Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I


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outros modos de ser deficientes e de ser pleno. Êle não é a 
plenitude do Ser Supremo, nem o modo deficiente de ser 
dos outros sêres formalmente distintos. Assim, o buraco 
é um ser que consiste em não-ser. Mas o não-ser aqui é 
algo positivo, porque o buraco, na terra, é ausência aqui de 
terra, entre a terra, é sempre ausência de alguma coisa que
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há. Não haveria um ser que fôsse não-ser de nada, por­
que um ser, que fôsse apenas não ser de nada de positivo, 
êsse ser seria absolutamente nada, e não seria ser. Os sê­
res negativos não são absolutamente negativos, como a som­
bra é sombra porque é ausência de luz, de graus de lumino­
sidade, não ausência de nada, porque ausência de nada não 
é ausência. Se o buraco fôsse ausência de nada, não seria 
nada, nem buraco. Foi isto que não entenderam os exis­
tencialistas como Sartre, que procuram hipostasiar o nada, 
sem se lembrarem que a hípostasiação do nada exige o ser, 
porque só há ou se pode dizer que há nada, quando há au­
sência de um modo de ser. O nada só tem entidade enquan­
to privação de algo que é. A sua positividade não é dada 
por si mesma, mas pelo que se ausenta. É o ser ausentado 
que dá positividade ao nada. Só assim se pode compreen­
der a deficiência do ser finito. O que nêle é deficiente é 
o que é, o que é positivo, porque ausência de nada não é 
ausência nem deficiência. Como nada se dá fora do Ser 
Supremo, e não tem êle qualquer deficiência de ser, porque 
é o único que é ser, é o único ser que é o pleno exercício 
absoluto de ser sem deficiência, é êle apenas ser e nada mais 
que ser. Portanto, só a êle um predicado se identifica ple­
namente. Confirma-se, assim, a nossa afirmação que não 
há identidade entre o predicado e o sujeito senão quanto ao 
Ser Supremo. Todos os predicados dos sêres finitos dist-in- 
gucm-se de certo modo, e distinguem-se fundamentalmente 
do sujeito ao qual são predicados.
Não há plena identidade entre sujeito e predicado quan­
do o sujeito é finito.
É esta, pois, uma tese demonstrada da dialéctica con­
creta.
Pode haver, pois, extensão e compreensão iguais entre 
o predicado e o sujeito; não identificação. Só há identifi­
cação na proposição "Ser é ser", quando se diz \u201cSer infinito, 
é ser infinitamente (sem dependência de qualquer espécie, 
em sua absoluta plenitude).\u201d Quando se diz "ser é ser",
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referindo-se ao ser finito, diz-se \u201cser finito é ser finitamen­
te\u201d. Então: \u201cÊste ser finito é ser finitamente\u201d.
Todo predicado, pois, que é finito em sua predicação, 
só o pode ser infinitamente predicado do, e ao ser infinito. 
Só podemos predicar infinitamente um predicado ao Ser 
Infinito. Ao ser finito todo predicado é um predicar fini­
tamente. Assim sendo, todo predicado pode ser predicado 
de outros sêres formalmente distintos. Se não os encontra­
mos, não importa; o que importa é a razão ontológica que 
demonstramos. Nenhum predicado, tomado em sua pleni­
tude, e que se predica finitamente, é exclusivo de um sujeito 
formalmente determinado.
Por que dizemos em sua plenitude? Dizemos, porque 
uma predicação pode ser dissociada em suas significações. 
E já mostramos quanto vale o que estamos notando. Se al­
guém diz: \u201ccadeira é um artefacto móvel, que tem encôsto 
e assento, e no qual, normalmente, só pode sentar-se uma 
pessoa\u201d, ou, que "é funcionalmente construído com a fina­
lidade de nêle poder sentar-se normalmente uma só pessoa\u201d, 
nesse caso todo objecto ao qual se possa predicar tal coisa é 
cadeira. Então, teríamos um predicado, que é exclusivo da 
cadeira. Sim, tal se daria se tomássemos o predicado em 
sua totalidade, como um totum; não se o tomarmos em sua 
estructura eidética (formal), porque nela entram artefacto, 
assento, móvel, função de servir de assento para uma só 
pessoa. Em sua plenitude, o predicado, considerado em 
suas significações, não é exclusivo, mas só em sua totalidade, 
em sua unidade de multiplicidade significativa. O mesmo 
não se dá quanto aos predicados atribuídos ao Ser Infinito, 
porque sendo êles infinitos, são, em sua significabilidade e 
em sua totalidade, infinitos. A omnipotência é infinitamente 
poder e infinitamente todo poder; é infinitamente a aptidão 
de fazer infinitamente, de realizar infinitamente sem depen­
dências nem determinações outras. Só os predicados infi­
nitos são consignificativa e estructuralmente infinitos. Por 
isso, sua predicação só pode ser dada com exclusividade.
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Só o predicado infinito é exclusivo do ser infinito e lhe 
é predicado exclusivamente.
Qual o valor, pois, dessas distinções? O valor é sobre­
tudo metodológico, pois ao examinarmos uma proposição 
ou um juízo, podemos desde logo fazer a distinção dialéctica 
que se impõe quanto ao predicado. Já sabemos, de ante­
mão, qual o modo de predicação, quando sabemos qual o 
modo de ser do sujeito, pois o predicado não pode ter mais 
realidade que o sujeito.
E não é porque o predicado não pode ter mais realida­
de que o sujeito, que o ser finito recebe uma predicação sem­
pre finita. Por receber sempre o ser finito uma predicação 
finita é que o predicado não pode ter mais realidade que o 
sujeito. A razão do valor de predicação é proporcionada 
ao sujeito. Se a lógica formal extrai essa regra, a justifi­
cação de sua validez é dada pelas razões acima.
Portanto, todo predicado de um ser finito é finito.
Já vimos que nenhum predicado se identifica absoluta­
mente com o sujeito finito. Vemos agora que, em sua ple­
nitude, não pode ser êle predicado exclusivamente de um 
ser finito, só se tomado em sua estruetura formal.
Ora, sabemos que o predicado pode ser de extensão 
maior que o sujeito. Assim, mortal abrange maior número 
de classes que a do homem. O homem é um dos sêres mor­
tais, não o único. Mas também o predicado pode ser de ex­
tensão menor, quando dizemos gramático, porque nem todos 
os homens são gramáticos e só podemos predicá-lo a alguns, 
particularmente.
Há congruência, ou não, entre o sujeito e o predicado? 
Há congruência, quando o predicado se analoga a um logos 
analogante próximo, ao qual também se analoga o sujeito; 
do contrário, há disparate (1). Como predicar algo de al-
(1 ) O !Logos analogante deve ser, anàlogamente, de um e de outro, 
da essência ou dos modos de ser, substanciais ou accidentais, de um e 
de outro.
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guma coisa, se o que é predicado é incongruente com a coisa? 
Deve haver alguma pertinência a um logos analogante entre 
sujeito e predicado. Assim, posso dizer: "o homem é mor­
tal\u201d, porque há essa pertinência, pois o homem se inclui en­
tre os sêres mortais. Se disser o \u201chomem é chapéu\u201d , e se 
se tomar o têrmo chapéu em seu sentido real, dir-se-á um 
disparate, porque homem e chapéu não se analogam a um 
logos analogante, próximo, mas remoto.
Assim, no exame dialéctico concreto de uma proposição, 
deve-se procurar o logos analogante que analoga sujeito e 
predicado, como já tivemos oportunidade de frisar .
No exame do logos analogante, delineia-se nitidamente 
a predicação, ou, seja, o modo de funcionar do predicado em 
relação ao sujeito.
Se se mantiver a análise indicada pela lógica formal, o 
exame dialéctico torna-se concreto, porque há possibilidade, 
então, de fazer cooperar, para tal análise, as contribuições 
que a dialéctica em geral oferece, o que será tratado opor­
tunamente. No final desta obra, daremos alguns exemplos 
de análise dialéctica, que justificarão a precedência dos nos­
sos métodos. Também na parte final, daremos a síntese 
metodológica e o esquema de análise.
EXAME DIALÉCTICO DOS CONCEITOS 
UNIVERSAIS
Tudo quanto existe na natureza é singular. O conceito 
universal, como se refere a outros, portanto a uma plurali­
dade, não pode ter uma existência natural. Êste ponto