Walter Benjamin- Charles Baudelaire Um Lírico no Auge do Capitalismo
262 pág.

Walter Benjamin- Charles Baudelaire Um Lírico no Auge do Capitalismo


DisciplinaHistória Contemporânea I1.202 materiais25.695 seguidores
Pré-visualização50 páginas
não encontra nenhum
PARIS DO SEGUNDO IMPÉRIO 1
3
mais próximo que a construção de barricadas. Hugo fixou, de modo
impressionante, a rede dessas barricadas, deixando na sombra, no
entanto, sua guarnição: "Por toda a parte, a invisível polícia dos
revoltosos vigiava. Mantinha a ordem, ou seja, a noite... Olhos que,
de cima, tivessem olhado essas sombras amontoadas talvez
percebessem, em locais dispersos, uma aparência indistinta que
indicava contornos fragmentados c de traçado arbitrário, perfis de
construções singulares. Nessas ruínas se movia algo semelhante a
luminárias. Nesses locais estavam as barricadas\u201d. 12 Na alocução a
Paris, que permaneceu fragmentária e que deveria fechar As Flores do
Mal, Baude- laire não se despede da cidade sem evocar suas
barricadas; lembra-se de seus \u201cparalelepípedos mágicos que se elevam
para o alto como fortalezas\u201d.13 Naturalmente essas pedras são \u2018\u2018mági-
cas\u201d, uma vez que o poema de Baudelaire não conhece as mãos que
as colocaram em movimento. Mas precisamente esse pathos poderia
ser imputado ao blanquismo, pois, de modo semelhante, clama o
blanquista Tridon: "ó força, rainha das barricadas. . tu, que brilhas no
clarão e no motim. .. é para ti que os prisioneiros estendem as mãos
acorrentadas\u201d.14 Ao fim da Comuna, como animal mortalmente
atingido, o proletariado retornou ta- teante para trás das barricadas.
Responsável pela derrota foi o fato de os operários, adestrados em
lutas de barricadas, não serem favoráveis ao combate aberto que teria
bloqueado caminho a Thiers. Esses operários preferiram \u2014 como
escreve um dos historiadores modernos da Comuna \u2014 "a luta no
próprio quarteirão ao combate aberto e, se preciso, a morte atrás do
calçamento empilhado como barricada, numa rua de Paris\u201d.15
Blanqui, o mais importante dos chefes de barricadas pari siense,
estava na época confinado em sua última prisão, o Fort du Taureau.
Em sua retrospectiva sobre a Revolução de Julho, Marx viu nele, e
em seus companheiros, \u201cos verdadeiros líderes do partido
proletário\u201d.16 Dificilmente se pode exagerar o prestígio
revolucionário que Blanqui então possuía e que manteve até a morte.
Antes de Lênin, não houve quem tivesse aos olhos do proletariado
traços mais distintos. Traços que se gravaram também em Baudelaire.
Há uma folha de sua autoria em que,
1
4
WALTER BENJAMIN
ao lado de outros desenhos improvisados, se mostra a cabeça de
Blanqui,
Os conceitos a que Marx recorre em sua descrição dos ambientes
conspirativos em Paris permitem, com maior razão, reconhecer a
posição ambígua que Blanqui ali ocupava. Se, por um lado, Blanqui
entrou na tradição como \u201cputschista\u201d, há boas razões para isso. Para a
tradição, ele representa o tipo de político que, como diz Marx, vê sua
missão no \u201cantecipar-se ao processo de evolução revolucionário,
impeli-lo por meio de artifícios para a crise, improvisar uma
revolução sem que haja condições para ela'\u2019 . 17 Se, por outro lado.
compararmos descrições que possuímos de Blanqui. então ele
parecerá, antes, um dos habits noirs, em quem os conspiradores viam
os seus malquistos concorrentes. Uma testemunha ocular descreve
assim o clube blanquista de Les Halles: \u201cSe quisermos ter uma idéia
exata da impressão que, desde o primeiro momento, se tinha do clube
revolucionário de Blanqui em comparação com os outros dois clubes
que o partido possuía na época. . ., então o melhor será imaginarmos
o público da Comédie-Française num dia em que são encenados Kacine
e Corneille ao lado da massa humana que lota um circo onde
acrobatas exibem habilidades de risco. Era como estar numa capela
consagrada ao ri to ortodoxo da conspiração. As portas ficavam abertas
a todo o mundo, mas só voltava quem era adepto. Após o aborrecido
desfile dos oprimidos. . . erguia-se o sacerdote daquele lugar. Seu
pretexto era resumir as queixas de seus clientes, do povo representado
pela meia dúzia de imbecis arrogantes e irritados, que justamente
tinham acabado de ser ouvidos. Na verdade, ele explicava a s ituação.
Seu aspecto era distinto e a roupa impecável; a cabeça de forma
delicada, a expressão tranqüila; apenas de vez em quando um lampejo
sinistro e selvagem lhe atravessava os olhos, que eram pequenos,
apertados e penetrantes; em geral, pareciam mais benévolos que
implacáveis. Seu modo de falar era comedido, paternal e inequívoco;
o modo de falar menos declamatório que, junto com o de Thiers ,
jamais ouvi\u201d.18 Nesta descrição, Blanqui aparece como doutrinador.
Os sinais de identificação com os habits noirs se confirmam até nas
pequenas coisas. Era sabido que o "velho" costumava ensinar de luvas
PARIS DO SEGUNDO IMPÉRIO 1
5
pretas.* Porém a seriedade comedida e a impenetrabilidade próprias
de Blanqui aparecem de modo distinto sob a luz em que as coloca
uma observação de Marx. "Eles são \u2014 escreve Marx a respeito
desses conspiradores profissionais \u2014 os alquimistas da revolução e
partilham inteiramente a desordem mental e a estreiteza das idéias
fixas dos antigos alquimistas". 19 Com isso, a imagem de Baudelaire
se apresenta como que por si própria: a badel de enigmas da alegoria
em um, a mania de segredamento do conspirador em outro.
De modo depreciativo, como não poderia deixar de ser, Marx fala
das tavernas onde o conspirador subalterno se sentia em casa. Os
vapores que aí se precipitavam eram também familiares a Baudelaire.
Em meio a eles se desenvolveu o grande poc ma intitulado O Vinho
dos Trapeiros. Sua origem pode ser datada em meados do século.
Naquela época, temas que ressoam nesses versos eram debatidos
publicamente. Certa vez, tratou-se do imposto sobre o vinho. A
Assembléia Constituinte da República tinha prometido sua abolição,
como já prometera em 1830. Em As Lutas de Classe na França, Marx
mostrou que, na remoção desse imposto, comungavam uma exigcncia
do proletariado e uma dos camponeses. O imposto, que onerava o
vinho de mesa no mesmo nível que o mais fino, reduzia o consumo,
"uma vez que estabelecera às portas de todas as cidades de mais de
4.000 habitantes alfândegas municipais e transformara cada cidade
num país estrangeiro com tarifas protecionistas contra o vinho
francês\u201d.20 \u201cNo imposto do vinho \u2014 diz Marx \u2014 o camponês prova
o bouquet do governo.\u201d O imposto, porém, prejudicava igualmente o
habitante da cidade, forçando-o a se dirigir às tavernas da periferia a
fim de encontrar vinho mais barato. Lá era servido o vinho isento de
imposto, o vinho da barreira. Se se pode crer no chefe de seção na
central de polícia, H. A. Frégier, os trabalhadores, cheios de soberba
e insolência, exibiam então todo o seu prazer, como se fora o único a
lhes ser concedido. "Há mulheres que não hesitam em acom-
\u2022 Baudelaire sabia apreciar esses detalhes. ' Por que \u2014 escreve ele \u2014 os pobres
não usam luvas para mendigar? Fariam fortuna. ' (II, p. 424) Atribui o dito a um
desconhecido: ele tem. contudo, o selo de Buude laire.
It> WALTER BENIAMIN
panhar o marido até a barreira, junto com os filhos já em idade de
trabalhar. .. Em seguida, põem-se todos a caminho de casa meio
embriagados e se fingem de mais bcbados do que estão na verdade,
de modo que a todo o mundo fique claro que beberam e que não foi
pouco. Muitas vezes, os filhos imitam o exemplo dos pais".21 Um
observador contemporâneo escreve: "Uma coisa é certa: o vinho da
barreira poupou ao governo muitos choques\u201d.22 O vinho transmite aos
deserdados sonhos de desforra e de glórias futuras. Assim, em O
Vinho dos Trapeiros:
\u201cVé-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,
Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,
E. alheio aos guardas e alcagüetes mais abjetos,
Abrir seu coração em gloriosos projetos.
luramentos profere e dita leis sublimes,
Derruba os maus, perdoa as vítimas dos crimes.
E sob o azul do céu, como um dossel suspenso.
Embriaga se na luz de seu talento imenso.\u201d2*
Maior número de trapeiros surgiu nas cidades desde que, graças
Veridiana
Veridiana fez um comentário
Aqui está desconfigurado. De geral está assim?
0 aprovações
Carregar mais