Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
252 pág.

Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.793 materiais619.776 seguidores
Pré-visualização50 páginas
quando dizemos \u201cTodos os S são P \u201d, tomamos S em 
sua extensão, e quando dizemos O homem não tem asas, to­
mamos homem em sua compreensão.
Temos, pois, três maneiras de realizar a negação: 1) 
negação do sujeito (nenhum); 2) negação da predicação 
(não é); 3) negação do predicado (não-P).
Há uma diferença, ao dizer: Nenhum homem tem asas 
\u2014 O homem não tem asas e O homem tem não-asas. No
MÉTODOS LõGICOS E DIALfiCTICOS 103
primeiro caso, o sujeito é excluído da predicação; no segun­
do, o predicado é negado, porque é negada a predicação; no 
terceiro, nega-se um predicado determinado, mas deixa-se a 
porta aberta à in determinação. Dizer-se que o homem tem 
não-asas, quer dizer que tem algo que não é asas, mas êsse 
algo está indeterminado, podendo ser tudo quanto o homem 
pode ter, menos asas.
Tomemos o juízo universal negativo: nenhum homem 
tem asas e o particular negativo: alguns homens não têm 
asas, no primeiro há exclusão do sujeito, no segundo, da 
predicação a alguns, pelo menos, na Lógica Formal, a par­
ticular está subordinada à universal, tanto a negativa como 
a afirmativa.
O valor destas distinções subtis se revelará oportuna­
mente, como teremos oportunidade de ver.
Observados os dois têrmos fundamentais da proposi­
ção, pode-se desde logo notar que, em suas relações, e to­
mados em si mesmos quando nessa relação, apresentam os 
têrmos acepções diversas, correspondentes ao universo de 
discurso das diversas disciplinas, planos e esferas do conhe­
cimento humano. Assim o têrmo homem, na Psicologia, 
na Antropologia, na Filosofia, na Sociologia, na Política, na 
Anatomia, etc., toma acepções distintas, várias. A Lógica 
procura naturalmente tomá-lo em sua acepção mais abstrac­
ta. Assim o homem da Zoologia, que é um primata, é, na 
Lógica, apenas um animal racional, que metafisícamente é 
um ser que tem animalidade e racionalidade, constituindo 
uma unidade.
Um mesmo têrmo, num juízo, pode ter uma acepção e, 
noutro juízo, outra acepção. São comuns os sofismas que 
surgem do emprego vário dos têrmos, mesmo quando não 
são meramente equívocos, como cão, que é o nome de uma 
constelação e também de um animal, mas análogos, como 
o é homem para Zoologia, e homem para a Metafísica.
104 MARIO FERREIRA DOS SANTOS
Foi por êsse motivo que os antigos lógicos, ao estuda­
rem as propriedades que decorrem das proposições, distin- 
guiram as propriedades referentes às partes das proposições 
(sujeito, predicado e a cópula), e as propriedades que se 
referem à proposição tomada como totalidade.
Entre as que se referem às partes, temos a suppositio, 
a ampliação, a restricção, a alienação, a diminuição e a ape­
lação. E entre as que se referem à proposição como tota­
lidade, temos a oposição, a conversão e a eqüipolência.
DA SUPLÊNCIA
De magna importância para os exames dialécticos é sem 
dúvida a suppositio, porque trata da acepção de um têrmo 
em lugar de uma coisa, o que é verificado pela justa exigên­
cia da cópula. Assim, se se diz \u201cNapoleão Bonaparte é 
branco", o sujeito não é supponens (devidamente suprido), 
porque êle não existe mais, mas existiu. Se se diz \u201cJoão é 
homem\u201d e \u201cHomem é uma palavra\u201d, nestas duas proposi­
ções o têrmo homem apresenta distintas acepções. Como a. 
cópula pode indicar um ser de existência, um ser possível 
ou um ser de razão, é necessário que o exame da cópula seja 
feito para alcançar a acepção em que o sujeito é tomado. 
Como há variabilidade de suppositiones (suplência), o exa­
me é imprescindível para o bom manuseio dialéctico do ra­
ciocínio, e torna-se êste exame uma das providências mais 
importantes da análise dialéctica.
Impõe-se, pois, que sintetizemos as grandes contribui­
ções que os lógicos do passado ofereceram em matéria de tal 
importância, para que seu uso dialéctico se torne acessível.
Vejamos, portanto, em primeiro lugar, como os antigos 
dividiam a suppositio (a suplência, que é propriamente a 
acepção).
A primeira divisão é:
Material \u2014 é aquela em que o têrmo é tomado 
em sua acepção própria, em si mesmo. Ex.: Homem 
é uma palavra. Aqui refere-se apenas ao sinal oral 
ou escrito.
Formal \u2014 quando aponta à sua significação.
106 M\RIO FERREIRA DOS SANTOS
Mas essa significação pode ser própria ou imprópria 
(ou metafórica). Então, temos:
Formal-própria: \u201cO leão é um vertebrado\u201d; im­
própria ou metafórica: \u201cO leão britânico impôs-se 
ao mundo.\u201d
Por sua vez, a suppositio própria pode dividir-se em:
Simples (lógica) \u2014 que é a acepção do têrmo 
em si mesmo, o que imediatamente significa. Assim, 
em \u201cHomem é animal racional\u201d, há uma suppositio 
formal própria simples.
Real (pessoal) \u2014 que é a acepção do têrmo tam­
bém quanto a si, mas no que significa mediatamente, 
como \u201co homem foi para casa\u201d.
Neste exemplo, vemos que o valor de suplência (suppo­
sitio) é singular. No entanto, na proposição: \u201cHomem é 
uma espécie\u201d ou \u201co homem é um ser vivo\u201d, vemos que há 
uma suplência universal. Por isso, a real divide-se em:
Universal (ou comum) e
Singular.
Quanto à ordem, a suplência real subdivide-se em:
Essencial (natural) e
Accidental.
A essencial é aquela cuja acepção do têrmo é tomado 
em si mesmo, ao qual intrínseca e essencialmente convém 
o predicado. Assim, na proposição \u201chomem é animal", a 
suplência de homem é essencial. Essa suplência é sempre 
universal. Na suplência accidental, o predicado já não con­
vém intrinsecamente, mas accidentalmente. É sempre par­
ticular. Assim, dizer: \u201c o homem briga\u201d, é igual a dizer: 
\u201calgum homem briga\u201d.
Quanto à extensão, pode ser universal ou singular, quan­
do sua acepção se refere a todos ou apenas a um. Assim
MÉTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS 107
"homem é mortal\u201d, para o primeiro caso, e \u201cJoão é gramá­
tico\u201d, para o segundo.
Por sua vez, pode ser a universal;
ou distributiva; ou colectiva; ou particular.
É distributiva, quando tomada distributivamente, quan­
do há suplência para todos e para cada um. Assim, em \u201co 
homem é mortal", a suplência é para todos e para cada um 
dos homens.
Colectiva quando tomada colectivamente: \u201cOs generais 
de Napoleão eram doze.\u201d
A particular pode ser disjuntiva ou disjunta (ou confu­
sa). No primeiro caso, a suplência é determinada quanto 
ao sujeito. Assim: \u201cAlgum homem corre\u201d; no segundo é in­
determinada, como em \u201calgum pé para chutar\u201d.
Hã, na lógica clássica, várias outras maneiras de clas­
sificar a suplência, e seria longo enumerá-las, bem como as 
justificações apresentadas por diversos autores em favor de 
sua posição.
Mas, o que vale para a metodologia dialéctica é o cui­
dado que se deve ter quanto às acepções dos têrmos e seu 
valor de suplência. Eis uma regra metodológica dialéctica:
É mister considerar a acepção que toma cada têrmo de 
uma proposição, e examinar cuidadosamente seu valor de 
suplência.
Sem empregar determinadamente a classificação acima 
ou outra proposta, o melhor meio de familiarizar-se com 
essa análise surge do próprio exercícío da mesma. Alguns 
exemplos ilustrarão melhor nossas palavras e evidenciarão 
a conveniência dessa análise tão pouco cuidada em nossos 
dias, e que é a fonte de muitos erros que perduram no filo­
sofar.
Propomos, dêste modo, que seja seguido o seguinte 
exame:
Tomemos uma determinada proposição: \u201co homem é 
mortal\u201d. Se compararmos esta proposição com \u201ctodos os
108 MARIO FERREIRA DOS SANTOS
homens são mortais\u201d, verificaremos logo que, nesta última, 
homem está tomado em sua extensão, pois nós nos referimos 
a êles em sua totalidade numérica; ou, seja, no número dos 
indivíduos que podemos significar com a expressão todos os 
homens. Na primeira proposição, tomamos homem em sua 
compreensão; ou, seja, no conjunto das notas consignifica- 
tivas da sua essência. Ao dizermos que \u201c todos os homens 
são mortais\u201d, dizemos que, em sua totalidade, todos os sêres 
humanos