Mario Ferreira dos Santos - Métodos Lógicos e Dialéticos - Volume I
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evitando, assim, Pagar a Pro­
tágoras, êste o levou a justiça, e lhe disse:
\u201cVós me pagareis, quer percais vossa causa ou a ga­
nheis; se a perderdes, os juizes vos condenarão; a ganhar- 
des, sareis m eu devedor em virtude de nosso E^ôrdo.\u201d
Í A t l o aceitou a alternativa e replicou: "Êu. não pa­
garei, pm-que ou ganho ou não o meu processo; &e os juizes 
se proniWciarem a meu favor, estarei liberto de tôda obri­
gação; e * m e forem contrários, perco a minha primeira 
causa e nãt^os pagarei nada.\u201d Os têrmos são ambíguos. 
Tudo gira en^tórno de palavras de duplo sentido. Cada 
um interpreta ^nhar ou perder a seu modo. O contrato 
não preverá o caso de Evatlo agir contra Protágoras.
No dilema é mister que 1) a Maior seja completamente 
disjuntiva no conseqüente;
2) que os casos que ela enuncia sejam os únicos pos­
síveis e que todos dependam realmente do antecedente;
3) que a menor repila inteiramente os ti>embros da 
disjunção;
4) que os têrmos sejam bem determinados para que 
o argumento não possa ser retorquido pelo adversário, que 
pode tomar os têrmos num outro sentido, como fio exemplo 
que vimos. Para retorquir um argumento, basta tirar-se 
uma conclusão oposta, fundando-se exatamente sôbre uma 
das suas premissas.
Como exemplo de uma disjunção falsa, M^fitain cita o 
argumento abaixo muito usado pelos sofistas modernos: 
\u201cTodo filósofo é inatista ou sensualista; se é inatista, cai no 
idealismo; se é sensualista, cai no materialismo; em nenhum
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caso o êrro pode ser evitado.\u201d A disjunção é, porém, in­
completa. Os que seguem a escola de Aristóteles não são 
nem inatistas nem sensualistas. Como exemplos de disjun­
ção também falha, mostramos duas fundamentais da filo­
sofia de Kant, em nosso "As Três Críticas de Kant\u201d, que 
servem depois de ponto de partida para o desenvolvimento 
da sua doutrina.
Dilema semelhante usam os marxistas: ou um filósofo 
é materialista ou é idealista, ou, seja, aceita a antecedência 
do objecto sôbre o sujeito, ou a do sujeito sôbre o objecto. 
Dêste modo, podem êles chamar de idealistas a todos os fi­
lósofos que não são materialistas. Como êsse \u201cidealismo\u201d 
é ridicularizado, porque os homens não nascem com as 
idéias, mas estas são construídas posteriormente, é fácil im­
pressionar qualquer pessoa que desconheça filosofia ou que 
a conheça apenas superficialmente. Não é de admirar que 
tais argumentos provoquem tanta influência sôbre mentes 
primárias ou em intelectuais deficientes.
DO MÉTODO
\
O têrmo método, do grego meth\u2019odos, significa o cami­
nho (odos) que leva a algo (meth\u2019 ). Indica, pois, genèrica- 
mente, o caminho e a ordem nas acções, que servem para 
alcançar um fim, empregados em tôdas as acções humanas, 
e quando se referem às operações do intelecto constituem o 
que se chama método lógico (métodos lógicos e também 
métodos dialécticos).
Método heurístico, muito usado pelos escolásticos, é o 
empregado na busca da verdade, fundamentando-a em co­
nhecimentos prévios. Suas regras são:
a) Parte das coisas conhecidas para compreender as 
desconhecidas.
b ) O processo é gradativo, sem saltos, alcançando as 
conclusões imediatas e destas às mais próximas, sem omi­
tir os estágios nem saltá-los.
cj Todo o proceder deve obedecer a um princípio de 
clareza, de brevidade e de máxima solidez.
Para consegui-lo, deve-se proceder do seguinte modo:
1) Propor a tese a ser examinada e provada, e analisar 
os têrmos da mesma.
2) Propor o status quaestionis, de maneira bem clara 
e bem determinada, ou seja, a matéria a ser examinada deve 
ser prèviamente vista segundo todos os ângulos e segundo 
tôdas as opiniões expostas. Assim, se se pretende exami-
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nar o tema da verdade, é mister colocar tôdas as maneiras 
de visualizá-la segundo as diversas doutrinas ou posições fi­
losóficas. Dialècticamente, pode-se, aqui, fazer a divisão das 
possíveis posições filosóficas.
3) Os têrmos, desta parte, devem ser bem definidos, a 
fim de evitar ambigüidades.
4J O assunto (subiectum) a ser examinado deve ser 
claramente dividido em suas partes.
5) Fixar bem as verdades determinadas, distinguindo 
as estabelecidas das meramente prováveis.
6) Dar um rápido bosquej o histórico das diversas sen­
tenças propostas, com os argumentos oferecidos pelas diver­
sas posições, sem omitir nada, com máxima clareza e bre­
vidade.
8) Propor objecções à tese e respondê-las, demons­
trando a improcedência daquelas e a validez da tese proposta.
EXEM PLO DO MÉTODO HEURÍSTICO
O método heurístico, usado em geral pelos escolásticos 
antigos e modernos, sobretudo entre êstes, tem um valor 
dialéctico de máxima importância, e é de grande utilidade 
para todos os que desejam examinar uma questão com ba­
ses sólidas, sem cair no terreno perigoso das opiniões, dando 
ao seu trabalho um sentido científico e sério. O exemplo, 
que vamos oferecer, é de Salcedo, em sua Crítica III, Liber I I 
ns. 271-281, que sintetizaremos:
1) A tese a ser defendida é a seguinte: A verdade lógi­
ca define-se rectamente como a conformidade ou a adequa­
ção intencional do intelecto com a coisa (Veritas logica recte 
definitur: eonformitas seu adaequatio intentionalis intelee- 
tus eum re).
Primeira providência é o exame cuidadoso dos têrmos 
usados na tese. Verdade é um nome abstracto, que significa 
alguma forma sem sujeito. Os gregos chamavam alétheia, 
que significa o que é revelado, o que não está mais oculto. 
Entende-se por verdade o que se refere às coisas verdadeiras 
(vera). Impõe-se, pois, o exame do têrmo verum. Exami­
na o defensor da tese o que se pode chamar de verum. E 
mostra que chamamos verum uma coisa, quando dizemos 
ouro vero; um discurso, a palavra, quando se opõe à men­
tira; o conhecimento é chamado verum, quando se opõe pro­
priamente ao falso. Passa a examinar o que há em comum 
em tôdas essas maneiras de chamar verum, e verifica que, 
genèricamente, verdade consiste nalguma conformidade en­
tre dois extremos.
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Portanto, podemos agora situá-la em sensu lato e em 
sensu stricto: em sensu latu: conformidade entre dois extre­
mos dos quais nenhum é o intelecto, exs.: pintura verdadei­
ra, sensação verdadeira.
Em sensu stricto: conformidade entre dois extremos dos 
quais um é o intelecto. Portanto, é a adaequatio rei et in- 
tellectus, que é a definição da verdade.
Ora, a análise de um têrmo pode seguir o rumo que da­
mos na análise de um conceito, buscando-lhe o correspon­
dente têrmo médio, que permite colocá-lo, depois, num silo­
gismo, como exemplificamos a seguir nos nossos comentá­
rios dialécticos aos métodos. Temos aqui, desde logo, uma 
das providências mais importantes do método heurístico, 
que consiste no estabelecimento do sentido genérico e do 
específico; ou seja: do sentido lato (latu sensu) de um têrmo 
e do sentido estricto (strictu sensu).
Como há diversas esferas de realidade, há, conseqüen­
temente, diversas espécies de verdade.
A verdade pode ser, portanto, ontológica ou real, lógica 
ou formal, moral ou da palavra. A primeira consiste na con­
formidade das coisas, com o intelecto; a segunda, na con­
formidade do intelecto com a coisa, e a terceira, na confor­
midade da palavra, da locução, com a subjectiva cognição 
do que fala.
Conformidade ou adequação... Impõe-se agora o exa­
me de tais têrmos. Significam a devida proporção e hábi­
to entre a percepção intelectiva e a coisa percebida.
Intencional indica a intenção da cognição que deve pro­
ceder, no representar a coisa, em apontá-la como o é em seu 
ser. Ê o tender da representação in (na) coisa. A doutri­
na da intencionalidade volve entre os modernos, graças aos 
estudos de Brentano.
A coisa conhecida na verdade lógica é o têrmo da con­
formidade, e é chamada objecto, porque se ob-jecta ao