Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
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um intelecto que 
realize essa operação. Ora, um agente, não podendo, en­
quanto tal, ser passivo, êsse intelecto também não o é. é 
êle activo, e chamou-o, então, de nous poietikos, que os es- 
colásticos traduziram por intellectus agens, o qual revela, 
nessa operação, que não existe na matéria a sua espirituali­
dade indiscutível. A matéria pode receber impressões, e 
estas são singulares sempre. Mas o intellectus agens realiza 
uma operação de universalização, êle abstrai da singularida­
de do phántasma, intencionalmente, os elementos formais dos 
esquemas universais, os conceitos. Não há, na matéria, ne­
nhuma operação universalizado ra, e como a acção é propor­
cionada ao agente, essa acção é desproporcionada a matéria, 
e não pode ser material. É ela, portanto, não-material, ima- 
terial, ou melhor, espiritual por ser criadora. Os matéria-
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listas, apesar de todos os seus esfôrços, jamais conseguiram 
destruir a argumentação aristotélica, e preferem silenciar 
neste ponto, ou, então, dão um verdadeiro salto do sensível, 
singularízante, para o intelectual universalizante, mas sem 
uma razão, sem uma explicação cabal e congruente, sem 
uma causa que explique. E como para muitos êsse salto 
passa despercebido, não é de admirar que, por falta de me­
lhor mente filosófica, haja os que aceitem uma explicação 
(na rerdade falsa) materialista dos factos psíquicos supe­
riores.
Para a Esquematologia, como a compreendemos, e mos­
tramos em nosso \u201cTratado de Esquematologia\u201d, os factos 
processam-se assim: os esquemas fácticos, que são singula­
res, são, posteriormente, universalizados. Ora, só se dá a 
univeralização quando é notada em outros indivíduos a re­
petição de uma entidade formal; ou, melhor, quando os no­
vos indivíduos repetem o que pertence ao primeiro esque­
ma noético-factico, que é singular. Nesse ser singular, são 
captadas notas repetidas de outros sêres diferentes. A es- 
tructuração dessas notas numa nova estructura esquemáti­
ca é uma operação que não é explicável materialmente.
A passagem das experiências de coisas verdes, para a for­
mação esquemática do verde, exige, inegavelmente, uma ope­
ração abstracta, operação que, de modo algum, realiza a 
matéria em nenhuma das suas operações. Não é só, porém, 
essa operação que é importante. O mais importante é a cria­
ção do esquema noético-eidético; ou, seja, a universalidade 
verde, o verde das coisas verdes. Aqui não há nenhum se­
melhante com os factos físicos da matéria. Não se argu­
mente que um molde poderia tomar a figura de um ser só­
lido, a quantidade qualificada, porque essa marca seria ainda 
singular, enquanto aquela operação do espírito é universali- 
zadora (o verde das coisas verdes e não êste verde desta coi­
sa verde). Essa estrueturação esquemática mental é o con­
ceito. Formados êstes, pode a nossa mente estrueturar con­
ceitos de conceitos, e assim sucessivamente. A esquemati-
MÉTODOS LÓGICOS E DIALÉCTICOS
zação cresce em abstracção, e abrange assim maior número 
de indivíduos, embora se reduza cada vez mais o número 
das notas, como se vê nos conceitos lógicos, até chegarmos 
às categorias, e até ao conceito lógico de ser, que é o de maior 
extensão e o de menor compreensão, pois êste conceito, ex- 
tensivamente, inclui todos os entes e, em sua compreensão 
(intensistamente), tem apenas a nota de ser, de presença. 
Ao ser, como conceito lógico, apenas se pode predicar ser; 
ou, seja, apenas afirma que é, afirma a si mesmo. Não se 
deve, contudo, confundir o conceito lógico com o conceito 
ontológico de ser, que é de máxima extensão e compreensão, 
pois nêle se incluem todos os sêres, e é tudo quanto é.
A análise dialéctica do conceito, que é uma providência 
importante e fundamental da metodologia dialéctica, não po­
de ser processada senão depois de havermos examinado as 
classificações que a lógica clássica estabeleceu, e depois de 
havermos discutido os problemas que surgem ante a afirma^ 
ção do universal. Após êsses exames, poderemos retornar 
ao tema tratado no parágrafo anterior e esclarecer alguns 
aspectos, que não foram devidamente examinados por nós, 
porque um exame de tal espécie exige outros, que devem ser 
colocados prèviamente.
Nos manuais de Lógica, estudam-se as diversas classi­
ficações dos conceitos, fundadas na sua extensão e na sua 
compreensão, como já vimos.
Entre as classificações, que têm um papel especial na 
dialéctica, está a seguinte que se refere á relação que podem 
manter entre si os conceitos: os que não incluem um ou 
outro, nem se excluem, são chamados impertinentes, como 
verdade e sábio, e pertinentes, os que se inferem, como ho­
mem e animal, ou se excluem como homem e cavalo. No en­
tanto, entre os conceitos pertinentes, nem sempre a inferên­
cia é mútua, como no caso de homem e animal, pois se dado 
o homem há o animal, dado o animal não há necessariamen­
te o homem. Contudo, são de pertinência mútua: racional e 
lógico, porque onde há o lógico há o racional, e vice-versa.
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São idênticos os conceitos que significam a mesma coi­
sa; do contrário, são diversos. A identidade pode referir-se 
à compreensão ou à extensão do conceito.
Classificação quanto à oposição. Diz-se que há oposi­
ção entre dois têrmos, quando um se ob põe ao outro, se 
põe contra, afirma diversamente em sentido inverso o que 
o outro afirma. Há oposição própria ou imprópria (dispa­
rate). Há oposição entre vício e virtude; é disparatada a 
oposição entre virtude e montanha.
Oposição:
Contraditória: a que se dá entre o conceito e a sua 
negação: homem e não-homem.
Privativa: a que se dá entre a coisa e a sua privação: 
vidente e cego.
Contrária: a que se dá entre os que, pertencentes ao 
mesmo gênero, estão, contudo, màximamente, 
distantes, como a entre prodigalidade e avareza.
Relativa: a que se dá entre as coisas que se orde­
nam uma à outra, como: pai e filho, escravo e 
senhor. Os têrmos desta oposição são chama­
dos de correlativos.
A oposição contraditória não admite um meio têrmo, 
pois entre homem e não-homem não há ura meio têrmo; mas 
entre as privativas há um meio negativo, pois entre vidente 
e cego, o não-vidente é um meio têrmo, como a não-vidência 
da pedra. Entre os contrários pode haver um meio têrmo, 
pois entre dois hábitos morais extremos dá-se a virtude ( vir- 
tus in mcdhun), como entre a prodigalidade e a avareza, o 
meio têrmo é virtuoso, ou entre o vermelho e o azul, as cô- 
res intermediárias. Contudo, há contrários sem meio têrmo. 
São os contrários imediatos, como, na ética, acto honesto e 
acto desonesto, pois a maioria dos etólogos negam o acto 
indiferente. Esta última afirmação é, porém, controversa.
DIALÉCTICA DO CONCEITO
Dialècticamente, todo conceito inclui o que se afirma de 
uma coisa, mas aponta, naturalmente, a tudo quanto é au­
sente dessa coisa, pois quando se diz que algo é homem, diz- 
-se automaticamente que não é não-homem; ou, seja, nega-se 
o seu contrário. Mas, como todo conceito delimita a coisa, 
para que uma coisa seja o que ela é, afirma-se a exclusão de 
tudo o que não é incluso no conceito. Não se quer dizer 
que o excluído não se dê na coisa; não se dá, porém sob a 
razão do conceito.
Dado um juízo S é P, a análise dialéctica, antes de exa­
minar apenas o juízo, deve prèviamente realizar a análise 
conceituai do sujeito e do predicado.
As providências dialécticas são as seguintes:
1) Examinar a compreensão do conceito, e realizar a 
sua classificação.
2) Examinar a extensão do conceito, e realizar a sua 
classificação.
3) Examinar quanto à sua perfeição, e classificar.
4) Classificar o conceito segundo a origem e o fim.
5) Colocar o conceito-sujeito e o conceito-predicado, 
um em face do outro, para concluir sôbre a sua diversidade 
ou conexão. Verificar a diversidade ou a identidade,