Redes-de-Atencao-condicoes-cronicas
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à saúde pobre para regiões e pessoas pobres. 
A hora é agora. O Brasil contemporâneo que se inscreve como uma das maiores 
economias do mundo não pode se contentar com essas visões restritas porque é 
sempre bom relembrar o ensinamento de Beveridge: políticas públicas exclusivas 
para pobres, são políticas pobres. 
A consolidação da ESF não será uma luta fácil, nem breve. Muito menos barata, 
porque exigirá mais recursos para a atenção primária à saúde. Os recursos públicos 
alocados ao SUS são muito baixos; eles não são suficientes para tornar esse sistema 
público de saúde um sistema universal e gratuito para todos os brasileiros. Mas ha-
vendo vontade política, os recursos atuais são suficientes para fazer uma revolução 
na atenção primária à saúde, com a consolidação da ESF. Se isso for feito, a situação 
de saúde de nossa população melhorará muito. 
A agenda proposta é complexa, mas é viável porque a ESF não é um problema 
sem soluções; a ESF é uma solução com problemas.
O livro está estruturado em oito capítulos.
No Capítulo 1 apresenta-se o conceito de condição de saúde e estabelece-se a 
diferenciação entre condição aguda e crônica. Analisa-se a situação de saúde bra-
sileira que se caracteriza por uma transição demográfica acelerada e uma situação 
epidemiológica de tripla carga de doenças com predomínio relativo forte das condi-
ções crônicas. Caracteriza-se a crise fundamental dos sistemas de saúde do mundo 
e, também, do SUS, que consiste numa incoerência entre a situação de saúde e a 
resposta social do sistema de atenção à saúde. Uma situação de saúde do século XXI, 
O CUIDADO DAS CONDIÇÕES CRÔNICAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
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fortemente dominada pelas condições crônicas, sendo respondida socialmente por 
uma sistema desenvolvido no século XX, focado nas condições e nos eventos agudos.
O Capítulo 2 coloca as redes de atenção à saúde como a resposta dos sistemas 
de atenção à saúde aos desafios colocados pela situação de saúde brasileira. Con-
ceitua redes de atenção à saúde e define seus elementos constitutivos: a população, 
a estrutura operacional (atenção primária à saúde, pontos de atenção secundários 
e terciários, sistemas de apoio, sistema logísticos e sistema de governança) e os 
modelos de atenção à saúde. Faz uma breve incursão no modelo de atenção às 
condições agudas. 
O Capítulo 3 faz um histórico da APS no mundo. Discute as três concepções de 
cuidados primários para mostrar os atributos e as funções que se exigem da APS 
como ordenadora dos sistemas de atenção à saúde e coordenadora das redes de 
atenção. Faz um extenso levantamento das evidências obtidas internacionalmente 
que mostram que os países que adotaram políticas fortes de APS obtiveram melhores 
resultados sanitários e econômicos do que aqueles que não o fizeram. Disseca as 
razões pelas quais a APS não é valorizada política e socialmente nos países e no Brasil.
O Capítulo 4 trata da APS no SUS. Mostra sua evolução histórica, desdobrada 
em sete ciclos, desde o início do século XX até seu ciclo atual da atenção básica. 
Caracteriza o ciclo da atenção básica como aquele em que se implantou e institucio-
nalizou o Programa de Saúde da Família. Com base em evidências científicas atesta 
os grandes resultados que o PSF produziu no SUS, mas indica que o ciclo da atenção 
básica esgotou-se, não pelo fracasso do PSF, mas por não terem sido superados pro-
blemas estruturais que o limitaram. Disseca esses problemas e propõe uma saída para 
frente com a consolidação da ESF que inaugurará um oitavo ciclo evolutivo da APS 
no SUS, o ciclo da atenção primária à saúde. Para que se dê a consolidação da ESF, 
além do discurso oficial, propõe uma agenda ampla de reformas a serem realizadas 
nos próximos anos. Enfatiza que essa agenda deve ser implantada em sua amplitude 
porque problemas complexos como a ESF exigem soluções complexas e sistêmicas.
O Capítulo 5 discute os modelos de atenção às condições crônicas. Apresenta 
o modelo seminal, o modelo de atenção crônica, desenvolvido nos Estados Unidos 
e aplicado em muitos países do mundo e mostra as robustas evidências de que ele 
produz bons resultados sanitários e econômicos. Um segundo modelo mostrado é 
o modelo da pirâmide de riscos, desenvolvido pela Kaiser Permanente e utilizado 
em vários países e que constitui a base da estratificação dos riscos no manejo das 
condições crônicas. Um terceiro modelo considerado é o da determinação social 
de Dahlgren e Whitehead que é proposto para uso no Brasil. Com base nesses três 
modelos constrói-se o modelo de atenção às condições crônicas para aplicação na 
Organização Pan-Americana da Saúde / Organização Mundial da Saúde 
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singularidade de um sistema público universal como o SUS. O modelo de atenção 
às condições crônicas é descrito detalhadamente. 
O Capítulo 6 trata dos níveis 1 e 2 do modelo de atenção às condições crônicas. 
Reconhece que as intervenções, nesses dois níveis, podem ser realizadas nos âmbitos 
macro, meso e microssociais, mas enfatiza, em função de ser um livro sobre APS, as 
ações que devem ser feitas na ESF. No nível 1 de promoção da saúde, as ações devem 
atingir o conjunto da população e ter como lugar o espaço local da área de abran-
gência de uma unidade da ESF. O modo de intervenção é o projeto intersetorial em 
que a ESF vai se articular com outros setores como educação, habitação, segurança 
alimentar, esportes, emprego e renda e outros. No nível 2 de prevenção das condições 
de saúde, as ações vão se destinar a diferentes subpopulações que apresentam fatores 
de risco proximais ligados aos comportamentos e aos estilos de vida. Destacam-se 
cinco fatores proximais: a dieta inadequada, o excesso de peso, a inatividade física, o 
tabagismo e o uso excessivo de álcool. Para cada um desses fatores discute-se a sua 
importância na produção de condições de saúde e apresentam-se intervenções que 
mostraram ser efetivas e custo efetivas no seu manejo na ESF. Faz-se uma incursão 
sobre tecnologias que se mostraram úteis na mudança de comportamentos, como 
o modelo transteórico de mudança, a entrevista motivacional, o grupo operativo e 
a técnica de solução de problemas. 
O Capítulo 7 aborda os níveis 3, 4 e 5 do modelo de atenção às condições crônicas 
que se estruturam para a atenção aos fatores individuais biopsicológicos e para as 
condições crônicas estabelecidas. Esse é o campo da clínica que apresenta uma grave 
crise determinada pela falência do sistema de atenção baseado na consulta médica 
de curta duração. No nível 3 são realizadas intervenções sobre os fatores de risco 
individuais biopsicológicos e sobre as condições crônicas de menor risco segundo o 
modelo da pirâmide de riscos; no nível 4 são feitas intervenções sobre as condições 
crônicas mais complexas; e no nível 5 são ofertadas intervenções sobre condições 
crônicas muito complexas. A superação da crise que se manifesta, na atenção pri-
mária à saúde, no microespaço da clínica exige mudanças profundas que se dão 
em duas dimensões: mudanças na forma de prestar a atenção à saúde e mudanças 
na gestão dos cuidados primários. Pode-se falar mesmo numa nova clínica e numa 
nova gestão na atenção primária à saúde. As mudanças na clínica são aprofundadas 
em nove dimensões principais: da atenção prescritiva e centrada na doença para a 
atenção colaborativa e centrada na pessoa; da atenção centrada no indivíduo para 
a atenção centrada na família; o fortalecimento do autocuidado apoiado; o equilí-
brio entre a atenção à demanda espontânea e a atenção programada; da atenção 
uniprofissional para a atenção multiprofissional; a introdução de novas formas de 
atenção profissional; o estabelecimento de novas formas de relação entre a ESF e a 
atenção ambulatorial especializada; o equilíbrio entre a atenção presencial e a aten-
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