Uma Breve Historia do Mundo - Geoffrey Blainey
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Uma Breve Historia do Mundo - Geoffrey Blainey


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veio da Europa; seu comércio externo, por mar ou por terra, 
também privilegiava essa direção. 
Dentre os países dos trópicos e de zonas temperadas do mundo, a Índia possui uma 
área de picos gelados maior que qualquer outra; abrange também uma grande área de 
clima quente. Felizmente, as altas montanhas, com o derretimento da neve e do gelo, for-
neciam uma grande vazão de água às planícies secas durante o verão. A água derretida 
das montanhas ajudava a compensar as deficiências e irregularidades das chuvas que vi-
nham principalmente com a monção de sudoeste, proveniente do Oceano Índico. 
O Rio Ganges era um filho dessas montanhas cobertas de neve. Normalmente, cor-
ria o ano todo, carregando água através de uma enorme planície. Depois de 1000 a.C, a 
região do Ganges substituiu a do Indo como a parte populosa do subcontinente indiano. 
As cidades se multiplicaram ao longo do vale e as fazendas tiveram de se multiplicar para 
conseguir alimentar as cidades. Antes de 400 a.C, a Índia provavelmente já tinha 30 mi-
lhões de pessoas. No mundo inteiro, somente a China moderna pôde suplantar essa mul-
tidão de pessoas. 
Nessa época, é provável que a China e a Índia, juntas, tivessem um terço da popu-
lação mundial, talvez mais. As planícies cheias de sedimentos e os rios alimentados pela 
neve eram o segredo de sua capacidade de sustentar tão grandes populações. O Rio 
Amarelo traz consigo, num ano típico, uma carga de mais ou menos 2,1 milhões de tone-
ladas de solo, muito mais que qualquer outro rio do mundo. Em segundo lugar vem o 
Ganges, com mais ou menos 1,6 milhão de toneladas. Aproximadamente metade dos se-
dimentos desses rios é depositada no delta e nos estuários dos afluentes, embora uma 
boa parte venha a se depositar em fazendas e canais de irrigação. Esses poderosos rios 
cheios de lama da Índia e da China não têm rivais; sem o enorme volume de sedimentos, 
a população tanto da China quanto da Índia teriam sido bem menores. 
Enquanto o talento especial da China nessa época era a tecnologia, o da Índia era a 
religião. O hinduísmo, que chegou com os migrantes indo-europeus, venerava seus sa-
cerdotes, ou brâmanes, quase como deuses. Era uma religião flexível, voltada para a cri-
ação de ramificações e segmentos. Seus devotos iam desde ricos sacerdotes e andari-
lhos esfarrapados a multidões que combinavam um hinduísmo mais moderno com seus 
antigos ídolos. A religião nunca foi estática; numa fase inicial, sacrificava animais em oca-
siões importantes e, mais tarde, tendia a santificar a maioria das coisas vivas. Ia desde 
uma crença em muitos deuses especialistas a uma crença no deus supremo, Brahma. 
Os hindus acreditavam que todas as criaturas tinham uma alma e que, após a morte, 
ela migrava para outro corpo. A idéia hoje é vista essencialmente como se um ser huma-
no pudesse renascer numa variedade de espécies de animais ou de insetos; assim sen-
do, vacas e cabras, ácaros e insetos tinham de ser tratados com respeito. Por que a vaca, 
o único dentre os animais fornecedores de carne, era venerada de forma especial na Índia 
é um mistério. 
O hinduísmo não dependia de que seus seguidores se reunissem em grande núme-
ro num templo: seus templos feitos de madeira não eram salões de reunião, mas afirma-
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ções de fé. O credo era cheio de regras para a vida diária e para a vida eterna. Também 
enfatizava a reciclagem de vidas. Essa idéia implantava um pouco de esperança, enquan-
to abençoava as misérias do status quo. A consolação de viver na pobreza e ser humilde 
em seu estrato era que a vida de uma pessoa, se vivida virtuosamente, poderia ser re-
compensada na morte pela passagem da alma a um ser mais digno. Por outro lado, havia 
a possibilidade de a alma da pessoa morta, ao retornar à terra, passar a um animal inferi-
or. 
É impressionante que a Índia tenha se tornado uma democracia nos tempos moder-
nos, porque a duradoura civilização hindu, à primeira vista, era naturalmente hostil às i-
déias de que todos os adultos deveriam ter voto igual, independentemente de sua casta, e 
de que todos os adultos deveriam poder compartilhar da mobilidade social que era parte 
do espírito democrático. Mas o enxerto de árvores mais novas naquelas mais velhas, 
quando parece haver pouca esperança de sucesso e de vê-las crescer com vigor, não é 
uma experiência rara de se ver nas instituições humanas. 
 
O filho pródigo torna-se o Buda 
 
No século 6? a.C, o hinduísmo, tolerante de diversidades, deu origem a novas religi-
ões. Deu início ao jainismo e ao budismo, mais influente. A história de Sidarta Gautama, o 
fundador do budismo, tinha semelhanças com a de Cristo. Nascido na fase da Lua cheia, 
sua chegada foi recebida não por três reis magos e sábios, mas por um só. 
O pai de Gautama era um príncipe nepalês que vivia próximo à fronteira da Índia, 
nas planícies quentes que eram uma nascente do Rio Ganges. Possuía três palácios on-
de Gautama, quando mais velho, aproveitava os entretenimentos que eles proporciona-
vam. Não apresentando nenhum sinal inicial daquele senso de dever que mais tarde pre-
garia, era constantemente entretido por mulheres e música; vivia de regalias, um tipo de 
filho pródigo. Casou-se com sua prima e tiveram um filho, mas isso não trouxe nenhum 
senso de responsabilidade a Gautama. 
Um dia, para surpresa de seus amigos, ele procurou a salvação. Saiu de casa à noi-
te, montando seu cavalo, e sua vida mudou para sempre. Seguindo a forte tradição india-
na do asceticismo, ele tentou punir o próprio corpo; por fim, perdeu tanto peso que suas 
costelas projetavam-se para fora "como ripas de um telhado". Após resistir a muita dor e 
passar longo tempo retirado, ele encontrou a luz. Tornou-se "O Iluminado", ou Buda. 
Daí em diante, Buda procurava a santidade. Achava essencial aniquilar o eu: a meta 
final era o nirvana, uma condição ideal em que ele praticamente se extinguiria. Buscando 
a meta da auto-extinção silenciosa, ele foi recompensado com uma felicidade inexprimí-
vel. Ganhou a admiração de muitos dos pobres, pois não aceitava a idéia hindu de castas. 
Atraiu também os ricos, que estabeleceram em cidades e vilas ao longo do Ganges mos-
teiros budistas para os homens que desejassem se aperfeiçoar. Montou uma ordem reli-
giosa para as mulheres, e sua tia foi a primeira a entrar para o convento. 
Na estação seca, Buda deslocava-se de um local para outro, pedindo comida e en-
sinando a palavra. Os que lhe davam comida sentiam que compartilhavam um pouco de 
sua santidade. Como Francisco de Assis, que veio a domar um lobo selvagem na parte 
central da Itália na era cristã, Buda conseguiu domar, com sua calma presença, um ele-
fante enfurecido. Seus ensinamentos foram mais tarde resumidos pelo político indiano 
Mahatma Gandhi nas palavras: "A vida não é feita de prazeres, mas de responsabilida-
des." 
Nessa época, as partes dinâmicas do globo eram a Índia, o leste do Mediterrâneo e 
a China. Muito distantes umas das outras, tinham poucas ligações entre si e, ainda assim, 
cada uma vivia simultaneamente uma época frutífera. Por volta de 480 a.C, Buda, já ido-
so, pregava sua palavra ao longo do Ganges, Confúcio escrevia seus preceitos no norte 
da China, e os atenienses, tendo acabado de derrotar os persas na Batalha de Maratona, 
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cultivavam as artes e a democracia sobre as quais sua fama veio a firmar-se. 
Buda morreu em cerca de 486 a.C, quando estava perto dos 80 anos de idade. Sua 
morte foi muito sentida na região, mas seu credo não parecia provável de ganhar adeptos 
além das margens do Ganges. Pouco mais de dois séculos após sua morte, houve uma 
mudança de sorte. Aconteceu que o rei Asoka tornou-se o primeiro governante de quase 
toda uma região que, na época de Buda, havia sido fragmentada em muitos reinos. 
Governando a partir de uma cidade no Ganges, esse poderoso rei - talvez o mais 
poderoso do mundo