágil, tão sem expressão como a de nossos 
dias. Desapareceram do cenário da filosofia os gigantes que 
ponteavam os caminhos do passado. Alguns, deficitários, 
atiçam-se numa luta sem quartel contra a Filosofia, negan- 
do lhe valor, porque não lhes dá ela o conhecimento da 
verdade integral, expressão que anda em tantos lábios. An­
tes de falarem na verdade integral, deviam êles perguntar a 
si mesmos que entendem por verdade. E o mais espantoso, 
em tudo isso, é que se tal pergunta lhes é feita, logo respon­
dem que não sabem o que é, e alguns, para revelar maior 
talento, aproveitam a passagem do Novo Testamento, quan­
do Pilatos perguntou a Cristo o que era verdade. Cristo não 
respondeu, nem poderia responder. A pergunta de Pilatos 
denunciava-o. Quem faz tal pergunta, revela, desde logo, 
ignorância. A melhor resposta só poderia ser o silêncio e o 
volver do rosto. Foi o que Cristo fêz.
O que temos de fazer hoje é construir. Na realidade, o 
espírito destructivo, o demoníaco, vence em quase todos os 
sectores dêste período histórico que vivemos e, sobretudo, 
nêste século, que talvez seáa cognominado pelos vindouros 
\u201cséculo da técnica e da ignorância\u201d, porqúe se há nêle 
um aspecto positivo, que é o progresso da técnica, que chega 
até às raias da destruição, a ignorância aumenta desespera- 
doramente, alcançando limites que a imaginação humana 
nem de leve poderia prever. Mas, o que é mais assombroso 
é a auto-suficiência do ignorante, o pedantismo da falsa cul-
m é t o d o s l o g ic o s e d ia l é c t ic o s 17
tura, a erudição sem profundidade, a valorização da memó­
ria mecânica, do saber de requintes superficiais, a improvi­
sação das soluções já refutadas, a revivescência de velhos 
erros rebatidos e apresentados com novas roupagens. Tu­
do isso é de espantar.
Por essa razão estamos certos de que nossa obra