Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
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vitalmente destructível. Um ser composto é destructível, e 
de todo ser composto de matéria e forma pode-se dizer que 
é decomponível.
Essas análises, quando levadas com cuidado nos diver­
sos conceitos que compõem um juízo, permitem notar várias 
distinções, que não são evidentes desde logo.
Se tôdas as regras metodológicas, que oferecemos da 
Lógica Formal, são bem conduzidas, está-se apto a captar as 
distinções, que são tão preciosas para o nítido esclarecimen­
to dos conceitos e das proposições lógicas. Mais adiante, 
procuraremos oferecer um método prático do domínio das 
distinções, tão importantes, e imprescindível para o bom uso 
da Lógica.
DA TERCEIRA OPERAÇÃO DO ESPÍRITO 
DO RACIOCÍNIO
Escrevemos em \u201cLógica e Dialéctica\u201d : \u201cA definição clás­
sica de raciocínio é dada por Aristóteles: "operação discur­
siva, pela qual se mostra que uma ou diversas proposições 
(premissas) implicam uma outra proposição (conclusão) 
ou, pelo menos, tornam esta verossimilhante.\u201d
Só há raciocínio quando inferimos um pensamento de 
outro pensamento. Podemos começar de um facto singular 
para chegar a uma conclusão geral, ou de uma conclusão ge­
ral para concluir que o singular está contido nesta. Podem 
ser diversos os raciocínios, mas, em todos êles, há sempre a 
derivação de um pensamento de outro, o qual contém aquêle.
Já por diversas vêzes, referindo-nos ao conhecimento, 
vimos que êle pode ser dado por actos de apreensão ime­
diata, ou então provir de processos mais complexos, media- 
tos (por meio de .. . ) . No primeiro caso, temos o conheci­
mento intuitivo, e, no segundo, o conhecimento discursivo.
O primeiro é dado pela experiência directa, como ao ve­
rificar que esta mesa é maior que o livro. O saber discur­
sivo, ou saber racional, é o que resulta de conhecimentos an­
teriores, e podemos dar como exemplo: \u201ctodo o homem é 
mortal.\u201d
Só chegamos a êste conhecimento, depois de feita a ve­
rificação de uma série de factos e de uma conclusão pos­
terior.
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Os processos discursivos são simples ou complexos;
a) simples, quando de um conhecimento se infere di- 
rcctamente outro; também se chama inferência ou ilação 
imediata;
b ) complexos, quando a passagem de um a outro é feita 
através, pelo menos, de um membro intermediário, como os 
raciocínios deductivos, os matemáticos, os inductivos, e os 
por analogia.
Nos processos discursivos complexos (raciocínios me- 
diatos, inferência ou ilações mediatas, como já vimos), a pas­
sagem de um conhecimento a outro é feita através de, pelo 
menos, um membro intermediário.
São conhecidos tradicionalmente por duas classes: ín- 
ducção e deducção. Geralmente se define a inducção como 
a passagem do particular ao geral, enquanto a deducção é 
a passagem do geral para o particular.
No raciocínio, há apreensões de pensamentos e de suas 
significações, e êstes formam um todo, uma unidade. É o 
que se dá no raciocínio intuitivo.
No raciocínio discursivo, há a inferência de um pensa­
mento de outro. Desta forma, o raciocínio discursivo re- 
duz-se ao primeiro, pois é apenas uma forma complexa da­
quele.
A deducção funda-se nos princípios lógicos (princípios 
de identidade, de não-contradição, do terceiro excluído e de 
razão suficiente, dos quais já falamos), que são verdadeiros 
axiomas para a Lógica Formal, os quais regem todos os erí- 
tes lógicos e os objectos ideais.
A deducção não se baseia em princípios lógicos, mas na 
opinião da regularidade do curso da natureza, em certa ho­
mogeneidade da sucessão dos factos, regularidade hipotética 
para muitos, mas que é fundamental para a inducção, que 
nela se fundamenta. As chamadas leis científicas, as induc-
MÉTODOS LõGICOS E DIALÉCTICOS
ções da Ciência partem da repetição dos factos singulares e 
da regularidade daquela.
Não há intuição sensível do universo; a intuição sensí­
vel é só do singular, do individual, como já vimos tantas ve­
zes. O universal é fundado nos factos singulares. Dessa 
forma, a deducção se baseia numa inducção prévia. Mas, 
a formulação de um universal implica a aceitação da possi­
bilidade de formular o universal. Então temos de admitir 
que, para formularmos de uma inducção um universal, im­
põe-se previamente a aceitação da possibilidade do univer­
sal. E como nos á dada essa possibilidade? Ela decorre 
da repetição dos factos, cujo acontecer, no passado e no pre­
sente, faz-nos admitir a possibilidade de se reproduzirem no 
futuro. Como o futuro vem a evidenciar a actualização des­
sa possibilidade, formulamos, sob a influência da parte ra­
cional do nosso espírito, que deseja a homogeneidade (que 
se funda no semelhante), que existe uma regularidade nos 
factos cósmicos. Fundados nessa regularidade, conseguimos 
dar o salto da inducção ao universal, ponto de partida da 
deducção posterior. Por isso, o alcançar do universal não 
é apenas uma decorrência da inducção, pois esta é corrobo­
rada pela aceitação do princípio, hipotético ou não (o que 
não cabe por ora discutir), de uma regularidade universal, 
de certa legalidade universal, de que o cosmos é realmente 
ordenado por constantes que não variam (invariantes), e que 
permitem a formulação de princípios universais.\u201d Oportuna­
mente volveremos a êste ponto.
DO SILOGISMO 
Exame sintético
Dos processos discursivos, de que já tratamos, destaca­
mos, dentre êles, os raciocínios deductivos, os quais são iden­
tificados como o silogismo.
O silogismo é uma deducção formal, é um raciocínio 
que vai do geral ao particular ou ao singular. Consiste em 
estabelecer a necessidade de um juízo (conclusão), mos­
trando que êle é a conseqüência forçada de um juízo reco­
nhecido por verdadeiro (maior) por intermédio de um ter­
ceiro juízo (menor), que estabelece, entre os dois primeiros, 
um laço necessário.
Assim temos duas premissas \u2014 nome que se dá aos 
dois primeiros juízos \u2014 dos quais se infere um terceiro juí­
zo, chamado conclusão.
Vamos dar um exemplo clássico de silogismo:
Todo homem é mortal ............ (Premissa maior)
Ora, Sócrates é homem .......... (Premissa menor)
Logo, Sócrates é mortal .......... (.Conclusão)
Sendo o silogismo um raciocínio deductivo, o ponto de 
partida é sempre um juízo universal, quer ocupe ou não o 
primeiro pôsto, o lugar da premissa maior; ou, seja, uma 
premissa tem de ser necessariamente universal.
O silogismo tem três têrmos: o maior, o médio e o me­
nor. Êsses têrmos são os que entram nos juízos (ou pro­
posições) que constituem o silogismo.
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O predicado da conclusão recebe o nome de têrmo maior. 
Examinemos o silogismo acima citado: Mortal é o têrmo 
maior.
O sujeito da conclusão é chamado de têrmo menor. 
O sujeito da conclusão é Sócrates. O têrmo médio é o que, 
estando presente nas duas premissas, falta na conclusão, 
que é homem, no exemplo.
Se em vez de considerarmos os três juízos que consti­
tuem o silogismo, considerarmos os três têrmos que entram 
nesses juízos, o silogismo consiste em estabelecer que um 
dêsses têrmos, o maior, é o atributo necessário do outro, o 
menor (que mortal é atributo de Sócrates), porque é atri­
buto necessário de um terceiro, o médio (homem, no nosso 
caso, o homem é mortal), que é por sua vez o atributo ne­
cessário do menor (Sócrates, pois homem é atributo de Só­
crates). Em síntese: mortal e atributo necessário de Só­
crates, porque é atributo necessário de homem, e homem é 
atributo necessário de Sócrates. Sócrates tem a qualidade 
de mortal, porque tem a qualidade de homem, e todo homem 
tem a qualidade de mortal.
Assim, o silogismo consiste em mostrar que um objec­
to, ou uma classe de objectos fazem parte de uma outra clas­
se, porque êle ou ela pertencem a uma classe de objectos 
que, por sua parte, faz parte dessa outra classe.
Regras do silogismo: São oito as