Walter Benjamin- Charles Baudelaire Um Lírico no Auge do Capitalismo
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Walter Benjamin- Charles Baudelaire Um Lírico no Auge do Capitalismo


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tanto com elas quanto Baudelaire. Não
era a visão arqueológica da catástrofe, base dos sonhos de Hugo, aquilo que realmente o movia. Para ele, a
antigüidade deveria surgir de um só golpe de uma modernidade intacta, tal qual uma Atena da
um Zeus intacto. Meryon fez brotar a imagem antiga da cidade sem desprezar um paralelepípedo.
visão da coisa à qual Baudelaire continuamente se entregara na idéia da modernidade. Admirava Meryon
apaixonadamente.
Ambos tinham afinidades eletivas. Nasceram no mesmo ano; suas mortes estão separadas por meses
apenas. Ambos morreram isolados e seriamente perturbados; Meryon como demente em Charenton;
Baudelaire, afásico, numa clínica particular. A fama sobreveio a ambos tardiamente. Durante
Meryon praticamente teve Baudelaire como único defensor*. Poucas coisas
* No século XX, Meryon encontrou um biógrafo em Geffroy. NSo é
por acaso que a obra-prima deste autor seja uma biografia de Blanqui.
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há nos textos em prosa de Baudelaire que possam rivalizar com o curto
texto que escreveu sobre Meryon. Quando trata de Meryon, reverencia a
modernidade, mas lhe homenageia o rosto antigo. Porque também em
Meryon se interpenetram a antigüidade e a modernidade; também em
Meryon se manifesta inconfundivelmente a forma dessa superposição,
que é a alegoria. Em suas gravuras, a legenda é importante. Se a loucura
tem participação no texto, sua obscuridade apenas sublinha o \u201csignifica-
do\u201d. Apesar de sua sutileza, os versos que Meryon pôs sob a vista da
Pont Neuf estão, como interpretação, em íntima vizinhança com O
Esqueleto Lavrador:
\u201cAqui jaz da velha Pont-Neuf A
exata aparência Toda reformada e
nova Por prescrição recente.
Ó sábios médicos,
Hábeis cirurgiões,
De nós por que não fazer Como com
a ponte de pedra.\u201d60*
Geffroy acerta no centro da obra de Meryon, acerta também na sua
afinidade com Baudelaire, mas acerta sobretudo na fidelidade da
reprodução de Paris \u2014 que logo se converteria em um campo de ruínas
\u2014, quando tenta explicar a singularidade dessas gravuras em \u201cque elas
embora feitas imediatamente a partir da vida, dão impressão de vida já
passada, já extinta
* Meryon começou como oficial de marinha. Sua última água-forte representa o
Ministério da Marinha na Place de la Concorde. Um séquito de cavalos, carruagens e delfins
se lança a partir das nuvens sobre o ministério. Não faltam navios nem serpentes marítimas;
algumas criaturas antropomorfas podem também ser vistas na multidão. Sem rodeios, Geffroy
encontra o "significado\u201d da gravura, sem se deter na forma da alegoria: \u201cSeus sonhos se
arrojam sobre esse prédio firme como uma fortaleza. Ali, durante sua juventude, quando se
achava ainda em navegação de longo curso, foram registradas as datas de sua carreira oficial.
E agora se despede dessa cidade, dessa casa, pelas quais sofreu tanto." (Gustave Geffroy,
Charles Meryon, loc. cit., p. 161.)
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ou prestes a morrer\u201d.61* O texto de Baudelaire sobre Meryon dá a
entender sub-repticiamente a significação dessa antigüidade parisiense:
\u201cRaramente vimos representada com maior força poética a solenidade
natural de uma cidade grande: a majestade da pedra acumulada, as
torres das igrejas cujos dedos apontam para o céu, os obeliscos da
indústria despachando para o firmamento seus batalhões de fumaça,**
os andaimes que paradoxalmente assentam sobre os blocos maciços das
construções em reparo, sua estrutura cravejada e com a forma de teia de
aranha, o céu nevoento e prenhe de cólera e rancor e as profundas
perspectivas, cuja poesia reside nos dramas com que se lhe equipa o
espírito \u2014 não é esquecido nenhum dos elementos complexos que
compõem o doloroso e glorioso ornato da civilização\u201d.62 Entre os
projetos cujo fracasso devemos lamentar como perda está o do editor
Delâtre, que contava publicar a série de Meryon acompanhada por
textos de Baudelaire. Que esses textos não se escrevessem, deve-se ao
trabalhador; ele não podia imaginar a tarefa de Baudelaire senão como
um inventário das casas e dos arruamentos por ele reproduzidos. Se
Baudelaire tivesse se dedicado a esse trabalho, então as palavras de
Proust sobre \u201co papel das cidades antigas na obra de Baudelaire e a cor
escarlate que por vezes transmitem à sua obra\u201d,63 seriam hoje mais
claras. Entre tais cidades, Roma ocupa para ele o primeiro lugar. Num
artigo sobre Leconte de Lisle, confessa sua \u201cnatural predileção\u201d por
essa cidade. Provavelmente, deve essa predileção às paisagens de
Piranesi, nas quais as ruínas não restauradas aparecem ainda junto da
cidade moderna.
O soneto que figura como o trigésimo nono de As Flores do Mal
começa assim:
\u201cEstes versos te dou para que, se algum dia,
Feliz chegar meu nome às épocas futuras
* O desejo de conservar o \u201crastro" tem a mais decisiva participação nessa arte. O
título de Meryon para a seqüência das gravuras mostra uma pedra rachada com os rastros
impressos de plantas fósseis.
** Cf. a observação crítica de Pierre Hamp: \u201cO artista... admira as colunas do templo
babilónico e despreza a chaminé da fábrica.\u201d (Pierre Hamp, La littérature, image de la
societé, in: Encyclopédie française, vol. 16, Paris, 1935, fase. 16. 64-1.)
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E lá fizer sonhar as humanas criaturas,
Nau que um esplêndido aquilão ampara e guia,
Tua memória, irmã das fábulas obscuras,
Canse o leitor com pertinaz monotonia.\u201d64
Baudelaire quer ser lido como um escritor da antigüidade. Essa
pretensão foi satisfeita espantosamente rápido. Pois o distante futuro, as
\u201cépoques lointaines\u201d de que fala o soneto chegaram; e tantos decênios
após sua morte quantos Baudelaire imaginaria séculos. Decerto Paris
ainda está de pé; e as grandes tendências do desenvolvimento social
ainda são as mesmas. Porém o fato de terem permanecido estáveis torna
mais frágil, em sua experiência, tudo que estivera sob o signo do
\u201cverdadeiramente novo\u201d. A modernidade é o que fica menos parecido
consigo mesmo; ^ a antigüidade \u2014 que deveria estar nela inserida \u2014
apresenta, em realidade, a imagem do antiquado. \u201cDe novo encontramos
Herculano sob as cinzas; uns poucos anos, porém, soterram os costumes
de uma sociedade e o fazem melhor do que toda a lava dos vulcões.\u201d63
A antigüidade de Baudelaire é romana. Só num ponto a antigüidade
grega sobressai em seu universo. A Grécia fomece-lhe a imagem da
heroína que lhe parecia digna e capaz de ser transferida para a
modernidade. Nomes gregos \u2014 Delfina e Hipólita
\u2014 são dados às figuras femininas num dos maiores e mais famosos
poemas de As Flores do Mal, dedicado ao amor lésbico. A lésbica é a
heroína da modernidade. Nela um ideal erótico de Baudelaire \u2014 a
mulher que evoca dureza e virilidade \u2014 se combina a um ideal histórico
\u2014 o da grandeza do mundo antigo./ Isso torna inconfundível a posição
da mulher lésbica em As Flores do Mal. Explica como o título de As
lésbicas esteve por muito tempo destinado a essa obra de Baudelaire. De
resto, Baudelaire está muito longe de ter revelado a lésbica para a arte.
Balzac já a conhecia em A Menina dos Olhos de Ouro; Gautier em
Senhorita Maupin; Lelatouche em A Fragoletta-, Baudelaire também a
conheceu através de Delacroix; na crítica dos seus quadros, um tanto
disfarçadamente, fala sobre uma \u201cmanifestação heróica da mulher
moderna na direção do infernal\u201d.66
O tema se origina no sansimonismo que, em suas veleidades cultistas,
com freqüência valorizou a idéia do andrógino. Entre
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elas se arrola o templo que deveria luzir na \u201cCidade Nova\u201d de
Duveyrier. Um adepto da escola faz a seguinte observação: \u201cO templo
deverá representar um andrógino, um homem e uma mulher. .. A
mesma divisão deve ser prevista para a cidade inteira, para todo o reino
e para toda a Terra: haverá o hemisfério do homem e o da mulher\u201d.67
Quanto ao seu conteúdo antropológico, a utopia sansimoniana é mais
assimilável na ordem de idéias de Claire Demar do que nessa
arquitetura
Veridiana
Veridiana fez um comentário
Aqui está desconfigurado. De geral está assim?
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