Aprender Antropologia (François Laplantine)
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Aprender Antropologia (François Laplantine)


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hipo´tese
central), julga-se que sera´ poss´\u131vel extrair as leis universais do desenvolvi-
mento da humanidade. Assim, encontramo-nos frente a reconstituic¸o\u2dces con-
junturais que te\u2c6m, pelo volume dos fatos relatados, a apare\u2c6ncia de um corpus
cient´\u131fico, mas assemelham-se muito, na realidade, a` filosofia do se´culo ante-
rior; a qual na\u2dco tinha pore´m a preocupac¸a\u2dco de fundamentar sua reflexa\u2dco na
documentac¸a\u2dco enorme que sera´ pela primeira vez reunida pelos homens do
se´culo XIX.
Essa preocupac¸a\u2dco de um saber cumulativo visa na realidade a demonstrar a
veracidade de uma tese mais do que a verificar uma hipo´tese, os exemplos
etnogra´ficos sendo frequ¨entemente mobilizados apenas para ilustrar o pro-
cesso grandioso que conduz as sociedades primitivas a se tornarem socieda-
des civilizadas. Assim, esmagados sob o peso dos materiais, os evolucionistas
consideram os feno\u2c6menos recolhidos (o totemismo, a exogamia, a magia, o
culto aos antepassados, a filiac¸a\u2dco matrilinear. . .) como costumes que ser-
vem para exemplificar cada esta´gio. E quando faltam documentos, alguns
(Frazer) fazem por intuic¸a\u2dco a reconstituic¸a\u2dco dos elos ausentes; procedimento
absolutamente oposto, como veremos mais adiante, ao da etnografia contem-
pora\u2c6nea, que procura, atrave´s da introduc¸a\u2dco de fatos minu´sculos recolhidos
em uma u´nica sociedade, analisar a significac¸a\u2dco e a func¸a\u2dco de relac¸o\u2dces sociais.
Isso colocado, como e´ fa´cil \u2013 e ate´ irriso´rio \u2013 desacreditar hoje todo o trabalho
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que foi realizado pelos pesquisadores \u2013 eruditos da e´poca evolucionista.7 Na\u2dco
custa muito denunciar o etnocentrismo que eles demonstraram em relac¸a\u2dco
aos \u201dpovos atrasados\u201d, evidenciando assim tambe´m, um singular esp´\u131rito a-
histo´rico \u2013 e etnocentrista \u2013 em relac¸a\u2dco a eles, sendo que e´ provavelmente
que, sem essa teoria, empenhada em mostrar as etapas do movimento da
humanidade (teoria que deve ser ela pro´pria considerada como uma etapa
do pensamento sociolo´gico), a antropologia no sentido no qual a praticamos
hoje nunca teria nascido.
Claro, nessa e´poca o antropo´logo raramente recolhe ele pro´prio os materi-
ais que estuda e, quando realiza um trabalho de coleta direta,8 e´ antes no
decorrer de expedic¸a\u2dco visando trazer informac¸o\u2dces, do que de estadias tendo
por objetivo o de impregnar-se das categorias mentais dos outros. O que
importa nessa e´poca na\u2dco e´ de forma alguma a problema´tica de etnografia
enquanto pra´tica intensiva de conhecimento de uma determinada cultura, e´
a tentativa de compreensa\u2dco, a mais extensa poss´\u131vel no tempo e no espac¸o,
de todas as culturas, em especial das \u201dmais long´\u131nquas\u201de das \u201dmais desco-
nhecidas\u201d, como diz Tylor.
Na\u2dco poder´\u131amos finalmente criticar esses pesquisadores da segunda metade
do se´culo XIX por na\u2dco terem sido especialistas no sentido atual da palavra
(especialistas de uma pequena parte de uma a´rea geogra´fica ou de uma mi-
crodisciplina de um eixo tema´tico). Eles se recusavam a atuar dessa forma,
julgando que observadores conscienciosos, guiados a dista\u2c6ncia por cientistas
preocupados em criticar fontes, eram capazes de recolher todos os materi-
ais necessa´rios, e sobretudo considerando implicitamente que a antropologia
tinha tarefas mais urgentes a realizar do que um estudo particular em tal
ou tal sociedade. De fato, eles na\u2dco tinham nenhuma formac¸a\u2dco antropolo´gica
7Da mesma forma que e´ fa´cil reduzir toda essa e´poca ao evolucionismo (a respeito do
qual conve´m notar que foi muito mais afirmado na Gra\u2dc-Bretanha e nos Estados Unidos
do que nos outros pa´\u131ses). Bastian por exemplo insiste sobre a especificidade de cada
cultura irredut´\u131vel ao seu lugar na histo´ria do desenvolvimento da humanidade. Ratzel
abre o caminho para o que sera´ chamado de difusionismo. Tylor desconfia dos modelos de
interpretac¸a\u2dco simples e un´\u131vocos do social e anuncia claramente a substituic¸a\u2dco da noc¸a\u2dco de
func¸a\u2dco a` causa. No entanto, a teoria da evoluc¸a\u2dco e´ nessa e´poca amplamente dominante,
pelo menos ate´ o final do se´culo no qual comec¸a a mostrar (com Frazer) os primeiros sinais
de esgotamento.
8s pesquisas de primeira ma\u2dco esta\u2dco longe de serem ausentes ne-´\u131a e´poca na qual todos os
antropo´logos na\u2dco sa\u2dco apenas pesquisadores indo de seu gabinete de trabalho a` biblioteca.
Em 1851, Morgan publica as observac¸o\u2dces colhidas no decorrer de uma viagem realizada
por ele pro´prio entre os Iroqueses. Alguns anos mais tarde, Bastian realiza uma pesquisa
no Congo, e Tylor no Me´xico.
54 CAPI´TULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:
(Maine, MacLen-nan, Bachofen, Morgan sa\u2dco juristas; Bastian e´ me´dico; Rat-
zel, geo´grafo), mas como poder´\u131amos critica´-los por isso, ja´ que eles foram
precisamente os fundadores de uma disciplina que na\u2dco existia antes deles?
Em suma, o que me parece eminentemente caracter´\u131stico desse per´\u131odo e´
a intensidade do trabalho que realizou, bem como sua imensa curiosidade.
Durante o se´culo XIX, assistimos a` criac¸a\u2dco das sociedades cient´\u131ficas de et-
nologia, das primeiras cadeiras universita´rias, e, sobretudo, dos museus como
o que foi fundado no pala´cio do Trocadero em 1879 e que se tornara´ o atual
Museu do Homem. E´ ate´ dif´\u131cil imaginar hoje em dia a abrange\u2c6ncia dos co-
nhecimentos dos principais representantes do evolucionismo. Tylor possu´\u131a
um conhecimento perfeito tanto da pre´-histo´ria, da lingu¨´\u131stica, quanto do
que chamar´\u131amos hoje de \u201dantropologia social e cultural\u201ddo seu tempo. Ele
dedicava os mesmos esforc¸os ao estudo das a´reas da tecnologia, do parentesco
ou da religia\u2dco. Frazer, em contato epistolar permanente com centenas de ob-
servadores morando nos quatro cantos do mundo, trabalhou doze horas por
dia durante sessenta anos, dentro de uma biblioteca de 50 mil volumes. A
obra que ele pro´prio produziu estende-se, como diz Leach (1980), em quase
dois metros de estantes.
Atrave´s dessa atividade extrema, esses homens do se´culo passado colocavam
o problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade
das te´cnicas, das instituic¸o\u2dces, dos comportamentos e das crenc¸as, compa-
rar as pra´ticas sociais de populac¸o\u2dces infinitamente distantes uma das outras
tanto no espac¸o como no tempo. Seu me´rito e´ de ter extra´\u131do (mesmo se o
fizerem com dogmatismo, mesmo se suas convicc¸o\u2dces foram mais passionais
do que racionais) essa hipo´tese mestra sem a qual na\u2dco haveria antropologia,
mas apenas etnologias regionais: a unidade da espe´cie humana, ou, como
escreve Morgan, da \u201dfam\u131´lia humana\u201d. Pode-se sorrir hoje diante dessa visa\u2dco
grandiosa do mando,baseada na noc¸a\u2dco de uma humanidade integrada, dentro
da qual concorrem em graus diferentes, mas para chegar a um mesmo n´\u131vel
final, as diversas populac¸o\u2dces do globo. Mas sa\u2dco eles que mostraram pela pri-
meira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos na\u2dco eram
de forma alguma a consequ¨e\u2c6ncia de predisposic¸o\u2dces conge\u2c6nitas, mas apenas o
resultado de situac¸o\u2dces te´cnicas e econo\u2c6micas. Assim, uma das caracter´\u131sticas
principais do evolucionismo \u2013 sera´ que isso foi suficientemente destacado? \u2013
e´ o seu anti-racismo.
Ate´ Morgan (eu teria vontade de dizer sobretudo Morgan) na\u2dco tem a ri-
gidez doutrinai que lhe e´ retroativamente atribu´\u131da. Com ele, o objeto da
antropologia passa a ser a ana´lise dos processos de evoluc¸a\u2dco que sa\u2dco os das
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ligac¸o\u2dces entre as relac¸o\u2dces sociais, jur´\u131dicas, pol´\u131ticas. . . a ligac¸a\u2dco entre
esses diferentes aspectos do campo social sendo em si caracter´\u131stica de um
determinado per´\u131odo da histo´ria humana. A novidade radical da sociedade
arcaica e´ dupla.
1) Essa obra toma como objeto de estudo feno\u2c6menos que ate´ enta\u2dco na\u2dco
diziam respeito a` Histo´ria, a qual, para Hegel, so´ podia ser escrita. Qualifi-
cando essas sociedades de \u201darcaicas\u201d, Morgan as reintegra pela primeira vez
na humanidade inteira; e ao acento sendo colocado sobre o desenvolvimento