Aprender Antropologia (François Laplantine)
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Aprender Antropologia (François Laplantine)


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a´reas da antropologia, ou, mais
especificamente, as duas vias de acesso privilegiadas ao conhecimento das so-
0Non-civilise´s ou Semi-civilise´s) Le Rameau d\u2019Or (1981-1984). Uma corresponde\u2c6ncia
intensa circula entre os pesquisadores e os novos residentes europeus que lhes mandam
uma grande quantidade de informac¸o\u2dces e le\u2c6em em seguida seus livros.
2Este u´ltimo distingue tre\u2c6s esta´gios de evoluc¸a\u2dco da humanidade \u2013 selvageria, barba´rie,
civilizac¸a\u2dco \u2013 cada um dividido em tre\u2c6s per´\u131odos, em func¸a\u2dco notadamente do crite´rio tec-
nolo´gico
3Se o evolucionismo antropolo´gico tende a aparecer hoje como a transposic¸a\u2dco ao n´\u131vel
das cie\u2c6ncias humanas do evolucionismo biolo´gico (A Origem das Espe´cies, de Darwin, 1859)
que teria servido de justificac¸a\u2dco ao primeiro, notemos que o primeiro e´ bem anterior ao
segundo. Vico elabora sua teoria das tre\u2c6s idades (que anuncia Condorcet, Comte, Morgan,
Frazer) no se´culo XVIII, e Spencer. fundador da forma mais radical de evolucionismo
sociolo´gico, publica suas pro´prias teorias antes de ter lido A Origem das Espe´cies.
50 CAPI´TULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:
ciedades na\u2dco ocidentais; elas permanecem ainda, notamo-lo, os dois nu´cleos
resistentes da pesquisa dos antropo´logos contempora\u2c6neos.
1) A Austra´lia ocupa um lugar de primeira importa\u2c6ncia na pro´pria cons-
tituic¸a\u2dco da nossa disciplina (cf. Elkin, l967), pois e´ la´ que se pode apreender
o que foi a origem bsoluta das nossas pro´prias instituic¸o\u2dces.4
2) No estudo dos sistemas de parentesco, os pesquisadores dessa e´poca pro-
curam principalmente evidenciar a anterioridade histo´rica dos sistemas de
filiac¸a\u2dco matrilinear sobre os sistemas patrilineares. Por deslize do pensa-
mento, imagina-se um matriarcado primitivo, ide´ia que exerceu tal Influe\u2c6ncia
que ainda hoje alguns continuam inspirando-se nela (cf. em especial Evelyn
Reed, Feminismo e Antropologia, (trad. franc. 1979), um dos textos de re-
fere\u2c6ncia do movimento feminista nos Estados Unidos).
3) A a´rea dos mitos, da magia e da religia\u2dco detera´ mais nossa atenc¸a\u2dco, pois
perece-nos reveladora ao mesmo tempo da abordagem e do esp´\u131rito do evolu-
cionismo. Notemos em primeiro lugar que a maioria dos antropo´logos desse
per´\u131odo, absolutamente confiantes na racionalidade cient´\u131fica triunfante, sa\u2dco
na\u2dco apenas agno´sticos mas tambe´m deliberadamente anti-religiosos. Mor-
gan, por exemplo, na\u2dco hesita em escrever que \u201dtodas as religio\u2dces primitivas
sa\u2dco grotescas e de alguma forma inintelig´\u131veis\u201d, e Tylor deve parte de sua
vocac¸a\u2dco a uma reac¸a\u2dco visceral contra o espiritualismo de seu meio. Mas e´
certamente o Ramo de Ouro, de Frazer (trad. fr. 1981-1984),5 que realiza
a melhor s´\u131ntese de todas as pesquisas do se´culo XIX sobre as \u201dcrenc¸as\u201de
\u201dsuperstic¸o\u2dces\u201d.
4Desde a e´poca de Morgan, a Austra´lia continuou sendo objeto de muitos escritos,
va´rias gerac¸o\u2dces de pesquisadores expressando literalmente sua estupefac¸a\u2dco diante da dis-
torc¸a\u2dco entre a simplicidade da cultura material desses povos, os mais \u201dprimitivos\u201de mais
\u201datrasados\u201ddo mundo, vivendo na idade da pedra sem metalurgia, sem cera\u2c6mica, sem
tecelagem, sem criac¸a\u2dco de animais... e a extrema complexidade de seus sistemas de paren-
tesco baseados sobre relac¸o\u2dces minuciosas entre aquilo que e´ localizado na natureza (animal,
vegetal) e aquilo que atua na cultura: o \u201dtotemismo\u201d.
Quando Durkheim escreve Les Formes E\u2c6le´mentaires de la Vie Religieuse (1912) baseia-se
essencialmente sobre os dados colhidos na Austra´lia por Spencer e Gillen. Quando Roheim
(trad. franc. 1967) decide refutar a hipo´tese colocada por Malinowski da inexiste\u2c6ncia do
complexo de E\u2c6dipo entre os primitivos, escolhe a Austra´lia como terreno de pesquisa.
Poder´\u131amos assim multiplicar os exemplos a respeito desse continente que exerceu (junto
com os \u131´ndios) um papel ta\u2dco decisivo. Um papel decisivo inclusive, a meu ver, menos para
compreender a origem da humanidade dn nue a da reflexa\u2dco antropolo´gica.
5Frazer era, inclusive, mais reservado sobre o feno\u2c6meno religioso do que os dois autores
anteriores, ja´ que ve\u2c6 nesse um feno\u2c6meno recente, fruto de uma evoluc¸a\u2dco lenta e dizendo
respeito a \u201desp´\u131ritos superiores\u201d
51
Nessa obra gigantesca, publicada em doze volumes de 1890 a 1915 e que
e´ uma das obras mais ce´lebres de toda a literatura antropolo´gica,6 Frazer
retrac¸a o processo universal que conduz, por etapas sucessivas, da magia
a` religia\u2dco, e depois, da religia\u2dco a` cie\u2c6ncia. \u201dA magia\u201d, escreve Frazer, \u201dre-
presenta uma fase anterior, mais grosseira, da histo´ria do esp´\u131rito humano,
pela qual todas as rac¸as da humanidade passaram, ou esta\u2dco passando, para
dirigir-se para a religia\u2dco e a cie\u2c6ncia\u201d. Essas crenc¸as dos povos primitivos
permitem compreender a origem das \u201dsobrevive\u2c6ncias\u201d(termo forjado por Ty-
lor) que continuam existindo nas sociedades civilizadas. Como Hegel, Frazer
considera que a magia consiste num controle iluso´rio da natureza, que se
constitui num obsta´culo a` raza\u2dco. Mas, enquanto para Hegel, a primeira e´
um impasse total, Frazer a considera como religia\u2dco em potencial, a qual dara´
lugar por sua vez a` cie\u2c6ncia que realizara´ (e esta´ ate´ comec¸ando a realizar) o
que tinha sido imaginado no tempo da magia.
* * *
O pensamento evolucionista aparece, da forma como podemos ve\u2c6-lo hoje,
como sendo ao mesmo tempo dos mais simples e dos mais suspeitos, e as
objec¸o\u2dces de que foi objeto podem organizar-se em torno de duas se´ries de
cr´\u131ticas:
1) mede-se a importa\u2c6ncia do \u201datraso\u201ddas outras sociedades destinadas, ou
melhor, compelidas a alcanc¸ar o pelota\u2dco da frente, em relac¸a\u2dco aos u´nicos
crite´rios do Ocidente do se´culo XIX, o progresso te´cnico e econo\u2c6mico da nossa
sociedade sendo considerado como a prova brilhante da evoluc¸a\u2dco histo´rica
da qual procura-se simultaneamente acelerar o processo e reconstituir os
esta´gios. Ou seja, o \u201darca´\u131smo\u201dou a \u201dprimitividade\u201dsa\u2dco menos fases da
Histo´ria do que a vertente sime´trica e inversa da modernidade do Ocidente;
o qual define o acesso entusiasmante a` civilizac¸a\u2dco em func¸a\u2dco dos valores
da e´poca: produc¸a\u2dco econo\u2c6mica, religia\u2dco monote´\u131sta, propriedade privada,
6Le Rameau d\u2019Or e´ uma obra de refere\u2c6ncia como existem poucas em um se´culo. E´
quanto a isso compara´vel a` Origem das Espe´cies, de Darwin. Exerceu uma influe\u2c6ncia
considera´vel tanto sobre a filosofia de Bergson e escola francesa de sociologia sobre o pen-
samento antropolo´gico de Freud que, em Totem e Tabu. retira grande parte de seus mate-
riais etnogra´ficos dessa obra que todo home 11 culto da e´poca vitoriana tinha obrigac¸a\u2dco de
conhecer. Quanto a seu autor, alcanc¸ou durante sua vida uma glo´ria na\u2dco apenas brita\u2c6nica,
mas internacional, que muito poucos etno´logos \u2013 fora Malinowski, Margaret Mead o Le´vi-
Strauss \u2013 conheceram.
52 CAPI´TULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:
fam\u131´lia monoga\u2c6mica, moral vitoriana
2) o pesquisador, efetuando de um lado a definic¸a\u2dco de seu objeto de pes-
quisa atrave´s do campo emp´\u131rico das sociedades ainda na\u2dco ocidentalizadas,
e, de outro, identificando-se a`s vantagens da civilizac¸a\u2dco a` qual pertence, o
evolucionismo aparece logo como a justificac¸a\u2dco teo´rica de uma pra´tica: o co-
lonialismo. Livingstone, missiona´rio que, enquanto branco, isto e´, civilizado,
na\u2dco dissocia os benef´\u131cios da te´cnica e os da religia\u2dco, pode exclamar: \u201dVie-
mos entre eles enquanto membros de uma rac¸a superior e servidores de um
governo que deseja elevar as partes mais degradadas da fam\u131´lia humana\u201d. ,
A antropologia evolucionista, cujas ambic¸o\u2dces nos parecem hoje desmedidas,
na\u2dco hesita em esboc¸ar em grandes trac¸os afrescos imponentes, atrave´s dos
quais afirma com arroga\u2c6ncia julgamentos de valores sem contestac¸a\u2dco poss´\u131vel.
A convicc¸a\u2dco da marcha triunfante do progresso e´ tal que, juntando e interpre-
tando fatos provenientes do mundo inteiro (a` luz justamente dessa