Trabalho de Direito Processual Trabalhista
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Trabalho de Direito Processual Trabalhista


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jurídica\u201d.
Sobre o ônus da prova no processo civil, Moacyr Amaral Santos[161] afirma a existência de duas regras. Segundo a primeira regra, ao autor cumpre as provas dos fatos sobre os quais se funda seu direito, enquanto ao réu cabe a prova, ainda que indireta, dos fatos que caracterizem a inexistência do direito. A segunda regra define que ao autor cumpre a prova dos fatos constitutivos do direito, já ao réu, a prova dos fatos extintivos, modificativos ou impeditivos do mesmo.
Sobre tais regras, que em verdade se equivalem, o autor faz a seguinte consideração:
\u201c[\u2026] Ambas as regras impõe ao autor a prova do fato em que se fundamenta o pedido, ou seja, do fato constitutivo da relação jurídica litigiosa. [...] Ambas as regras, também, impõem ao réu a prova dos fatos em que se fundamenta a defesa, que quando por meio daqueles vise a) atestar a inexistência dos fatos alegados pelo autor (prova contrária, contraprova), quer quando b) aqueles consistam em fatos impeditivos, extintivos, ou modificativos do fato constitutivo, ou, ainda, consistam em fatos destinados a elidir os efeitos do fato constitutivo (prova da exceção, no sentido amplo)\u201d. [162]
Para o mesmo autor, a aplicação das regras acima descritas traz diferentes efeitos práticos à relação jurídico-processual.
Assim, caso o réu apenas negue os fatos argüidos pelo autor, ao segundo incumbirá o ônus de provar os fatos em que se funda a pretensão. Se o réu negar os fatos alegados pelo autor, mediante a apresentação de novos fatos, caberá ao autor a prova dos fatos por ele explanados e ao réu a apresentação de prova em contrário. Caso o réu não conteste os fatos apresentados pelo autor, os mesmo gozarão de presunção de veracidade. Outra alternativa é o reconhecimento dos fatos alegados pelo autor, \u201cde observar-se, porém, que tal conclusão não deve ser tomada com caráter absoluto. Não se aplica naquelas ações que versam sobre relações jurídicas indisponíveis\u201d [163]. Por fim, pode o réu reconhecer o fato constitutivo do direito do autor, porém alegar fatos extintivos, impeditivos ou modificativos, situação em que lhe caberá a prova de tais fatos, segundo as regras do artigo 333, II, do CPC.
4.5DO ONUS DA PROVA NO PROCESSO DO TRABALHO
No processo civil vige a idéia de que ao autor cumpre provar os fatos constitutivos de seu direito e ao réu cumpre fazer prova dos fatos modificativos, impeditivos e extintivos do direito do autor, constando tal regra em expressa disposição no artigo 333 do CPC.
Segundo Manoel Antônio Teixeira Filho[164], tal divisão busca manter a igualdade formal entre as partes, ressaltando que este pressuposto igualitário \u201cé reflexo direto do direito material civil e em raízes no próprio texto constitucional (CF, art 5º, caput)\u201d.
No entanto, há divergências doutrinárias a cerca da aplicação supletiva do artigo 333 do CPC ao processo do trabalho.
O referido autor afirma que este dispositivo é inaplicável ao processo do trabalho, alegando que inexiste omissão sobre a distribuição do ônus da prova na CLT a justificar a aplicação subsidiária das disposições do processo civil. Nestes termos, entende que a disposição constante no artigo 818 da CLT de que \u201cA prova das alegações incumbe à parte que as fizer\u201d é suficiente para solucionar as controvérsias trabalhistas.
Ademais, ressalta que os artigos em questão, inclusive, encerram efeitos processuais diversos, o que faz mediante a apresentação do seguinte exemplo:
\u201c[\u2026] O empregado alega que foi despedido sem justa causa legal (logo, a princípio o ônus probandi é seu); o réu, entrementes, afirma que não o despediu (mas não alega abandono de emprego). Não provando o empregado o despedimento injusto, o seu pedido (indenização, aviso prévio, etc.), à luz do processo civil seria rejeitado, na medida em que o fato era constitutivo do seu direito, sendo certo que o réu, ao negar a despedida, não opôs nenhum dos fatos integrantes da tríade (impeditivos, modificativos e extintivos) a que o legislador civil jungiu em matéria de ônus da prova.\u201d[165]
Assim, aplicando-se o artigo 333 do CPC ao caso exemplificado, não seria obtida a solução da controvérsia, enquanto, segundo o artigo 818 da CLT, seria ônus da prova do réu a ausência de dispensa do empregado, sob pena de confissão ficta quanto aos fatos alegados pelo autor.
Por fim, conclui que:
\u201c[\u2026] A prova, neste caso, seria negativa, mas não impossível: bastaria que s procurasse saber do empregado quem o despediu, cabendo ao réu trazer a Juízo a pessoa então indicada para ser inquirida como testemunha. Não a trazendo, deixaria de produzir a prova que lhe incumbia e a conseqüência seria a admissão de ser verdadeiro o fato (despedida injusta) narrado pelo empregado\u201d.[166]
Considera, portanto, que há incompatibilidade entre os critérios estatuídos no CPC e na CLT, não havendo que se falar que o artigo 818 do último diploma é insuficiente para solucionar questões sobre o ônus da prova no processo do trabalho.
Sob este aspecto, Manoel Antônio Teixeira Filho[167] entende que eventual insuficiência do artigo 818 da CLT para o caso concreto deve ser solucionada através da aplicação do princípio da aptidão da prova, segundo o qual deve produzir a prova a parte que detenha melhores condições de fazê-lo.
Outra corrente, por sua vez, admite a adoção do artigo 333 do CPC ao processo do trabalho, não como meio de suprir omissões do artigo 818 do CLT (que são entendidas como inexistentes), mas sim em caráter de complementaridade e esclarecimento, sendo necessária a transcrição do seguinte comentário:
\u201c[\u2026] Se interpretássemos essa regra ao pé da letra, chegaríamos a situações inusitadas. Se o reclamante alegasse que trabalhava em certo horário, seria dele a prova. Se na contestação a empresa alegasse que o horário era outro, seria ela que teria de fazer a prova. Contudo, se o reclamante alegasse outra coisa na réplica, então o ônus da prova retornaria a ele. Assim, teríamos um entendimento elástico do que viria a ser ônus da prova com base na regra do art. 818 da CLT. No entanto, essa orientação deve ser complementada pelo art. 333 do CPC.\u201d[168]
Veja-se que a distribuição do ônus da prova da prova segundo os critérios do artigo 333 do CPC foi expressamente acolhida pelo TST, conforme o Enunciado n. 06, VII, segundo o qual compete ao empregador fazer prova dos fatos impeditivos, modificativos ou extintivos do direito do obreiro à equiparação salarial.
Há outros que entendem estarem as regras estatuídas no CPC diretamente relacionadas com o princípio da aptidão para a prova, sendo o artigo 818 da CLT insuficiente para a solução de conflitos, vejamos:
\u201c[\u2026] A solução oferecida pelo CPC, todavia, é a mais técnica e funcional, e está mais bem adequada à aptidão de cada uma das partes para a produção de prova. Assim, no caso do Processo do Trabalho, é justamente o empregador, normalmente o reclamado, quem está em melhores condições de comprovar o pagamento do débito postulado (fato extintivo de obrigação) ou o exercício de cargo de confiança (fato impeditivo, no caso do art.62, inc.). I, da CLT, ou modificativo, no caso de empregado bancário, art.224. §2º, da CLT.\u201d[169]
César Pereira da Silva Machado Junior[170], por sua vez, afirma que o artigo 818 da CLT e o artigo 333 do CPC encerram efeitos processuais similares, vejamos:
\u201c[\u2026] No nosso ponto de vista, os artigos 818 da CLT e 333 do CPC dizem única e exclusivamente a mesma coisa, e a aplicação exclusiva do art.818, com a exclusão da aplicação subsidiária do art.333 do CPC, em nada altera a situação que enfrentamos na prática diária do foro. A afirmativa de que \u201cA prova das alegações cabe à parte que as fizer\u201d, é o mesmo que atribuir ao autor o ônus de demonstrar os fatos constitutivos de seu direito, e ao réu os fatos impeditivos, modificativos e extintivos do direito alegado. As duas disposições legais se resumem em uma única disposição.\u201d
Antônio Lamarca[171] partilha do mesmo entendimento, afirmando que \u201cembora genérico, o art. 818 da CLT já contém no seu bojo a idéia consignada no art.333 do