Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
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Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I


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tão? Daí decorre que se impõe a necessidade de distinguir 
o esquema eidético-fáctico de o meramente lógico. A vida, 
aqui, seria fundamentalmente a, e, ali, fundamentalmente b, 
mas vida em ambos. Impor-se-ia, pois, a distinção entre o 
esquema eidético-fáctico da vida a, de o esquema eidético- 
-fáctico da vida b, que seriam aritmològicamente diferentes, 
embora, em ambos, metafisicamente, o mesmo: vida. Te­
ríamos, assim, um esquema eidético-fáctico aritmológico 
distinto de outros, mas todos analogados no esquema eidé- 
tico-metafísico da vida. Que se veria, então? Nada mais 
que a justificação da tese pitagórico-platônica: a vida a e a 
vida b participariam da Vida, pois inegàvelmente deveria 
haver uma outra forma, à qual as formas concretas a e b se 
analogariam; ou, seja, participariam daquela. Assim, a 
criação da vida a ou da vida b não seria a criação da Vida, 
mas da vida a ou b.
Ressalta daí que o esquema eidético-fáctico não é ain­
da o esquema eidético-metafísico, mas participa dêste. Eis 
aqui um grande fundamento para o esquema noético-eidé- 
tico, o qual se dá no homem. Êste, intencionalmente, apon­
ta tanto um como outro, sem que a expressão seja uma re­
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produção fiel daqueles esquemas. Logicamente, o homem 
capta, da vida, para exemplificar, o que esta formalmente 
apresenta transcendentalmente ao fenômeno vida, aqui ou 
ali. Vida é a potência activa criadora, geradora de sêres re- 
produtíveis, com auto-crescimento, formalmente semelhan­
tes, a qual actua imanentemente nos mesmos.
Como ela se apresenta fàcticamente é outra coisa, e 
«scapa ao campo da Lógica. Êsses aspectos fácticos per­
tencem ao âmbito da Ciência. A Dialéctica, unindo a Ló­
gica à Ciência, não poderia parar apenas no formal, mas 
tenta invadir o fáctico, por isso é ela uma Lógica concreta.
São essas as razões que nos levam a compreender que 
o fortalecimento da Lógica, para que possa ela ser a ciência 
auxiliar tão importante, exige que os exames das afirmati­
vas lógicas tenham um cunho ontológico rigoroso.
E êsse cunho ontológico é dado pelo rigor da necessida­
de, Quando lògicamente se define a vida como a automo- 
ção, dá-se como razão formal da vida a automoção, a intus- 
cepção. Nessa definição, há o que é capaz de se mover, a 
operação vital. Nesse conceito há, pois, a acção transeunte 
do que passa da potência para o acto, mas essa acção é ima- 
nente, porque o ser vivo move-se imanentemente, em si mes­
mo. Neste caso, é vivo todo ser que tem a automação, que 
transita da potência para o acto. No ser vivo há, portanto, 
o que move, e o que é movido, mas a vida não pode ser outra 
coisa que o poder de automover-se, o poder da moção ima- 
nente; portanto, em acto. Ao atingir certo número orgâni­
co, um ser corpóreo é capaz de automover-se. Nesse ser, 
tem de haver a presença do poder activo, do agente. O ser 
é vivo quando tem êsse agente.
Portanto, pode-se distinguir a vida em geral de a vida 
orgânica, que se dá com os sêres corpóreos. Nestes, há 
vida, o poder activo de mover a si mesmo, mas o que é mo­
vido é o corpo. O corpo vivente é o corpo orgânico. Mas, 
ao ser vivente, não é imprescindível que seja necessariamen­
te corpóreo. Poderia haver um ser vivo sem ser corpo, e
desde logo se vê que a vida necessariamente não surge da 
corporeidade, cuja potencialidade passiva não poderia ser a 
razão de um agente.
Neste caso, ao criar-se a matéria orgânica, ou, seja, a 
matéria numèricamente composta, de modo a tornar-se apta 
à vida orgânica, não se criaria a vida, porque esta exige o 
acto vivo que se realizará no corpo; em suma, um agente. 
Êste agente surge na filosofia clássica com o nome de anima 
(alma), o que anima o corpo; alma vegetativa, a que se dá 
nas plantas, alma sensitiva, a que se dá nos animais, e alma 
intelectiva, a que se dâ no homem.
A diferença que há entre o ser vivo e a máquina é que, 
nesta, há uma agregação das partes, e seus órgãos não têm 
automoção. Todo corpo vivo exige a colocação de um agen­
te que transcende sempre a explicação meramente material. 
É essa a razão por que a vida surge, na Filosofia, como um 
mistério e não pode ser explicada apenas pelas combinações 
materiais. Contudo, é de presumir que, atingidas tais com­
binações num corpo, subitamente se manifestasse a vida, ou 
seja, a automoção, como o pretendem os que afirmam a pos­
sibilidade da geração espontânea e, como vimos, era admi­
tida como possível por Tomás de Aquino.
Não esqueçamos, então, que actualizado um número or­
gânico, a vida se tornaria efectiva. Mas seria a vida dêsse 
ser orgânico. Essa vida participaria do esquema eidético- 
- metafísico da vida, que é o poder activo da automoção, da 
suscepção. Êsse poder activo não poderia encontrar uma 
explicação cabal na matéria, porque esta seria apenas um 
agregado mecânico e, no ser vivo, há o surgimento de uma 
tensão que se manifesta na coerência e na coesão das partes, 
que funcionam sob a direcção de uma normal dada pela tota­
lidade. Êsse agregado orgânico, em certo momento, ao atin­
gir o número orgânico da vida, seria assumido por algo que 
nêle seria activo. Êsse algo, que a razão se vê forçada a 
aceitar, não encontra na Biologia a sua explicação, porque 
já pertence ao campo da Filosofia, Estaríamos, aqui, paL
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milhando o terreno das tensões, e é em \u201cTeoria Geral das 
Tensões\u201d que tratamos dêste problema, sem dúvida um dos 
magnos problemas da Filosofia. Em conclusão: poder-se-ia 
dizer que o surgimento de matéria viva por acção humana 
ainda não solucionaria suficientemente o problema. Seria 
já um grande progresso, e admitamos possível de ser al­
cançado, mas a explicação da vida não poderá ser feita em 
laboratório, porque ela transcende o campo das Ciências 
Naturais.
# *\u25a0 *
A dialéctica concreta revela assim que há um mundo 
dos logoi, que se dá todo de uma vez, simultâneamente. A 
razão (logos) do ser de tôdas as coisas, e as razões (logoi), 
que conexionam tôdas as razões entre si já estão dadas de 
todo sempre, e simultâneamente. É fácil compreender-se 
agora como havia razão em Santo Anselmo e São Boaven- 
tura, nas suas provas ontológicas da existência de Deus, que 
é, na Religião, o ser infinito.
É inegável, pois, para a dialéctica concreta (que o 
prova, através de suas análises), que há uma logicidade uni­
versal, e que a Lógica e a Dialéctica não são apenas meras 
criações da inteligência humana, mas nexos que ordenam e 
coordenam todo existir, do qual a nossa Lógica e a nossa 
Dialéctica são apenas reproduções nossas, intencionais, da 
logicidade que conexiona todos os sêres. A Lógica e a Dia­
léctica tornam-se, assim, não apenas uma arte, mas uma 
ciência, como um objecto material definido, que são tôdas 
as coisas, e com um objecto formal, também definido, que 
é a logicidade que há em tôdas as coisas, ou, seja, o nexo 
dos logoi, que conexionam todos os sêres entre si. E essa 
conexão antecede a todos êles, essa conexão lógica é algo 
que se dá antes dos sêres finitos serem, e que preside a todo 
o ser. É o logos último do ser. Há, assim, leis universais, 
que constituem o logos que conexiona tôdas as coisas, e essas 
leis nos permitem levar avante a análise dialéctica concreta 
pela qual propugnamos.
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Vamos primeiramente empregar ainda alguns exem­
plos do raciocinar dialéctico sôbre as inversões, obversões e 
conversões dos juízos apodíticos, para depois, estabelecer­
mos as leis ontológicas do raciocinar dialéctico, tanto quanto 
nos fôr possível dentro dos limites dêste livro, para com 
elas podermos ter as bases seguras de um raciocinar que 
evite, de uma vez por tôdas, essa vagabundagem do espírito 
filosófico no campo das asserções e das opiniões, que só 
serviram para aumentar a confusão,