O campo social das polÃ_ticas públicas e sua dimensão subjetiva
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O campo social das polÃ_ticas públicas e sua dimensão subjetiva


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CAMPO SOCIAL DAS POLfTICAS
PÚBLICAS E SUA DIMENSÃO SUBJETIVA
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E quem garante que a História
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carroça abandonada
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória
A hist6ria ê um carro alcgre
cheio de um povo conlcntc
que atropela,
indifelente
todo aquele que a
nCgGc
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um trem riscando trilhos
Abrindo novos espaços
Acenando mu.!toi braços
Balançando
nOSS05
filhos
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Canción por la
ullidad
de Latinoamérica
Pablo Milanez 'e Chico
Bl\arquc
Neste capitulo. apresentamos a compreensão que temos de nosso obj eto
. de análise. a dimensão subjetiva do campo social das poUticas
públicas. En.
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MARIA DA GRAÇAM. GONÇALVES
te demos ser necessária uma delimitação desse campo, a fim de se apontar,
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teriormente, a cOJitribuição q~e a psicologia sócio-histórica pode trazer à
adação na área. .
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Primeiramente, como
mencionamos,
é
importante reconhecer que
di ersos fenômenos sociais integram esse campo e, como tal, carregam uma
di ensão subjetiva. Ao falar de políticas públicas, falamos de relações sociais
e situações diversas; ocupação e 'convivência nos esp~ços públicos; adesão
de ndivíduos a orientações gerais de comportamento; expressão, identificação,
pn blematização e transformação de demandas; partiCipação de indivíduos
cn diferentes contextos; decisões coletivas; adequação de linguagem e proce-
di 1cntos de intervenção a populações diversas; estruturação de grupos e
m virncntos sociais; dinâmicas de relações entre indivíduos, grupos, movi-
,
mínto~ e poder públir.o. Todos esses fenômenos e outros ainda que poderiam
seI' arrolados envolvem ou expressam aspectos subjetivos.
Nosso enfoque, porém, nos obriga a uma delimitação mais clara. Qual
é
o ontornQ que percebemos para esses aspectos? Em que contexto se consti-
tu m? A formulação geral é que são aspectos subjetivos pertencentes a sujei- .
to históricos, constituídos na relação dialética do indivíduo com a realidade.
A ormulação específica deve apontar que o campo social das políticas públi-
ca. se configura historicamente, na dinâmica de relações entre o Estado, a
so iedade, a economia e os indivíduos .que, de formas diversas? nem sempre
cl, ras, expressam a relação das classes sociais. Tal dinâmica.envolveaspectos
oh etivos e subjetivos e nela a psicologia tem condições de identificar sujeitos
e ,nbjetividades, bem como concepções de sujeito e de subjetividade que
pe .mdam as ações e relações.
p 'líncas sociais como espaço de afirmação de direitos
Falar de poUticas públicas/sociais
l
é falar da relação entre o Estado, 'a
so 'iecl<1.dee a economia no capitalismo, ou seja, falar dessa relação no interior
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texto, em sua continuidade, trará esclarecimentos sobre a terminologIa "polftlcas
pLiblicas" e "polfticas sociais".
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PSICOLOGIA, SUB)E1'IVIDADE E POUTICAS PÚBUCAS
da relação capital-trabalho. Nesse sentido, políticas públicas sociais devem ser
consideradas
à
luz das relações de classe em uma determinada sociedade.
Em toda história de desenvolvimento do capitalismo, observa-se a dinâ-
mica estrutural, que situa as classes sociais na contradição fundamental que
movimenta a sociedade e permite a acumulação do capital; e, ao mesmo tem-
po e COlUO resultado dessa dinâmica estrutural, observa-se o Estado em seu
papel de organiz<1ção social e política e manutenção ideológica do sistema
,capitalista. Os preceitos básicos que predominam nesse processo são os do
liberalismo, seja na definição do mercado, seja na definição do lugar dos in-
divíduos e das instituições, entre elas o Estado.
Dessa forma, no contexto do capitalismo, aparecem as pollticas sociais
como maneira de concretizar a relação indivíduo e sociedade, o que se por
meio da relaç1io entre o Estado, como representante da sociedade e, nesse
sentido, expressando suas contradições, e o bem-estar dos indi'víduos. A no-
ção de bem-estar, introduzida pela economia como um dos critérios de ava-
liação da organização econÔmica da sociedade, traz, como se verá adiante, um
viés subjetivo pára essa avaliação, o que será importante considerar para c('-
meçar a identificar 'a dimensão subjetiva presente nessa realidade.
No capitalismo concorrencial, tenta-se a realização da máxima da liber-
dade capitalista: livre concorrência, livre consumo, livre venda da força de
trabalho. Entretanto, desde o início essa máxima revelou seus limites concre-
tos e a ideologia liberal teve que fornecer elementos para colaborar na tenta-
tiva de driblar as inconsistências e insistir na organização da sociedade via leis
do mercado.
Um
primeiro aspecto dessa ideologia que aparece
é
a valorização do
trabalho. A vadIagem
é
perseguida, condenada. Os indivíduos são livres, mas
não devem, entretanto, ficar
à
margem do mercado, não'têm essa liberdade;
.devem par;ticipar, obrigatoriamente, da venda livre da força de trabalho e do
livre consumo,
Asteorias do bem-estar desse período têm uma perspectiva econômica
qUe, no entanto, como dissemos, inclui um viés subjetivo. A
teoria do bem-es-
tar econômico, conforme Faleiros(2000b), identifica o bem-estar com o
consumo qUe traz felicidade para o indivíduo, com a satisfação de seus de-
sejos e preferências pessoais, garantida a livre escolha, num sistema de livre
competiUva dos bens no mercado, determinando a distribuição lucrativa e
não de acordo com as necessidades reais de consumo. Isso resulta em uma
situação em que sempre trabalhadores sem meios de sobrevivência.
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condições de acesso ao mercado. A mesma situação faz com que o trabalho
não seja realmente escolhido. mas imposto nas condições que interessam aos
donos dos meios de produção.
Como decorr!ncia, impõe-se a necessidade de garantir condições mini-
m~ de vida aos trabalhador.es, seja para garantir a reprodução da Corça de
trabalho. seja para manter os nlveis necessários de consumo para a continui.
dade da produção
e
acumulação de capital. l! nesse contexto estrutural. de
contradição entre capital e trabalho. que as necessidades básicas dos trabalha-
dores vão se transformando. em maior ou menor grau, por questões conjun-
turais. em direitos sociais.
Os direitos sociais têm. então, como sujeitos. os trabalhadores. sendo que
uma parte deles refere-se aos trabalhadores que têm trabalho remunen\do
(assalariado ou autônomo) e outra parte refere-se aos trabalhadores sem em-
prego (Slngcr, 2003).
Podemos dizer que a noção de direitos sociais constituirá outro viés
subjetivo de avaliação da organização da sociedade capitalista, na medida em
que trará para a cena social a perspectiva do trabalho. Se a noção inicial, de
bem-estar individual, na verdade representa o capital c seus interesses. na
produção e no consumo, a conquista, pelos trabalhadores, dos direitos sociais,
representa os interesses do trabalho. E os representa como conquista objetiva,
mas, também, como conquista no âmbito do viés subjetivo: não basta a satis-
fação individual de desejos.
é
preciso que se estenda a satisfação às necessida-
des básicas, fundamentais e de direito a
todos
os trabalhadores. A medida de
nvaUação do bem-estar se ampUa para uma nova percepção. a do coletivo
social que. compartilha necessidades e desejos.
Essa conquista vaJ se dando atravessada pela contradição fundamental
do capitaUsmO, que delimita e configura as condições de trabalho. as posdbi-
!idades de consumo, as relações sociais e os embates nesse campo.
No Inicio do capitalismo. as questões relativas às necessidades dos tra.
balhadores aparedam socialmente muito mais no que diz respeito aos que não
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MARIA DA GRAÇA M. GONÇALVes
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avaliação do bem-estar
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", alrenda; de fo~m~ global e não sU3?istribuição: se aumenta o bem-estar e a
partic1paç.;o
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pobres na distribuição da riqueza não diminui, o bem-estar
é
aumentado.
Ou
seja, o bem-estar da sociedade depende do bem-estar dos
individuas que a compõem e cada indivf~uo
é
o melhor juiz de seu bem4cs-
tari c. se um individuo tiver um bem-estar superior ao dos demais, sem que
o bem-estar desses diminua, então o bem-estar da sociedade cresceu (teoria
do
crescimento constante).
Nessa perspectiva, os indivíduos são as moléculas
sociais do sistema econômico. A elite representa os mais capazes. os que
enriqueceram.
Essa concepção valoriza. dessa forma. as noções fundamentais do libe-
ralismo econOmico. que v~ no mercado a regulação natural da economia c da
socledade. Co~o decorr~ncia. os conceitos de
utilidade
e
otimização,
que
combinam lucro e satisfação do consumidor (preferências e preços). são cri-
ttrios de avaliação econÔmica e. ao mesmo tempo. social. A questão do
bem.estar econÔmico seria equacionada pela relação entre os preços e os
gastos de cada indivíduo. entendendo-se o preço como medida da utilidade,
definida no merendo pelo grau de satisfação dos consumidores individuais.
Ou seja, é um~ perspectiva que tem como critério de avaliação os indivíduos
c sua satisfação. .
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Os limites ~cssa teoria desde logo se revelaram. Mostrou:se uma pen;-
pectiva teórica. na medida em que a defesa dos interesses do capital implicou
uma organização crescente de monopólios. minando cada vez mais as possi-
bilidades da nlivre concorrência': Além disso, tal teoria supunha uma separa-
ção entre produção e consumo; não foram consideradas questões rel~.t1vas ao
controle da força de traballio e não foi abordado o problema da d1strlbuJçio
de renda.
Isso ocorre;e vai sendo evidenciado porque uma das caracterlsticas pró-
prias do modo de produção capitalista
é
a impossibUidade de contar. na or-
ganização econOmica da sociedade. com uma situação em que todos os tra-
balhadores tenham emprego e todos os trabalhadores autOnomos tenham
sucesso no mercado. Faz parte da estrutura capitalista a produção de exceden-
~e que limita a necessidade de produção. por um lado e, por outro. a venda
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PSICOLOGIA. SUBIllTIVIDADE E POt1TICAS PúauCAS
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