Walter Benjamin- Charles Baudelaire Um Lírico no Auge do Capitalismo
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Walter Benjamin- Charles Baudelaire Um Lírico no Auge do Capitalismo


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essa conhecida estrofe; seu
movimento capta os navios atracados no canal. Ser acalentado
PARIS DO SEGUNDO IMPÉRIO
entre os extremos, como é privilégio dos navios \u2014 eis o anseio de
Baudelaire. A imagem dos navios surge quando se trata do ideal
profundo, secreto e paradoxal de Baudelaire: ser levado, ser acolhido
pela grandeza. \u201cEsses belos e grandes navios que balouçam
imperceptivelmente nas águas calmas, esses navios robustos que
parecem tão nostálgicos e ociosos \u2014 será que não nos perguntam num
linguajar mudo: \u2018Quando partimos para a felicidade?\u2019 \u201d.78 Nesses navios
se unem a indolência e a disposição para um extremo desdobramento de
forças. Isso lhes confere uma significação secreta. Há uma constelação
especial de circunstâncias onde, também no ser humano, se reúnem
grandeza e indolência. Ela governa a existência de Baudelaire. Ele a
decifrou, denominando-a \u201ca modernidade\u201d. Quando se perde no
espetáculo dos navios no ancoradouro, é para neles colher uma
metáfora. O herói é tão forte, tão engenhoso, tão harmonioso, tão bem
estruturado como esses navios. Para ele, contudo, o alto-mar acena em
vão. Pois uma má estrela paira sobre sua vida. A modernidade se revela
como sua fatalidade. Nela o herói não cabe; ela não tem emprego algum
para esse tipo. Amarra-o para sempre a um porto seguro; abandona-o a
uma eterna ociosidade. Nessa sua derradeira encarnação, o herói aparece
como dândi. Quando nos deparamos com uma dessas figuras que, graças
à sua energia e serenidade, são perfeitas em cada gesto, dizemos:
\u201cAquele que lá vai talvez seja um rico, mas, com toda a certeza, nesse
trauseunte se esconde um Hércules para quem não há nenhum
trabalho\u201d.79 Age como se fosse levado pela própria grandeza. Assim se
compreende a crença de Baudelaire de que sua flânerie, em certas horas,
se revestisse da mesma dignidade que a tensão de sua força poética.
Para Baudelaire, o dândi se apresentava como descendente de grandes
antepassados. O dandismo é para ele \u201co último brilho do heróico em
tempos de decadência\u201d.80 Agrada-lhe descobrir em Chateaubriand uma
alusão a dândis índios \u2014 testemunho da antiga época de florescimento
daquelas raças. Na verdade, é impossível desconhecer nos traços
reunidos no dândi uma assinatura histórica bem definida. O dândi é uma
criação dos ingleses, que eram líderes do comércio mundial. A rede de
comércio que envolve o globo terrestre estava nas mãos dos espe
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culadores da Bolsa de Londres; suas malhas percebiam as mais variadas,
as mais repetidas, as mais insuspeitadas vibrações. O negociante tinha de
reagir diante dessas vibrações, mas sem trair suas reações. O conflito
que assim se gerava foi utilizado pelos dândis na própria encenação.
Elaboraram o engenhoso treinamento necessário para dominar esse
conflito. Aliaram a reação fulminante a atitudes e mímicas relaxadas e
mesmo indolentes. O tique, por algum tempo considerado distinto, é, até
certo modo, a representação desajeitada e subalterna do problema.
Assim, a seguinte observação é muito significativa: \u201cO rosto de um
homem elegante deve sempre ter. .. alguma coisa de convulsivo e
torcido. Pode-se, caso se queira, atribuir esses trejeitos a um satanismo
natural\u201d.81 Assim um freqüentador de bulevares parisienses imaginava a
figura do dândi londrino, assim ela se refletia fisionomicamente em
Baudelaire. Seu amor pelo dandismo não foi feliz. Não tinha o dom de
agradar, um elemento tão importante na arte de não agradar do dândi.
Elevando à categoria de afetação o que nele, por natureza, devia parecer
estranho, chegou assim ao mais profundo abandono, já que com seu
crescente isolamento sua inacessibilidade também se tomou maior.
Baudelaire não encontrou, como Gautier, satisfação em sua época;
nem como Leconte de Lisle pôde enganar-se com relação a ela. Para
ele, o idealismo humanitário de um Lamartine ou de um Hugo não
estava disponível; nem lhe foi dado, como a Verlaine, refugiar-se na
devoção. Como não possuía nenhuma convicção, estava sempre
assumindo novos personagens. Flâ- neur, apache, dândi e trapeiro, não
passavam de papéis entre outros. Pois o herói moderno não é herói \u2014
apenas representa o papel do herói. A modernidade heróica se revela
como uma tragédia onde o papel do herói está disponível. Indicou-o o
próprio Baudelaire à margem de Os Sete Velhos, veladamente como
numa nota.
\u201cCerta manhã, quando na rua triste e alheia,
As casas, a esgueirar-se no úmido vapor,
Simulavam dois cais de um rio em plena cheia,
E em que, cenário semelhante à alma do ator,
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Uma névoa encardida enchia todo o espaço,
Eu ia, qual herói de nervos retesados,
A discutir com meu espírito ermo e lasso Por vielas
onde ecoavam carroções pesados.\u201d82
Cenário, ator e herói estão reunidos nessas estrofes de maneira
inequívoca. Os contemporâneos não precisavam dessa indicação. Ao
pintá-lo, Coubert reclama que a cada dia Baudelaire tem uma aparência
diferente. E Champfleury lhe atribui o dom de dissimular a expressão
do rosto como um fugitivo das galés.83 Em seu maldoso necrológio,
testemunha de perspicácia, Vallès chamou Baudelaire de cabotino.
Por detrás das máscaras que usava o poeta em Baudelaire guardava o
incógnito. O tanto que tinha de provocador no trato, tinha de prudente
em sua obra. O incógnito é a lei de sua poesia. Sua versificação é
comparável à planta de uma grande cidade, na qual alguém pode
movimentar-se despercebido, encoberto por quarteirões de casas, portais,
cocheiras e pátios. Nessa planta indicam-se às palavras seu lugar exato,
como aos conspiradores antes da eclosão da revolta. Baudelaire conspira
com a própria língua, calcula os seus efeitos passo a passo. Que sempre
tenha evitado descobrir-se frente ao leitor atraiu os mais capazes. Gide
observa um desacordo muito calculado entre imagem e objeto.84 Rivière
acentuou como Baudelaire parte da palavra distante, como a faz
apresentar-se de leve enquanto a aproxima cautelosamente da coisa.85
Lemaitre fala de formâs constituídas de modo a impedir a erupção da
paixão,86 e Lafor- gue põe em relevo a metáfora baudelairiana que, por
assim dizer, desmente a pessoa lírica e penetra no texto como des-
mancha-prazeres. \u201cA noite se adensava igual a uma clausura\u201d \u2014
\u201coutros exemplos se acham em abundância\u201d,87 acrescenta La- forgue.*
* Exemplos dessa abundância:
\u201c Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga." (P. 101)
\u201cTeu colo vitorioso é como um belo armário." (P. 231)
\u201cComo um soluço à tona da sangüínea espuma,
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A separação das palavras em umas que pareciam adequadas a um uso
elevado e em outras a serem excluídas do mesmo influía em toda a
produção poética e valia, desde o início, para a tragédia não menos que
para a poesia lírica. Nos primeiros decênios do século XIX essa
convenção se manteve em vigor, sem contestação. Na apresentação de El
Cid, de Lebrun, a palavra quarto suscitou um murmúrio desfavorável.
Otelo, numa tradução de Alfred de Vigny, sofreu um abalo por causa da
palavra lenço, de insuportável menção numa tragédia. Victor Hugo
começara na poesia a nivelar a diferença entre as palavras da linguagem
corrente e as da linguagem elevada. Sainte- Beuve procedera de modo
semelhante. Em Vida de Joseph De- lorme, ele se explica: "Procurei ser
original a meu modo, modestamente, aburguesadamente... Chamei as
coisas da vida íntima pelo seu nome; mas a cabana esteve mais próxima
de mim do que o boudoir".88 Baudelaire ultrapassou tanto o jacobinismo
lingüístico de Victor Hugo quanto as liberdades bucólicas de Sainte-
Beuve. Suas imagens são originais pela vileza dos objetos de
comparação. Espreita o processo banal para aproximar o põético. Fala
do \u201cdifuso terror dessas noites medonhas/Que o peito oprime como um
papel que se amassa\u201d.89 Esses ademanes lingüísticos, típicos do artista
em Baudelaire, só se tornam realmente significativos no alegórico.
Veridiana
Veridiana fez um comentário
Aqui está desconfigurado. De geral está assim?
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