Redes-de-Atencao-condicoes-cronicas
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análise dos dados da PNAD/2008 mostrou resultados importantes sobre o 
PSF em relação a atributos e à equidade (221). A população brasileira foi dividida em 
três segmentos de demanda: SUS com PSF, 42,2% de cobertura; SUS sem PSF, 31,9% 
da cobertura; e planos de saúde, 25,9% da cobertura. A renda familiar per capita de 
cada segmento foi de: SUS com PSF, R$ 326,00; SUS sem PSF, R$ 458,00; e planos 
de saúde, R$ 1.396,00. O porcentual de cobertura de pessoas analfabetas foi de: 
SUS com PSF, 23,5%; SUS sem PSF, 17,1%; e planos de saúde, 8,6%. O porcentual 
de cobertura de pessoas com ocupação agrícola foi de: SUS com PSF, 25.4%; SUS 
sem PSF, 14,8%; e planos de saúde, 3,1%. Esses dados evidenciam que o SUS com 
PSF, relativamente, cobre a população mais vulnerável do ponto de vista econômico e 
social. Tomando-se como indicador de acesso o uso regular dos serviços, verificou-se 
que foi de: SUS com PSF, 76,0%; SUS sem PSF, 66,0%; e planos de saúde, 77,2%; 
Isso coloca o acesso ao SUS com PSF bem próximo ao acesso aos planos de saúde 
e bem maior que o acesso ao SUS sem PSF. Do ponto de vista da porta de entrada 
os resultados foram: SUS com PSF, 77,6% com entrada em postos ou centros de 
saúde; SUS sem PSF, 66,7% com entrada em postos ou centros de saúde; planos 
de saúde, 67,3% em consultórios/clínicas que, na maioria das vezes, não são de 
cuidados primários, mas de atenção especializada. Aqui, pode-se concluir que o SUS 
com PSF é superior no atributo de acesso com entrada pela APS. A prevalência do 
uso de consultas médicas por 100 habitantes foi de: SUS com PSF, 64,4%; SUS sem 
PSF, 61,8%; e planos de saúde, 80,4%. Nota-se um maior uso de consultas médicas 
no SUS com PSF que no SUS sem PSF. A prevalência de internações hospitalares foi 
O CUIDADO DAS CONDIÇÕES CRÔNICAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
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de: SUS com PSF, 7,3%; SUS sem PSF, 6,0%; planos de saúde, 8,2%. Aqui, também, 
as internações hospitalares foram maiores no SUS com PSF que no SUS sem PSF e 
foram próximas às hospitalizações dos planos de saúde. O percentual de consultas 
médicas com prescrição de medicamentos foi de: SUS com PSF, 61,8%; SUS sem PSF, 
36,3%; e planos de saúde, 13,4%. O acesso a todos os medicamentos prescritos 
nas consultas médicas foi de: SUS com PSF, 43,2%; SUS sem PSF, 36,3%; e planos 
de saúde, 13,4%. Esses dados mostram que os maiores acessos a todos os medi-
camentos foram do SUS com PSF. A fonte de pagamento pelo uso de serviços foi 
de: SUS com PSF, 86,0% SUS e 13,5% de desembolso direto; SUS sem PSF, 79,3% 
SUS e 19,1% desembolso direto; planos de saúde, 74,4% planos de saúde, 12,2% 
desembolso direto e 13,5% SUS. Dado que o pagamento por desembolso direto 
é muito regressivo e gerador de iniquidades, verificou-se que ele é menor no SUS 
com PSF que no SUS sem PSF. Além disso, constatou-se que 13,5% dos usuários 
de planos de saúde tiveram seus serviços custeados pelo SUS, o mesmo percentual 
de usuários do SUS com PSF que fizeram pagamentos por desembolso direto. Os 
resultados desse estudo da PNAD/2008 evidenciam uma superioridade do SUS com 
PSF em relação ao SUS sem PSF, em todas as variáveis analisadas. Revelam, ademais, 
que o caos do SUS em geral, e o fracasso do PSF em particular, repercutido na mídia, 
quando analisado com rigor, a partir de estudos de amostra domiciliar, está longe 
de ser verdadeiro.
Um estudo comparativo das PNADs 1998 e 2008 em Minas Gerais evidenciou 
que o acesso a consultas médicas anuais, no SUS, aumentou significativamente no 
período, tanto nos homens quanto nas mulheres. As chances de uma criança de até 
1 ano de idade ter acesso a uma consulta médica anual foi de 90%. Quando compa-
rados os acessos a consultas médicas por ano, na população SUS e na população com 
planos privados, verificou-se que embora a probabilidade de se consultar o médico 
seja menor entre indivíduos SUS, a análise temporal revela um aumento do acesso 
na população SUS muito mais expressivo nessa probabilidade entre os indivíduos 
desse grupo em relação àqueles com planos privados. O acesso a consultas médicas 
nos indivíduos de 0 a 5 anos e de mais de 50 anos estão se aproximando do grupo 
com planos privados. Tudo isso se deve, principalmente, ao importante incremento 
do PSF no estado, no período analisado (222). 
Os inequívocos resultados positivos do PSF têm obtido reconhecimento nacional 
e internacional. 
No plano nacional, o PSF, competindo com mais de 140 políticas públicas, ficou 
em 1º lugar no 15º Concurso de Inovações da Gestão Pública Federal, realizado em 
2011, promovido pela Escola Nacional de Administração Pública e pelo Ministério 
do Planejamento, Orçamento e Gestão do Brasil. 
Organização Pan-Americana da Saúde / Organização Mundial da Saúde 
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No plano internacional, um editorial da importante revista médica British Medical 
Journal de novembro de 2010 diz: "O Programa de Saúde da Família é provavelmente 
o exemplo mundial mais impressionante de um sistema de atenção primária integral 
de rápida expansão e bom custo-efetividade... O potencial das reformas em saúde 
do Brasil e, especificamente, do Programa de Saúde da Família, em prover atenção 
à saúde a um custo acessível foi mencionado há 15 ou mais anos atrás no British 
Medical Journal. Em muitos aspectos, aquela promessa foi mais que cumprida, 
mas a história de sucesso da atenção primária à saúde no Brasil continua pouco 
compreendida e ainda fracamente difundida e interpretada para outros contextos. 
Países de renda elevada poderiam aprender como esse programa alterou a intera-
ção com as doenças crônicas, com a demanda por serviços de cuidados terciários 
e com a promoção da saúde...Em muitos aspectos o Brasil acertou: um programa 
de atenção primária custo-efetivo e de larga escala que aborda questões de saúde 
pública típicas de países de baixa renda e daqueles em transição epidemiológica, 
mas também relevante para os países de alta renda. A ascensão política e econômica 
do Brasil no mundo deve englobar seu papel de liderança na atenção primária à 
saúde. Todos temos muito que aprender- façam o sistema funcionar corretamente e 
os resultados virão, mesmo com recursos limitados. Os formuladores de políticas em 
saúde no Reino Unido têm um histórico em observar os Estados Unidos na busca de 
exemplos de inovação na prestação de atenção à saúde, apesar de seus resultados 
relativamente fracos e dos altos custos. Eles poderiam aprender muito voltando seus 
olhares para o Brasil" (223). O triste é que esse editorial se aplicaria, como uma luva, 
a muitos brasileiros que não enxergam ou não querem enxergar a grandeza do PSF.
Macinko (224), após analisar vários estudos avaliativos do PSF no Brasil, considera 
que essa estratégia influiu positivamente no acesso e na utilização dos serviços e teve 
impacto na saúde dos brasileiros. As evidências analisadas mostraram: a redução da 
mortalidade infantil e da mortalidade de crianças menores de 5 anos; o impacto na 
morbidade; a melhoria no acesso e na utilização dos serviços e a satisfação com os 
serviços recebidos; uma orientação "pró-pobres"; a melhoria do desempenho do 
SUS; a criação de um grupo de pesquisadores excelentes em várias partes do país; e 
a contribuição à pratica, à ciência e às políticas internacionais para o renascimento 
do interesse na APS no mundo. 
As evidências produzidas pelos estudos avaliativos apresentados, em diferentes 
regiões do Brasil, indicam, de forma clara, que os resultados do PSF são muito po-
sitivos e superiores aos do modelo tradicional, mesmo atendendo, em geral, a uma 
população de maior vulnerabilidade social. Isso ocorre porque, de um lado, organiza 
processos e produz impactos significativos nos níveis de saúde da população e sobre 
outras políticas como educação e emprego; de outro, porque mostram, a partir, 
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principalmente,