Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
252 pág.

Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.709 materiais616.511 seguidores
Pré-visualização50 páginas
e criar filosofias de 
evasão e de desespero.
O que é fundamental da proposição lógica, como já vi­
mos, é o sujeito, o predicado e o tipo de predicação. Os 
dois primeiros constituem os elementos materiais da pro­
posição, enquanto o segundo (o verbo) dá a forma da 
proposição, segundo uma classificação segura da lógica 
clássica.
Entre os diversos exames, já por nós salientados, não 
se deve jamais esquecer que o sujeito como suposto (sub- 
-jacere, sub-ponere) tem a função de quem recebe. É um 
substracto que suporta um revestimento, um predicado atri­
buído, ou não, ao sujeito. O papel actual do sujeito, na 
proposição lógica, é o do elemento que é actualizado pelo 
espírito, é alguma coisa da qual se fala, pois o sujeito pode 
ser real ou não. Tanto o sujeito, como o predicado, são 
conceitos.
No exame, portanto, de uma proposição, é necessário 
considerar como primeira providência, como vimos, após a 
actualização do sujeito, se está sendo tomado em sua exten­
são ou em sua compreensão.
Assim, se dizemos: O homem é mortal, se tomamos ho­
mem em sua extensão (todos os indivíduos classificáveis 
como homem), mortal é contingente. Se tomamos em sua 
compreensão (no conjunto das notas essenciais do ser hu­
mano) mortal seria universalmente predicado dos homens. 
Neste caso, o juízo: Se é homem, é mortal é verdadeiro se 
verdadeiro fôr aquêle.
152 MARIO FERREIRA DOS SANTOS
Portanto, a primeira providência a seguir é tomar o 
conceito segundo a sua extensão, e segundo a sua compreen­
são, e considerar a validez do juízo segundo o modo de serem 
êles íomados.
O predicado no juízo O homem é mortal, tomado em 
sua extensão, afirma que homem se inclui na classificação 
dos indivíduos mortais; segundo a sua compreensão, que é 
da natureza do homem ser mortal.
Ora, surge aqui um ponto de máxima importância. 
Quando tomamos um conceito em sua extensão, o que dêle 
afirmamos, fazemo-ío contingentemente, pois dizer-se que a 
experiência nos mostra que todos os homens, que já existi 
ram, foram mortais, tal nos leva a considerar como prova­
velmente certo que todos os homens actuais são mortais. 
Contudo, tal afirmação não nos oferece a apoditicidade de­
sejada pela dialéctica-concreta. Poderíamos, então, dizer 
que, segundo a máxima probabiJidade, todos os homens são 
mortais. Quando tomamos em sua compreensão, afirmamos 
que é da essência da coisa o predicado, que é uma proprie­
dade ou uma nota essencial. Neste caso, o predicado não 
é meramente provável, mas necessariamente certo. Assim, 
se mortal pertence à compreensão do conceito homem, a sua 
mortalidade é necessariamente decorrente da sua natureza.
A relação entre sujeito e predicado apresenta sete as­
pectos fundamentais:
1) O predicado é unívoco com o sujeito, e com êste 
se identifica, o que é fácil perceber-se pela inversão. As­
sim, no juízo: homem é animal racional, ou em \u201cser animal 
racional é ser homem\u201d, temos um exemplo de máxima deter­
minação realizado pelo predicado, pois a definição de homem, 
clàssicamente, é esta. Neste caso, podemos actualizar na 
proposição lógica, homem, e então êste conceito passa a ser 
sujeito, ou animal racional, que, actualizado, passa a ser o 
sujeito. Há, contudo, aqui, a possibilidade de uma nova dis­
tinção dialéctica, como já procedemos nesta obra, porque 
horaem, tomado como essência ou como natureza, modifica, 
o sentido da proposição, como já vimos.
MÉTODOS LOGiCOS E DIALÉCTICOS 153
2) O predicado está incluso no sujeito, e corresponde, 
neste caso, à figura de retórica sinédoque, como no juízo: 
o Exército é a tropa. Estamos, neste caso, numa espécie de 
metonímia, pois tomamos, aqui, o menos pelo mais. A in 
tenção de quem formula essa proposição é afirmar que o 
que constitui a realidade do exército é a tropa, desmerecen­
do, ou pondo em segundo plano, a parte administrativa ou 
burocrática do exército.
3) O sujeito está incluso no predicado, como no juízo: 
O homem é mortal porque, entre os sêres mortais, está tam­
bém o homem.
\u25a0í) Apenas se atribui parcialmente o predicado ao su­
jeito, como quando se diz Alguns homens são cientistas. Se 
alguém disser o homem é cientista, o predicado apenas so 
reíere a alguns. A predicação, não sendo includente ou 
unívoca, deve ser apenas parcial ou excludente. Se digo 
O homem é sábio, é artista, é criador, é político, em tais 
juízos tomo o homem enquanto é isto ou aquilo, ou que en­
tre os homens há os que são isto ou aquilo. Em proposi­
ções tão evidentes como estas, o sentido logo é claro, mas 
o mesmo já se não dá quando é empregado em proposições 
de ordem filosófica, como o desta proposição materialista 
O ser é matéria, pois matéria é um modo de ser, e não todo 
ser.
5) O predicado exclui-se do sujeito, ausenta-se dêle, 
como se vê nos juízos negativos: o homem não é pedra, ou, 
seja, exclui se do sujeito homem a predicação pedra.
6) A predicação indefinida dá-se quando é atribuído 
ao sujeito um predicado, que é negado, como no juízo 
O homem é não-pedra. No juízo negativo, a predicação é 
totalmente recusada; no juízo indefinido, a predicação é 
afirmada indefinidamente, pois o homem é algo que é não- 
-pedra, sendo possível predicar-lhe algum predicado indeter­
minado outro que pedra.
7) Quando a predicação é negativa indefinidamente, 
como no juízo O homem não é não-mortal, ela torna-se afir- 
mativa: não-mortal é tudo ao qual não se pode predicar a
154 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS
mortalidade. Ao homem é recusada a predicação de não- 
-mortal; ou, seja, é êle mortal.
No exame do juízo, devem-se considerar tais relações 
entre o predicado e o sujeito. No primeiro caso, há os juí­
zos tautoldgícos, tais como Homem é homem, cujo exame 
já fizemos, pois a tautologia, aqui, se dá completamente, 
porque, ao predicar-se homem ao homem, predica-se-lhe o 
ser plenamente homem, e tomamos o sujeito apenas em sua 
essência, sem considerar o que nêle é accidental. Ora, homem 
não é apenas o que é essencial. Na tautologia acima, pre­
dica-se a homem apenas a sua essência, o ser homem. A 
tautologia não é, pois, absoluta, como vimos ao examinar 
o juízo Ser é ser, porque há uma distinção entre o predica­
do ser e o sujeito ser. A ser como suporte, actualizado co­
mo algo que pode receber uma predicação, aplicamos-lhe 
uma predicação essencial ser como actuar, como exercitar-se 
como tal, como presença, como afirmação. O predicado é 
o que se diz do sujeito determinadamente ou não. É uma 
caracterização do sujeito. O predicado, enquanto tal, é o 
que se atribui ou não; é o que se afirma ou nega de alguma 
coisa. O mesmo têrmo, enquanto sujeito e enquanto pre­
dicado, é, como voz, um só e mesmo, mas intencionalmente 
tem conteúdos esquemáticos distintos. Homem, como o ser 
que recebe atribuições, é diferente de homem, quando atri­
buído a um ser, porque, neste segundo caso, a atribuição é 
uma determinação, uma caracterização essencial.
Quando alguém diz: o exército é a tropa e outro respon­
de: não, o exército é o exército, êste segundo juízo não é 
uma mera tautologia. O primeiro afirma axiològicamente 
que o que significa em sua essência o exército é a tropa, de 
que o resto é accidental, como a administração, a parte bu­
rocrática. O segundo afirma, ao contrário, que o exército 
é tudo quanto essencialmente o compõe: tropa, administra­
ção, constituição jurídica, história, ideais. O exército é, na 
verdade, tudo quanto é propriedade da essência exército.
É mister, pois, examinar se há tautologia simples ou 
aparente.
MÉTODOS LOGICOS E DIALÉCTICOS 155
As definições são juízos determinativos de máxima de- 
terminação. Não são, porém, tautológicas, como alguns 
afirmam, porque são juízos analíticos, e consistem na pre­
cisão do que diz o conceito sujeito, sua significação, que é 
dada por seu conteúdo noemático e, sobretudo, seu conteúdo 
ontológico.