Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
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logo, não canta.\u201d Temos uma negação absoluta na 
menor Pedro não existe.
Conclusão: há um condicionante se há uma condição e 
um condicionado. Se há um condicionante, ainda não pode­
mos concluir que haja uma condição e um condicionado.
Acusa Maritain de se darem muitos sofismas, ao afir­
mar-se que está demonstrada uma hipótese porque certas 
conclusões são verificadas pelos factos. No entanto, a hi­
pótese pode ser falsa, como aconteceu com a de Newton na 
Astronomia.
Se afirmamos como verdadeira a nossa regra, conclui­
ria Maritain que seria verdadeira a hipótese de Newton, 
porque teríamos o condicionado, o que daria a condição e o 
condicionante. Mas, é preciso considerar que uma hipótese, 
por ser hipótese, não revela um nexo de necessidade onto­
lógica, porque se tal revelasse não seria uma hipótese (su­
posição). Os factos revelados mostram que há uma con­
dição e, conseqüentemente, um condicionante. Supõe-se a 
existência do condicionante A, porque há perfeito nexo de 
proporcionalidade entre êle e os factos. Ao afirmar-se que 
uma hipótese é verdadeira, quer-se dizer que uma hipótese 
enquanto tal é verdadeira. Não se diz ainda que só ela é 
verdadeira, o que é essencial num juízo apodítico. Uma su­
posição pode ser verdadeira enquanto suposição. O êrro dos 
cientistas (e é aí que está o sofisma) está em julgarem que 
uma hipótese verdadeira, enquanto hipótese, seja por isso 
apodítica. Ésse defeito não invalida a nossa regra, apenas 
aponta um excesso cometido por alguns, que escapam aos 
limites do condicional, pois transformam êste em categórico. 
Ê aí que está o sofisma.
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Se nctamos que há factos (o que é e-fectum, o que é 
feito), há o que os faz, o acto de fazer e a acção de ser feito, 
que se dá no facto. Se há factos, há um acto que os faz, e 
a acção de serem feitos. Mas o acto, que pode fazer efeitos, 
pode não fazer êstes ou aqueles, pois o poder activo não im­
plica necessàriamente que seja feito êste ou aquêle efeito de­
terminado. Portanto, do poder activo não se conclui o que 
é feito, mas do que é feito se conclui que há ou houve um 
poder activo que o fêz. Na condição (que é sempre hipo­
tética), afirma-se: se há efeitos, há um autor dos mesmos 
e uma acção, que é a sua realização.
No exame da condição é preciso verificar qual o seu 
modo. Há condição necessária (condição sine qua non), e 
há condição contingente, a que podia ser, e não exige, ne­
cessàriamente, êste condicionado determinado. Para se qua­
lificar a condição é preciso perguntar: Sem tal condição há 
tal facto, dá-se tal facto, ou não? E mais esta pergunta: 
para que se dê tal facto é mister apenas esta, ou outra con­
dição?
Com essas perguntas, evitam-se as maneiras ilegítimas 
de concluir que se encontram nos raciocínios. Se tal se dá, 
é necessária esta condição, ou não? A validez só pode ser 
estabelecida quando a condição é sine qua non, sem a qual 
tal facto não se poderia dar. Assim, no silogismo oferecido 
por Maritain: "Se Pedro morreu mártir, êle está no céu; 
ora êle está no céu, logo morreu mártir\u201d, a conditio não é 
sine qua non, porque não é verdade, segundo a religião, que, 
para alguém estar no céu, tenha de morrer mártir, e se Pe­
dro está no céu não se pode concluir que necessàriamente 
morreu mártir. Também o outro silogismo, cuja conclusão 
é ilegítima, também apontado por Maritain, ofende a regra 
que acima expomos: \u201cSe Pedro morreu mártir, êle está no 
céu; ora, êle não morreu mártir; logo, não está no céu\u201d, 
peca do mesmo modo, porque não é apenas, e só necessària­
mente, morrer mártir para se estar no céu.
A regra nossa é, portanto, a seguinte: da existência do 
condicionado, conclui-se a existência da condição e do con*
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dicionante, mas só se conclui necessariamente a existência 
desta ou daquela condição e dêste ou daquele condicionante, 
se a condição fôr sine qua non. Da afirmação de existência 
do condicionante, não se conclui necessariamente a condição 
e o condicionado.
Negam muitos lógicos que um silogismo condicional pos­
sa ser reduzido a um silogismo categórico, enquanto outros 
aceitam essa possibilidade. Maritain coloca-se entre os pri­
meiros, e para justificar a sua posição assim exemplifica: 
\u201cA prova disso (de que não é possível tal reducção) está 
em que, se consideramos u\u2019a maior condicional, cujos dois 
membros não tenham o mesmo sujeito, por exemplo:
Se o mundo existe, Deus existe; 
ora, o mundo existe; 
logo, Deus existe,
a reducção aqui é impossível.\u201d E prossegue, mostrando 
que, se não se pode reduzir um tal silogismo a um categórico, 
pode-se, contudo, traduzir ou resolver um tal silogismo no 
outro, quer da maneira que acima indicou, quer quando a 
maior da condicional apresenta um único sujeito, etc.
Mas, sucede que o primeiro silogismo, que êle citou, po­
de ter a aparência de silogismo, mas na verdade não o é. 
O esquema é:
Se S é, P é; 
ora, S é; 
logo P é,
é um raciocínio imediato pois só tem dois têrmos, e ambos 
já dados na maior, a qual não afirma nenhum dos têrmos, 
mas apenas sua relação. Apenas aponta a uma relação de 
condicionalidade, que significa que P se dá sempre com S, 
ou que um não pode dar-se sem o outro. Ora, um silogismo 
exige três têrmos e não dois. Se digo: "se eu estudo, eu
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aprendo; ora, eu estudo, logo eu aprendo\u201d, há ainda dois 
têrmos apenas. Tal silogismo não serviria de base para 
demonstrar o que afirma Maritain. Mas vejamos outros si­
logismos condicionais, segundo os quatro modos que se po­
dem dar, determinados pela forma da proposição menor, ou 
sejam: dois modos afirmativos e dois modos negativos, que 
podem referir-se, cada um, sôbre o antecedente ou sôbre o 
conseqüente, pois, como sabemos, no juízo condicional, a 
afirmativa ou negativa do conseqüente se dá se afirmado 
ou negado o antecedente.
Um exemplo nos auxiliará melhor:
Se esta curva é um círculo, ela retornará sôbre si mes­
ma; quatro modos são daí possíveis:
1) Ora, ela é um círculo;
logo, ela retornará sôbre si mesma.
2) Ora, ela não ó um círculo;
logo ela não retomará sôbre si mesma.
3) Ora, ela retomará sôbre si mesma; 
logo, ela é um círculo.
4) Ora, ela não retorna sôbre si mesma; 
logo, ela não é um círculo.
Desses quatro modos, vê-se que apenas o primeiro, que 
afirma o antecedente, e o último, que nega o conseqüente, 
são os concludentes.
E a razão é que uma curva sem ser um círculo (uma 
elipse ou uma oval) poderia retornar sôbre si mesma, como 
também uma figura, que retoma sôbre si mesma, não é ne­
cessariamente um círculo (como as que citamos). Os dois 
modos não concludentes pecam contra uma das regras fun­
damentais do raciocínio: o conseqüente tem mais extensão 
que o antecedente, porque outras figuras retomam sôbre si 
mesmas.
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Como reduzir os raciocínios condicionais a silogismos 
categóricos? Nesse caso, seria simples: Todo círculo retor­
na sôbre si mesmo; ora, esta figura é um círculo; logo, re­
tornará sôbre si mesmo (1.° modo).
Todo círculo retoma sôbre si mesmo; ora, esta figura 
não retorna sôbre si mesma; logo, esta figura não é um 
círculo.
E ainda poderíamos reduzir a juízos apodíticos, e a cons­
truir um silogismo apodítico.
Necessàriamente, todo círculo retorna sôbre si mesmo; 
ora, esta figura não retorna sôbre si mesma; logo, esta fi­
gura necessàriamente não é um círculo.
Vejamos outro exemplo:
Se esta curva é um círculo, ela tem um só ponto central. 
Vejamos os 4 modos:
1) ora, ela é um círculo; logo, ela tem um só centro;
2) ora, ela não é um círculo; logo, ela não tem um 
único centro;
3) ora, ela tem um só centro; logo, ela é um círculo;
4) ora, ela não tem um centro único; logo, não é um 
círculo.
Neste caso, os quatro modos são concludentes. E por 
quê?