Walter Benjamin- Charles Baudelaire Um Lírico no Auge do Capitalismo
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Walter Benjamin- Charles Baudelaire Um Lírico no Auge do Capitalismo


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um bom teórico, mas como cismador estava
incomparavelmente sozinho. Do cismador tem a estereotipia dos temas, a
firmeza em rejeitar todo estorvo, a disposição de pôr a qualquer hora a
imagem a serviço do pensamento. O cismador, como tipo historicamente
definido, é aquele que é familiar com as alegorias.
Em Baudelaire, a prostituição é o fermento que, em sua fantasia, faz
crescer a massa das cidades grandes.
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Majestade da intenção alegórica: destruição do orgânico e do vivente
\u2014 destruição da ilusão. Deve ser consultada a passagem marcante na
qual Baudelaire se pronuncia sobre a fascinação que exerce sobre ele o
cenário pintado dos teatros. A renúncia ao encantamento do distante é
um elemento decisivo na lírica de Baudelaire. Ele encontrou na primeira
estrofe de A Viagem sua suprema formulação.
Quanto à extinção da ilusão: O Amor à Mentira.
Mártir e A Morte dos Amantes: interior estilo Makart e art noveau.
O arrancar as coisas de seu contexto habitual \u2014 normal com as
mercadorias no estádio de sua exibição \u2014 é um procedimento bastante
característico em Baudelaire. Pertence à destruição dos contextos
orgânicos na intenção alegórica. Cf. Mártir, estrofes 3 e 5, nos temas
sobre a natureza, ou a primeira estrofe de Madrigal triste.
Definição da aura como projeção na natureza de uma experiência
social entre seres humanos: o olhar é retribuído.
A desilusão e o declínio da aura são fenômenos idênticos. Baudelaire
coloca o artifício da alegoria a serviço de ambos.
É coerente com a via-crucis da sexualidade masculina o fato de
Baudelaire sentir, até certo ponto, a gravidez como uma injusta
concorrência.
As estrelas que Baudelaire bane do seu mundo são justamente aquelas
que, em Blanqui, se tornam o cenário do eterno retomo.
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O ambiente objetivo do homem adota, cada vez mais brutalmente, a
fisionomia da mercadoria. Ao mesmo tempo, a propaganda se põe a
ofuscar o caráter mercantil das coisas. À enganadora transfiguração do
mundo das mercadorias se contrapõe sua desfiguração no alegórico. A
mercadoria procura olhar-se a si mesma na face, ver a si própria no
rosto. Celebra sua humanização na puta.
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Deve-se situar a mudança na função da alegoria na economia
mercantil. O empreendimento de Baudelaire foi ó de trazer à luz, na
mercadoria, a aura que lhe é própria. Procurou, de uma maneira heróica,
humanizar a mercadoria. Esse intento tem sua contrapartida na tentativa
burguesa simultânea de humanizar a mercadoria de uma maneira
sentimental: dar à mercadoria, como ao homem, uma casa. Isso era o
que, naquela época, se esperava dos estojos, das capas e dos forros com
que se cobriam os objetos caseiros dos burgueses.
A alegoria de Baudelaire traz, ao contrário da barroca, as marcas da
cólera, indispensável para invadir esse mundo e arruinar suas criações
harmônicas.
O heróico em Baudelaire é a forma sublime em que aparece o
demoníaco, o spleen sua forma infame. Naturalmente essas categorias de
sua \u201cestética\u201d devem ser decifradas. Não podem ficar nisso. \u2014
Anexação do heróico à latinidade antiga.
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O choque como princípio poético de Baudelaire: a estranha esgrima da
cidade dos Quadros Parisienses já não é pátria. Ê palco e país
estrangeiro.
Qual pode ser a imagem da cidade grande se o registro de seus
perigos físicos é ainda tão incompleto como em Baudelaire?
A imigração como uma chave da cidade grande.
Baudelaire nunca escreveu um poema sobre putas a partir de uma puta
(cf. Cartilha para o Citadino).10
A solidão de Baudelaire e a solidão de Blanqui.
A fisiognomonia de Baudelaire como a do ator.
Representar a miséria de Baudelaire diante do pano de fundo de sua
"paixão estética\u201d.
A irascibilidade de Baudelaire faz parte de sua predisposição
destrutiva. Chega-se mais perto da coisa quando, nesses acessos, se
reconhece igualmente um \u201cestranho seccionamento do tempo\u201d.11
O tema básico do art nouveau é a transfiguração da esterilidade. O
corpo é, de preferência, desenhado nas formas que
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precedem a puberdade. Essa idéia deve ser ligada à da interpretação
regressiva da técnica.
O amor lésbico leva a sublimação até o colo feminino e planta o
pendão de lírios do amor \u201cpuro\u201d, que não conhece nem gravidez nem
família.
O título \u201cOs Limbos\u201d talvez deva ser tratado ná primeira parte, de
modo que a cada parte caiba o comentário de um título; a segunda \u201cAs
Lésbicas\u201d, a terceira \u201cAs Flores do Mal\u201d.
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A glória de Baudelaire, ao contrário, por exemplo, da mais recente de
Rimbaud, até agora não conheceu nenhuma queda. A dificuldade
incomum de se chegar perto do cerne da poesia de Baudelaire é que,
para usar uma fórmula nessa poesia nada envelheceu.
A assinatura do heroísmo em Baudelaire: viver no coração da
irrealidade (da ilusão). A isso se soma o fato de que Baudelaire não
conheceu a nostalgia. Kierkegaard!
A poesia de Baudelaire faz aparecer o novo no sempre igual e o
sempre igual no novo.
Deve ser mostrado energicamente como a idéia do eterno retorno
penetra mais ou menos ao mesmo tempo o mundo de Baudelaire, o de
Blanqui e o de Nietzsche. Em Baudelaire, o acento recai sobre o novo
que, com esforço heróico, é extraído do \u201csempre igual\u201d; em Nietzsche,
sobre o \u201csempre igual\u201d que o homem afronta com calma heróica.
Blanqui está muito mais próximo de Nietzsche que de Baudelaire, mas
nele predomina a resignação. Em Nietzsche, essa experiência se projeta
cosmológicamente na tese: já não acontece nada de novo.
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Baudelaire não teria escrito poemas se só tivesse tido os temas
poéticos que os poetas habitualmente têm.
Esse trabalho tem de fornecer a projeção histórica das experiências
que fundamentam As Flores do Mal.
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Observações muito precisas de Adrienne Monnier: o especificamente
francês nele: la rogne (a cólera). Vê nele o revoltado: compara-o a
Fargue:12 \u201cmaníaco, revoltado contra a própria impotência, e sabe-se lá o
quê\u201d. Ela cita também Céline. A gadoiserie (descaramento) é o que há de
francês em Baudelaire.
Mais uma observação de Adrienne Monnier: os leitores de Baudelaire
são os homens. As mulheres não o amam. Para os homens ele significa a
representação e o transcender do lado obsceno em sua vida impulsiva. Se
avançarmos, a paixão de Baudelaire, sob essa luz, será para muitos de
seus leitores o resgate de certos aspectos de suas vidas impulsivas.
Para o dialético, o que importa é ter o vento da história universal em
suas velas. Para ele pensar significa: içar velas. Como estão dispostas,
isso importa. Para ele, palavras são apenas velas. O modo como são
dispostas é o que as transforma em conceito.
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A ressonância ininterrupta que As Flores do Mal até hoje encontra se
liga profundamente a um aspecto definido que a cidade grande tomou
quando, aqui, pela primeira vez, penetrou o verso. É o que menos se
podia esperar. Ressoam em Baudelaire, quando ele evoca Paris em seus
versos, a caducidade e a fragilidade dessa cidade grande, algo talvez
nunca mais completamente indicado do que em O Crepúsculo Matinal;
mas esse aspecto é mais ou menos comum a todos os Quadros Pa-
risienses; ele se manifesta tanto na transparência da cidade quanto o sol a
torna encantada, quanto no efeito de contraste de Sonho Parisiense.
O fundamento decisivo da produção de Baudelaire é uma relação de
tensão em que, nele, se liga uma sensibilidade extremamente elevada a
uma contemplação extremamente concentrada. Teoricamente, essa relação
se reflete na doutrina das correspondances e na doutrina da alegoria.
Baudelaire nunca fez a menor tentativa de estabelecer uma relação
qualquer entre essas suas especulações. A sua poesia nasce da cooperação
dessas duas tendências nele encarnadas. O que foi em primeiro lugar
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assimilado (Pechméja) e continuou atuando na poésie pure foi o lado
sensitivo do seu gênio.
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Veridiana
Veridiana fez um comentário
Aqui está desconfigurado. De geral está assim?
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